CLÁUDIA JOAQUIM/SANDRA MOUTINHO* 

Rui Oliveira nunca esteve em Moçambique, mas descobriu este país através da família e dos pratos que viu cozinhar e que agora serve no seu restaurante, em Lisboa, onde quem lá come sonha com o país das capulanas.

Aos 43 anos, Rui Oliveira está à frente do restaurante moçambicano Oliveira’s, criado com o irmão para recuperar a tradição gastronómica iniciada pelos pais em Quelimane, cidade da província da Zambézia onde a família viveu antes de se instalar em Portugal após a independência de Moçambique.

Os pais – mãe moçambicana e pai filho de portugueses – “saíram numa altura muito difícil e nunca mais voltaram”, conta à Lusa, explicando que espera conseguir convencer os pais a regressarem para então conhecer Moçambique.

Rui Oliveira diz conhecer o país através das histórias dos pais, dos familiares e dos pratos que continuam a cozinhar. As receitas são as mesmas criadas pelo pai, que cozinhava, mas por motivos de saúde já não o faz no restaurante, e a famosa chamuça tem uma receita da mãe, que a torna “única”, garante.

“Nada está escrito. As receitas passaram de boca em boca”, afirma.

A carta do Oliveira’s mantém cerca de 10 pratos e sofreu poucas alterações desde a abertura. Serve o camarão à zambeziana, o arroz de coco, caril de camarão com amendoim, caril de caranguejo e o sarapatel, prato que Rui Oliveira destaca como exemplo das ligações históricas entre Portugal, Índia, Moçambique e Brasil.

Entre os pratos mais emblemáticos está a matapa, preparada com folha de mandioca, amendoim e leite de coco, ingredientes que Rui Oliveira considera difíceis de encontrar em Portugal, pelo menos com a mesma qualidade de Moçambique.

Apesar de existirem alguns produtos nos mercados, o proprietário admite que nem sempre é possível garantir a origem ou a qualidade da folha de mandioca, considerada essencial para reproduzir os sabores tradicionais. “Existe, mas nem sempre sabemos a proveniência ou há quanto tempo está conservada”, explica.

Rui Oliveira reconhece que a restauração enfrenta hoje maiores dificuldades do que antes da pandemia, com menos clientes a manterem o hábito de comer fora regularmente.

Ainda assim, acredita que a ligação emocional à comida continua a trazer pessoas ao restaurante. Não apenas moçambicanos, mas também estrangeiros, portugueses e brasileiros.

“Há muitos brasileiros que dizem com emoção e saudade que a nossa comida os leva até à praia”, conta, explicando que os sabores do leite de coco os transportam para o Brasil e para as memórias da infância.

E outros identificam em alguns pratos a mão da sua avó, o que, para Rui Oliveira, são reacções que valem mais do que qualquer crítica gastronómica. “Dá-nos um conforto maior saber que vamos buscar raízes antigas”, sublinha.

O restaurante está decorado com panos africanos, esculturas e objectos trazidos de Moçambique pela família, um ambiente que muitos clientes associam imediatamente ao país.

“Além da comida é o espaço em si, a energia da própria casa”, conta, acrescentando que mantém, há anos, as cores e a decoração, com o objectivo de transportar as pessoas até às suas memórias.

 

JTM com Lusa