O capitão de Abril de 1974, e presidente da Associação 25 de Abril, coronel Vasco Lourenço, durante uma entrevista à agência Lusa, sobre as reuniões clandestinas do movimento dos capitães, em Lisboa, 27 de outubro de 2023. O maior susto que Vasco Lourenço viveu durante toda a conspiração para derrubar o regime foi provocado pelo receio de que militares envolvidos no movimento dos capitães entrassem, por engano, numa tentativa de golpe do general Kaúlza de Arriaga. (ACOMPANHA TEXTO DA LUSA DO DIA 05 DE NOVEMBRO DE 2023). ANTÓNIO COTRIM / LUSA
O capitão de Abril de 1974, e presidente da Associação 25 de Abril, coronel Vasco Lourenço, durante uma entrevista à agência Lusa, sobre as reuniões clandestinas do movimento dos capitães, em Lisboa, 27 de outubro de 2023. O maior susto que Vasco Lourenço viveu durante toda a conspiração para derrubar o regime foi provocado pelo receio de que militares envolvidos no movimento dos capitães entrassem, por engano, numa tentativa de golpe do general Kaúlza de Arriaga. (ACOMPANHA TEXTO DA LUSA DO DIA 05 DE NOVEMBRO DE 2023). ANTÓNIO COTRIM / LUSA

ANA MENDES HENRIQUES*

O capitão era “a peça fundamental” da guerra colonial, o que lhe deu uma experiência de comando e de operacionalidade “muito grandes”, disse à Lusa o coronel Vasco Lourenço, recordando o plano militar que derrubou a ditadura em 1974.

“Tínhamos a consciência de que conseguiríamos aquilo que conseguimos, que praticamente toda a gente aderisse”, afirmou, lembrando que “teoricamente” o primeiro inimigo dos capitães no dia 25 de Abril de 1974 eram as Forças Armadas. “Simplesmente, nós tínhamos a consciência de que conseguíamos dominar as Forças Armadas todas”, assumiu, durante uma entrevista realizada na Associação 25 de Abril, a escassas dezenas de metros do Largo do Carmo, palco da rendição do regime, em Lisboa.

Para Vasco Lourenço, a grande virtude da revolução de Abril foi que, contrariamente a outras tentativas, naquele dia as unidades saíram todas ao tempo para concretizar o golpe de Estado.

“As unidades saem todas para cumprirem os seus objectivos, que estão determinados na ordem de operações. Não olham para o lado à espera que o vizinho do lado saia para eles saírem a seguir”, sublinhou.

“Quando o Salgueiro Maia chega a Lisboa [vindo de Santarém], entre as 05:30 e as 05:45, os objectivos que estão na ordem de operações do MFA (Movimento das Forças Armadas) estão todos ocupados; está ocupada a Emissora Nacional, a RTP, o quartel-general, o Rádio Clube Português, o aeroporto”, destacou Vasco Lourenço, especificando que as unidades mais próximas chegaram primeiro à posição determinada.

“Depois, o Salgueiro Maia acaba por estar no lugar certo, no palco principal, acaba por ter um desempenho fundamental, mas o 25 de Abril não se reduz ao Salgueiro Maia, nem se reduz à Escola Prática de Cavalaria. Em todo o país, ao mesmo tempo, em todo o lado, as unidades saíram e cumpriram o que estava previsto”, contou Vasco Lourenço.

A camaradagem entre os militares foi outro ponto a favor do golpe na hora do confronto com as forças enviadas pelo regime para travar a sublevação, segundo Vasco Lourenço: “O David e Silva vem com uma força do lado de Santa Apolónia, quando chega já o Salgueiro Maia está a ocupar o Terreiro do Paço. Ele é mandado para ocupar o Terreiro do Paço e para evitar que o Salgueiro Maia ou o MFA ocupasse. Tinha sido aluno do Salgueiro Maia”.

Salgueiro Maia questionou o oficial sobre o que estava ali a fazer e face à resposta, instou-o a passar para o lado da revolução. “E ele passou”, atestou Vasco Lourenço. “Há esta ligação também entre nós que funcionou bastante bem”, reconheceu.

No dia em que se cumpriu o plano do golpe preparado durante meses em várias reuniões clandestinas, impulsionado com o propósito de encontrar uma solução política para a guerra colonial (1961-1974), Vasco Lourenço encontrava-se nos Açores, para onde tinha sido “chutado” em Março, refere.

“Sou suspeito, porque acabei por não estar a comandar as operações como teria comandado se estivesse cá no 25 de Abril, fui substituído pelo Otelo [Saraiva de Carvalho]. Costumo dizer que, com o Otelo, correu bem, comigo falta fazer a prova”, sorriu.

Otelo, admitiu, acabou por fazer uma ordem de operações e por conduzir as acções “de uma maneira magnífica” e o 25 de Abril “resultou plenamente”, concluiu Vasco Lourenço, 81 anos, presidente da Associação 25 de Abril, que continua a promover a história e os ideais da revolução, em regime pro bono, enquanto vai escrevendo as memórias, que já somam 800 páginas.

 

JTM com Lusa