CLÁUDIA JOAQUIM/SANDRA MOUTINHO*
A antiga atleta são-tomense Eleonora Barbosa Neto, impedida de competir em Portugal por falta de documentos, trocou as pistas pela cozinha e transformou o Cantinho da Nonô, na Damaia, num espaço de sabores dos países lusófonos.

“São Tomé já era muito pequeno para aquilo que eu queria, não havia ninguém que me enfrentasse” na corrida, recorda à Lusa, acrescentando que “sonhava ser como a Maria de Lurdes Mutola”, a atleta moçambicana, e um dia estar no pódio.
Natural de São Tomé e Príncipe, Eleonora, conhecida como Nonô, chegou a Portugal em 1997, aos 17 anos, para viver com a mãe e continuar a carreira no atletismo. Treinou na Cidade Universitária, em Lisboa, e passou por clubes ligados ao atletismo nacional, mas o atraso na legalização “era uma desvantagem”, já que “mesmo que ganhasse alguma coisa não podia representar o clube”, situação que considera ter sido “uma frustração”.
A mudança para a restauração surgiu pouco depois, quando começou a trabalhar como ajudante de cozinha num restaurante lisboeta. “Sabia o que tinha aprendido com a minha mãe, mas se me ensinassem, aprendia, porque ninguém nasce com sabedoria”, afirma.
Anos mais tarde, regressa à escola para concluir o 9º ano e tirar um curso profissional de animação turística, já com a ideia de abrir o próprio negócio. O Cantinho da Nonô abriu em Novembro de 2019, poucos meses antes da pandemia de covid-19, num espaço que, segundo conta, muitos consideravam impossível de manter aberto.
Com poucos recursos, abriu o restaurante apenas com dois trabalhadores e começou por servir sobretudo pratos portugueses, numa altura em que os ingredientes africanos eram menos acessíveis em Portugal. A proprietária fez uma pesquisa de mercado e decidiu adaptar pratos como a francesinha, o bitoque, choco com tinta e bacalhau à minhota “à moda do Cantinho”, criando receitas próprias.
Mais tarde, com a abertura de lojas africanas e a chegada de ingredientes trazidos por conhecidos vindos de África, começou a introduzir pratos tradicionais são-tomenses, como receitas com folha de micoco, “que não pode faltar”, e peixe andala, “o manjar da casa”. Hoje, além de calulu, o restaurante serve cachupa cabo-verdiana, moamba angolana, caldo guineense e pratos inspirados em Moçambique e no Brasil.
A empresária explica que a expansão da carta surgiu dos próprios clientes. “Os portugueses que vivem em Angola pediam funge”, conta, acrescentando que começou depois a introduzir outras cozinhas africanas lusófonas.
O ingrediente principal deste restaurante é “o amor e a humildade”, diz a proprietária, explicando que faz questão que os clientes sintam isso logo à entrada. As paredes do espaço estão cobertas de fotografias de clientes e figuras históricas africanas, entre bandeiras de países da CPLP e retratos de Cesária Évora, Nelson Mandela e Amílcar Cabral.
“Às vezes levantam-se e perguntam: ‘Nonô, posso dar-te um abraço?’”, conta, recordando clientes emocionados por reencontrarem sabores da infância. “Há pessoas que dizem: ‘Nós não vamos a São Tomé, vamos ao Cantinho da Nonô’”, afirma.
Além da restauração, Eleonora Barbosa Neto criou uma associação sem fins lucrativos para distribuir roupa e comida a pessoas carenciadas e aconselha regularmente mulheres e pequenos empreendedores imigrantes que pretendem abrir negócios em Portugal.
“Tenho de agradecer ao país que me acolheu”, diz.
*Jornalistas da agência Lusa



