A biografia de Calouste Gulbenkian, o negociador arménio que foi o homem mais rico do mundo e que deixou a Portugal a maior colecção de arte privada do país, chega às livrarias portuguesas, assinalando 150 anos do seu nascimento

 

Intitulada “O homem mais rico do mundo – As muitas vidas de Calouste Gulbenkian”, é a primeira biografia deste milionário, construída por Jonathan Conlin, a partir da consulta dos arquivos pessoais de Gulbenkian, em arménio, francês, inglês, alemão, russo e turco. É a história da vida e dos negócios de um “homem complexo” e um dos “mais influentes do seu tempo” como o descreve o autor da biografia publicada no aniversário dos 150 anos do seu nascimento (23 de Março de 1869).

Em Portugal, a biografia definitiva desta “enigmática” figura do século XX chega às livrarias, editada pela Objetiva, revelando quem foi na realidade o “senhor cinco por cento” – assim conhecido devido à sua participação na primeira companhia petrolífera a extrair petróleo no Iraque – que, em Julho de 1955, quando morreu em Lisboa com 86 anos, era o homem mais rico do mundo.

O seu nome está associado ao mecenato e à maior e mais importante colecção privada de arte do país, exposta na Fundação Calouste Gulbenkian, mas a fortuna que acumulou ao longo da vida teve origem nos negócios do petróleo e acordos de alto nível que mediou entre governos e barões desta indústria. “Como uma aranha no centro de uma indústria internacional petrolífera e financeira emergente, Gulbenkian manteve impérios e multinacionais como reféns durante mais de cinquenta anos. No entanto, não teria chegado a deter tanto poder se não fosse um negociador e um arquitecto financeiro excepcionalmente dotado”, escreve o autor.

Produtores de petróleo da Califórnia ao Cáucaso procuravam-no pela sua habilidade para angariar capital nos mercados bolsistas de Nova Iorque, Londres e Paris, e foram as suas intermediações que apresentaram as companhias de petróleo americanas ao Médio Oriente, ao ponto de, em 1955, quando morreu, a indústria petrolífera mundial já não ser um monopólio americano, mas “um cartel internacional”. “Até mesmo Estaline procurou o conselho de Gulbenkian, recompensando-o com obras de Rembrandt do famoso Museu Hermitage”, acrescenta.

“Nenhuma outra figura dos negócios da história da indústria petrolífera exerceu tanta influência, em tão larga escala e durante tanto tempo”, e este seu poder permitiu-lhe reivindicar 5% da produção de petróleo do Médio Oriente. Daqui, parte-se para a segunda questão que é a de saber como conseguiu conservar esse prémio, tornando-se o homem mais rico do mundo.

“Gulbenkian construiu um palácio fabuloso em Paris que encheu com tesouros” variados, como quadros do Hermitage, moedas gregas, antiguidades egípcias ou tapetes persas, estando actualmente essas colecções depositadas em Lisboa, na Fundação com o seu nome e que “continua a ser uma das fundações mais ricas do mundo”.

Contudo, a criação e estabelecimento da Fundação não foi pacífica, com o Governo português a fazer um braço de ferro com Inglaterra, França e EUA, para receber a fortuna de Gulbenkian, na qual estavam envolvidas aquelas “poderosas nações”.

Para além dos negócios, a biografia mergulha mais fundo na vida privada de Gulbenkian, que é “tão elusiva e bizantina quanto a sua forma de negociar”. As mulheres de que se fazia acompanhar, os negócios com Estaline, a forma como usava a sua mulher, Nevarte, para aprofundar relacionamentos e alianças, o seu gosto pela filantropia e a sua paixão por arte – que lhe proporcionava “consolo e alívio” em momentos difíceis, como o próprio confessou ao filho, numa carta em que lhe explicava a razão por que coleccionava – são outros temas que o autor desbravou.

 

JTM com Lusa