Os pântanos de Vjosa-Narta, no sudoeste da Albânia, lar de flamingos cor-de-rosa e de outras 200 espécies de aves protegidas, tornaram-se o epicentro de uma intensa batalha entre ambientalistas e cidadãos albaneses contra um megaprojecto da família Trump que também gera preocupações na União Europeia (UE). Nas últimas semanas milhares de pessoas têm protestado nas ruas de Tirana, acusando o governo socialista do Primeiro-Ministro Edi Rama de “trair” uma das áreas ecologicamente mais sensíveis e protegidas do país.
Promovido por Jared Kushner e pela sua mulher Ivanka Trump – filha do Presidente dos EUA – o projecto pode pôr em risco a tão desejada integração da Albânia na UE, caso as autoridades não garantam a sua compatibilidade com a legislação ambiental europeia.
“Estamos a acompanhar de perto a evolução da situação na área protegida de Vjosa-Narta”, alertou recentemente o porta-voz da Comissão Europeia, Guillaume Mercier, garantindo que Bruxelas já manifestou a sua “preocupação” a Tirana.
Considerado o último grande rio selvagem da Europa fora da Rússia, o Vjosa desagua no Adriático após percorrer cerca de 280 quilómetros desde as montanhas do Pindo, na Grécia. É neste delta pouco profundo, com a sua lagoa protegida de Narta e os milhares de flamingos que alberga, que as empresas ligadas a Kushner decidiram investir mais de mil milhões de euros num projecto que consideram promissor.
Embora o flamingo se tenha tornado o símbolo da revolta albanesa, existem mais de 200 espécies protegidas nesta zona, como o pelicano-dálmata, que plana sobre as águas calmas e os caniçais da lagoa, uma paragem vital num corredor migratório de aves que liga a Europa Central ao Norte de África.
A lagoa, onde a água doce do rio Vjosa se mistura com a água salgada da maré que entra por dois estreitos canais ligados ao Adriático, é um local de alimentação ideal para os flamingos, graças em parte à sua pouca profundidade, que nunca ultrapassa os 1,5 metros. Entre 5.100 e 5.300 flamingos, espécie estritamente protegida na UE, foram registados na área num censo realizado em 2024, representando 6% da população total de flamingos na Europa.
“Vejam que bonito. Compreendo porque é que alguém gostaria disto”, disse à EFE um turista espanhol que visitava a zona com a família.
Contudo, a lagoa não está totalmente intocada: sofre de eutrofização, pesca ilegal e derrames de esgotos. “A Narta tem um problema de água parada. A área não foi bem gerida no passado pelas instituições competentes, mas isso não justifica uma nova onda de devastação”, explicou Olsi Nika, da ONG EcoAlbania, à EFE em Tirana.
No final de 2024, uma empresa ligada à “Affinity Partners” – entidade de ‘private equity’ de Jared Kushner, que por sua vez contava com o apoio de dois mil milhões de dólares do Fundo de Investimento Público (PIF) da Arábia Saudita – obteve o estatuto de investidor estratégico do governo albanês. O objectivo era desenvolver um projecto turístico de 1,4 mil milhões de euros na Ilha de Sazan, uma antiga base militar na costa de Vlora.
Os irmãos qataris Ramez e Mohamad Al-Khayyat juntaram-se a Kushner no projecto Sazan e também adquiriram terrenos privados à beira-mar perto da lagoa de Narta, em Zvërnec, em frente a Sazan.
“O que vimos como um potencial projecto não foi um resort turístico, mas sim a construção de uma cidade inteiramente nova dentro de uma área protegida”, sublinha o ambientalista Nika.
De acordo com investigações do “The New York Times” e da “Balkans Research Journalism Network” (BIRN), os projectos Zvërnec e Sazan estão estruturalmente ligados a Kushner através de uma arquitectura corporativa partilhada.
O que começou como uma disputa ambiental rapidamente se transformou numa revolta civil contra a classe política dominante, e especialmente contra as duas figuras que dominaram o panorama político do país desde a queda do comunismo: Rama e o seu rival, o conservador Sali Berisha.
“Rama na cadeia, Berisha na cadeia”, “Nova Albânia” e “O teu fim está próximo” são os gritos que cerca de 10 mil manifestantes em Tirana entoam quase todas as noites. Vêem a controvérsia em torno do resort como o mais recente sintoma de um sistema político corrupto.
“Rama age como se a Albânia lhe pertencesse, e a oposição só quer substituí-lo para continuar a saquear o país”, disse Endrit, um estudante de arquitectura de 21 anos, à EFE.
JTM com agências internacionais



