Reflectindo a conquista de novas liberdades numa sociedade muito conservadora, a estilista saudita Eman Joharjy desenhou vestidos coloridos para uma geração de mulheres mais liberais

 

No dia 24 de Junho, as mulheres na Arábia Saudita viveram um momento histórico, com o fim da proibição de conduzirem motos e automóveis. Emocionadas e orgulhosas, muitas começaram a circular pelas ruas de Riade com um sentimento de maior liberdade, mas este não se restringiu à emoção de estar ao volante. Nesse domingo, a estilista Eman Joharjy e um grupo de amigas trocaram os carros por bicicletas e dirigiram-se até uma praia de Jidá, onde não passaram despercebidas.

Vestindo “abayas” (vestidos) coloridas e bordadas, destacaram-se claramente entre um mar de mulheres com roupões folgados, de corpo inteiro e com a tradicional cor preta. E, segundo sublinha a agência Reuters, ninguém as deteve.

Num reino muçulmano profundamente conservador, este é mais um sinal de que as mulheres estão a conquistar rapidamente novas liberdades, fomentadas pela agenda de reformas empreendida por Mohammed bin Salman, o jovem príncipe da coroa que quer transformar a economia do maior exportador de petróleo do mundo e estimular a abertura da sua sociedade enclausurada.

Entre outras medidas, o governo permitiu recentemente que as mulheres exerçam funções nas forças de segurança e deixou de lhes exigir o consentimento de um familiar do sexo masculino para abrirem um negócio, embora ainda precisem de autorização, por exemplo, para casar e viajar para o exterior.

Há dois anos, o príncipe Mohammed preparou o terreno para muitas mudanças sociais, incluindo o regresso dos cinemas e dos concertos públicos e contendo os poderes da polícia religiosa, que costumava parar mulheres nas ruas e ordenar que se cobrissem.

Hoje, as mulheres praticam desporto nos passeios à beira-mar depois do pôr-do-sol, quando o calor diminui.

“As mulheres sentem-se incentivadas pelo apoio do governo. Eles estão dizer-lhes ‘vocês podem ir correr e praticar desporto’”, disse Eman Joharjy à Reuters, ao sublinhar a necessidade de “passar de uma sociedade sedentária para uma mais activa”.

Em 2007, frustrada pela inexistência de “abayas” feitas para correr ou pedalar, a estilista criou uma para si mesma, e mais tarde passou a fabricá-las para amigas e a vender o que designou como “abaya desportiva”. Agora, há modelos para várias actividades, como a “abaya” para usar a conduzir, que tem capuz, cotovelos justos para impedir que as mangas se prendam no volante e comprimentos menores para facilitar a utilização dos pedais.

Para Eman, o mais importante é não haver sinal da cor preta. “Elas [as abayas] reflectem liberdade e disposição para usufruir da vida e facilitam as coisas para a mulher moderna. Além disso, as mulheres adoram cor”, explicou.

A estilista tem esperança de que as regras sociais rígidas da Arábia Saudita sejam ainda mais aliviadas, mas acredita que muitas mulheres continuarão a vestir “abayas” de uma forma ou de outra por se tratar de uma herança cultural.

 

JTM com agências internacionais