O poder discretamente acumulado por Dick Cheney nos bastidores do governo de George W. Bush fascinou o engripado Adam McKay, inspirando-o a escrever e realizar “Vice”. O sucesso parece evidente: o filme lidera a corrida aos Globos de Ouro

 

Em 2015, pouco depois do lançamento do seu filme sobre Wall Street – “The Big Short” – o cineasta Adam McKay esteve acamado alguns dias devido a uma gripe e acabou por “devorar” um livro sobre Dick Cheney.

Sendo um tecnocrata que dava prioridade à discrição, “Dick Cheney não era um homem que procurasse que fizessem um filme sobre ele”, reconheceu o realizador e roteirista de “Vice”, a produção biográfica consagrada à ascensão política do controverso ex-vice-presidente de George W. Bush.

“Não parou de me surpreender pela forma como mudou profundamente o curso da história dos Estados Unidos”, explicou McKay na apresentação do filme, que estreou oficialmente nos EUA no dia de Natal.

“Vice” já colecciona nomeações para os principais prémios do cinema, liderando a corrida aos Globo de Ouro ao disputar seis categorias, e está entre os favoritos ao Óscar para Melhor Actor. Aliás, foi sobretudo o trabalho de Christian Bale, irreconhecível sob muitas camadas de maquiagem e com 20 quilos a mais para interpretar Cheney “com sinceridade”, que entusiasmou os críticos.

“Encarna a essência de Cheney”, resumiu a “Rolling Stone”, enquanto a “Variety” classificou-o como “talentoso”. “Christian Bale captura o personagem de Dick Cheney – seco, sarcástico, falsamente maçante (…) – com um brilhantismo que se aproxima da perfeição”, escreveu o site especializado.

“É uma personalidade muito forte, incrivelmente sólida e, de certa maneira, ele entendia – talvez mais do que ninguém – como fazer funcionar as engrenagens do governo”, salientou Christian Bale sobre o “número dois” de George W. Bush entre 2001 e 2009.

Associado à linha dura dos neoconservadores americanos, Dick Cheney também foi secretário da Defesa entre 1989 e 1993, durante a primeira Guerra do Golfo (1991). Segundo recorda a AFP, além de ter sido criticado pela sua política, também foi visado por afirmações sobre a presença de armas de destruição em massa no Iraque e a sua justificação da tortura, que via como “técnicas melhoradas de interrogatório”.

Cheney, de 77 anos, também foi suspeito de conflito de interesses: quando se candidatou a vice-presidente, em 2000, era director executivo da Halliburton, segunda maior companhia petrolífera do mundo, que enriqueceu graças à segunda guerra do Iraque, em 2003.

Em “Vice”, McKay mistura os episódios entre o homem de negócios e de poder na Casa Branca com o jovem originário de Wyoming, que foi expulso da Universidade de Yale. A sua “salvação” deve-se à esposa Lynne, cujo papel é desempenhado por Amy Adams, com uma interpretação que também provocou aplausos de muitos críticos. Em bom plano surgem também Sam Rockwell, no papel do Presidente George W. Bush, um pouco perdido nos labirintos do poder, e Steve Carell, caracterizado como Donald Rumsfeld.

Ainda assim, nem todos se mostram entusiasmados com o trabalho de McKay. Segundo a revista “Time”, alguns críticos apontam para uma visão superficial e caricatural de Cheney, convertido “num vilão de desenhos animados”.

A principal crítica da “Variety” é que o filme nunca responde à uma pergunta “Quem é Dick Cheney?”. “O público deve contentar-se com conceitos como cobiça e poder”.

Já o realizador insistiu que “desde o início teve a vontade de humanizar esses personagens, de se aprofundar neles, de entendê-los”.

 

JTM com agências internacionais