O novo filme do artista e activista chinês Ai Weiwei, “The Rest”, segue-se a “Human Flow” e procura mostrar “as consequências da crise e luta constante” dos refugiados
O filme “The Rest” será exibido pela primeira vez em Portugal na quinta-feira, na Universidade Católica do Porto, com o comentário do Alto Comissário para as Migrações, Pedro Calado, numa sessão promovida pela associação Meeru – Abrir Caminho com a pós-graduação em Direitos Humanos da Católica, o Cineclube EA e a plataforma “Humans Before Borders”.
Em entrevista à Agência Lusa, Ai Weiwei recorda “Human Flow”, exibido no Festival de Veneza em 2017, como uma “visão global da crise de refugiados no mundo”, enquanto “The Rest” “mostra as consequências da crise e a luta constante” dos migrantes. “Mostra o tipo de jornada por que cada um tem de passar e como são tratados após chegarem à Europa. Escapar para um lugar seguro, uma terra de democracia e liberdade, não corre como eles esperavam”, acrescenta.
Assim, “The Rest” mostra o desencanto de perceber “que as suas jornadas difíceis acabaram de começar”, referiu o artista e activista chinês, admitindo que “Human Flow”, filme com pendor humanitário, possa ter tido “um impacto zero” na sociedade.
“Como artista, faço filmes para estender a minha própria preocupação e aprender com a crise. Quero conhecer estas pessoas, estas pessoas que são chamadas de refugiados. Para mim, são seres humanos, indivíduos, mães, irmãs, em nada diferentes da minha família”, comentou.
Com uma dor e sofrimento que espelha a de muitos pelo mundo, essas semelhanças não chegam para que o artista possa compreender “o impacto que um filme como ‘The Rest’ tem na sociedade global”. “Age, antes, como uma prova do nosso tempo. No futuro, quando alguém vir este filme, vão entender o que fizemos [enquanto sociedade] e o quão vergonhoso foi este tempo”, atirou.
Para Ai Weiwei, “a situação dos migrantes na história da luta humana nunca melhorou”, porque a mudança de locais e culturas estiveram sempre interligadas com a História. “Hoje, a situação não é melhor do que no passado. Esquecemo-nos do que os nossos antepassados enfrentaram ao fugir do perigo e as tentativas que fizeram para ser aceites noutra sociedade”, referiu.
Segundo o artista, que saiu da China em 2015 para viver em Berlim, mudando-se este ano para o Reino Unido, o estado da Humanidade “é muito pobre”. “[A Humanidade] não consegue encontrar-se com os desafios apresentados pela globalização, mesmo com os desenvolvimentos científicos e tecnológicos de que a Europa beneficia”, sentenciou.
Na opinião do artista chinês, que tem trabalhado entre o documentário, as artes visuais e a arquitectura, a Europa precisa “de pensar realmente sobre quais os seus valores”.
Este ano, Ai Weiwei mudou-se para o Reino Unido, após morar quatro anos em Berlim, citando a falta de uma cultura aberta na Alemanha como uma das razões, mas o Brexit e a “incerteza e problemas que o Reino Unido atravessa não são diferentes” da União Europeia, da China ou dos EUA. “Não posso escapar destas questões e estou interessado em ser parte da luta”, conta.
Jovens na RAEHK tentam “proteger direitos essenciais”
Ai Weiwei considera, por outro lado, que os jovens dos protestos em Hong Kong estão “a tentar proteger direitos essenciais que salvaguardem o seu bem estar”. Segundo o artista e activista, a China tem “retirado direitos gradualmente” em Hong Kong, razão pela qual “a luta vai continuar a desenvolver-se”.
“A demanda da Humanidade por liberdade nunca será parada pela violência e a ignorância”, frisou, sustentando que esta situação “não é só sobre Hong Kong e China, mas antes sobre liberdade e democracia contra a ditadura e o autoritarismo”.
Na sua opinião, o mundo está “num momento de mudança”, um contexto no qual “activistas e defensores de direitos humanos são muito mais relevantes do que antes”.
JTM com Lusa



