Dicky Tsang é de Macau e de Hong Kong, no entanto o primeiro território ganha cada vez mais espaço no seu coração, juntamente com a paixão permanente pela representação. É este gosto que tem norteado toda a sua carreira profissional, numa pluralidade de personagens, algumas delas que exigiram esforço emocional grande e deixaram mesmo marcas
Liane Ferreira
Passou por uma multiplicidade de trabalhos, mas sempre relacionados com a representação, a sua paixão de infância. Dicky Tsang é actor e director e está neste momento em ensaios para a peça de teatro “Arte”, escrita pela dramaturga francesa Yasmina Reza.
A mãe é residente de Macau, o pai é de Hong Kong, conheceram-se numa viagem do progenitor ao território com o tio e daí não saiu apenas um relacionamento mas dois, um para cada um dos visitantes. Tal ligação marcou a vida do actor, que apesar de ter nascido em Hong Kong, estudou até aos 18 anos em Macau, mudando-se novamente para a RAEHK para fazer o ensino superior.
“Já gostava de actuar quando era criança, andava sempre a dançar, mesmo em frente aos meus pais. Depois no secundário comecei a fazer teatro”, disse, sublinhando que os progenitores sempre apoiaram a sua escolha de profissão.
Actualmente, confessa que já não gosta de Hong Kong. “O ritmo é muito acelerado e tem muita gente, gosto mais de cá. O estilo de trabalho é melhor e é mais fácil conectar-nos com as pessoas, as conversas não são forçadas”, disse ao JORNAL TRIBUNA DE MACAU, após um dia de ensaios.
Para Dicky Tsang, na região irmã “todas as pessoas agem como se tivessem de provar alguma coisa a alguém”. “Eu não sou assim, o que é meu é meu e ponto. Não tenho de dar provas, nem mostrar o que consegui”, afirmou.
Actor por conta própria, recorda que em 2003 quando se graduou na Escola de Artes Performativas de Hong Kong a economia da RAEHK estava a passar por uma fase muito difícil e as ofertas de trabalho eram inexistentes. “Não havia aulas de representação, nem trabalho de encenação ou de palco, não havia espectáculos, nem trabalhos de representação. Comi noodles instantâneos todo o ano por ser a comida mais barata que podia comprar”, contou.
Um amigo, professor numa companhia de teatro profissional em Macau, convidou-o para trabalhar, regressando assim ao território da adolescência. Mais tarde, deu aulas de representação tanto no Conservatório como na Escola Secundária João Brito, no entanto o “ódio pela papelada” e a preferência pela representação e direcção ditaram diversas mudanças, até que optou por ser freelancer.
“É certo que não é estável, mas sou mais independente. Mas este ano está a correr bem, porque tenho trabalhado com uma companhia que faz teatro educacional e visita as escolas”, afirmou. A última peça neste âmbito foi sobre poupar água e o actor considera que tem um impacto muito positivo nas crianças, pois permite-lhes aprender de uma maneira bastante interactiva.
Actor na peça “As Obras Completas de William Shakespeare (resumidas)”, considera que o público está cada vez mais interessado em teatro, mas “depende da produção”. “Se for uma peça de teatro que as pessoas sentem que percebem, consegue-se atrair mais gente. É diferente dos espectáculos mais abstractos. As pessoas cá gostam mais de musicais, porque são mais fáceis de perceber, têm música e as histórias normalmente têm pontos comuns com a vida de quem assiste”, clarificou.
Questionado sobre a dureza dos ensaios e como as personagens afectam quem as veste, Dicky Tsang explicou que a ideia “é que a personagem deixe de existir porque passa a estar em nós”. Afirmando que as emoções são usadas ao máximo, sublinhou que o ambiente envolvente dos actores influencia directamente como é que “se agarra a personagem”.
O nível de comunhão entre a personagem ficcional e o actor pode ser tão elevado que os problemas de um passam para o outro. Tal aconteceu em 2011 quando encarnou a Algernon na peça “Flowers for Algernon” e ganhou uma depressão. “Depois da peça acabar passei mais de dois meses com uma depressão por causa da história. Tive de parar de trabalhar por uns tempos e viajei com a minha namorada. O stress mental e emocional são muito elevados”, referiu.
Para o futuro, expressou o desejo de “parar meio ano e ver teatro noutros sítios do Mundo, especialmente na Alemanha”, porque a escola de representação alemã é diferente ao ponto de interagir com o público durante a peça, olhando directamente para ele.
“Quero ver o que fazem e que tipo de director posso ser”, concluiu.



