A China possui um amortecedor cada vez mais importante contra os choques nos preços do petróleo: os táxis eléctricos.

Em todas as cidades chinesas, o uso de táxis e a partilha de viagens estão em alta. Em Maio, foram realizadas 3,05 mil milhões de viagens, com dados governamentais a mostrarem que as viagens cresceram 6% desde o início da guerra com o Irão, no final de Fevereiro de 2026, em comparação com o período de Março a Maio de 2025.

O aumento reflecte uma particularidade da estrutura de transportes da China: as tarifas estão a descer apesar do aumento dos preços da gasolina. Analistas dizem que uma onda de novos condutores à procura de trabalho numa economia lenta, combinada com carros eléctricos baratos, está a pressionar as tarifas para baixo, atraindo passageiros que querem poupar com os custos mais elevados da gasolina.

Em Pequim, um motorista de aplicação que trabalha em part-time, de apelido Li, disse que as tarifas caíram entre 10% e 15% desde que começou neste emprego, há seis meses. “A concorrência é intensa”, disse o homem de 36 anos à Reuters, numa estação de carregamento de veículos eléctricos (VE).

O outro lado da moeda pode ser visto nas redes sociais. Desde que os preços da gasolina começaram a subir em Março, centenas de publicações descrevem como viajar de táxi ou através de uma ‘app’ de transporte é mais barato do que conduzir.

“Principalmente quando os preços da gasolina estão altos, prefiro apanhar um táxi para sítios que são demasiado longe para ir de bicicleta. Desta forma, não tenho de procurar estacionamento nem pagar gasolina”, disse Yang, uma proprietária de 45 anos de um carro a gasolina.

Com a electrificação dos táxis, o boom do transporte por aplicação reforça a evidência de que o transporte na China está a tornar-se menos dependente do petróleo, protegendo-o contra choques petrolíferos, como o encerramento do Estreito de Ormuz.

Cerca de metade da frota de táxis da China, composta por 1,3 milhões de veículos, é eléctrica, segundo o Ministério dos Transportes, e nas principais cidades, a percentagem aproxima-se dos 100%.

A Didi, principal aplicação de transporte por aplicação, afirmou ter registado mais dois milhões de automóveis híbridos ou eléctricos em 2025, elevando a sua frota total de veículos não movidos a combustíveis fósseis para oito milhões de automóveis, sendo que os VE representam 75% de toda a quilometragem.

Como resultado, a China consumiu menos 10% de gasolina e menos 14% de gasóleo em Maio do que no ano anterior, embora o transporte rodoviário de mercadorias tenha aumentado 2% e as viagens rodoviárias durante o feriado prolongado do Dia do Trabalhador tenham atingido um máximo histórico.

A Greenpeace prevê que 90% da quilometragem percorrida pelos táxis e pelos serviços de transporte por aplicação será eléctrica até 2035.

“Com o aumento dos preços dos combustíveis, as pessoas estão a conduzir menos os seus próprios carros a gasolina”, disse Daizong Liu, director para a Ásia Oriental do Instituto de Políticas de Transportes e Desenvolvimento da China.

Mas, a procura geral por viagens ainda está a aumentar, pelo que mais viagens estão a migrar para os transportes públicos, como os táxis e o metro”.

 

Veio para ficar?

Esta flexibilidade explica em parte como a China conseguiu reduzir drasticamente as importações de petróleo, que caíram 41% em Junho em termos anuais, sem explorar amplamente as suas reservas. Ao fazê-lo, a China libertou cargas de petróleo num mercado global limitado pela guerra e ajudou a manter os preços do petróleo sob controlo.

“O conflito pode ter acelerado mudanças comportamentais que já estavam em curso, tornando a China estruturalmente menos dependente do petróleo do que o mercado historicamente pressupunha”, disse a analista Natasha Kaneva, do JP Morgan, numa nota de 2 de Julho.

Esta possibilidade será testada à medida que os preços dos combustíveis para os transportes na China regressam aos níveis pré-guerra.

O JP Morgan espera que a procura de gasolina continue a cair em 2027, mas a um ritmo mais lento do que em 2026. Prevê-se um declínio anual de 50.000 barris por dia, em comparação com o declínio muito mais acentuado de 150.000 em 2026.

Zhang, de 45 anos, proprietária de um carro eléctrico e híbrido, disse que costuma conduzir o seu híbrido em modo bateria quando os preços dos combustíveis são elevados. “Quando vi que os preços tinham descido recentemente, fui abastecer o depósito do meu híbrido”, contou.

 

JTM com agências de notícias ocidentais