“Julgo que as pessoas criadoras de arte se diferenciam das pessoas activistas em termos de abordagem das mesmas problemáticas.

Muitas vezes, a arte não tem a mesma força nem a mesma eficiência de como resolver os problemas (como o activismo).

Isto não quer dizer que não haja uma acção ou que as pessoas activistas não possam fazer arte.

Precisamos destas duas coisas e faremos, na melhor ocasião,

com que estas tenham o maior efeito.”

 

Musquiqui Chihying ao JTM

 

Comissionada pela Fundación Han Nefkens, sedeada em Barcelona, a instalação de vídeo “The Lighting” (A Iluminação), de 21 minutos, realizada pelo artista de Taiwan, Musquiqui Chihying, e coproduzida pelo seu homólogo alemão Gregor Kasper e cineasta togolês Patrick Ayele-yawou, está em exibição na exposição de arte “Closer to the Ground” no quadro do célebre “Forum Expanded”, do Festival Internacional de Cinema de Berlim, conhecido como Berlinale, embora os seus programas de cinema principais se encontrem concluídos desde o passado domingo, tal como o JTM referiu em devido tempo.

Nas palavras da organização do “Forum Expanded”, “a maneira pela qual os estereótipos coloniais e racistas ficam inscritos nas próprias tecnologias de criação de imagem é explorada por Musquiqui Chihying na sua instalação, ‘The Lighting’, que recorre aos meios digitais e analógicos.”

A instalação tem três ecrãs redondos que oferecem perspectivas visuais diferentes, enquanto há uma só narração em cantonense. Uma outra produção que contém diálogos em cantonense é igualmente uma instalação de vídeo enquanto produção americana, “Devil’s Peak”, criada pelo artista de Hong Kong, Simon Liu. Esta edição da Berlinale conta meramente com estas duas produções em cantonense.

Estando Hong Kong ausente da programação pela primeira vez desde 1986, este ano não se ouve, como habitualmente, o cantonense nos principais cinemas berlinenses durante o festival.

Por outro lado, também não se verifica a participação de Macau, enquanto território de produção, desde a fundação do festival nos anos 50, embora sejam conhecidos os cineastas com laços a Macau, que representaram Hong Kong, Portugal ou Singapura, inclusive, Soi Cheang, natural de Macau e a sua produção “Limbo” a representar a Região Administrativa Especial de Hong Kong no último ano.

 

“Iluminação” sobre “pele escura”

Sendo uma produção a representar a Alemanha, Taiwan e Togo, o seu título em língua chinesa não está impresso no programa como é hábito com os filmes em línguas sínicas. Para além da narração deste documentário experimental inteiramente em cantonense, o filme contém igualmente entrevistas em francês e mandarim.

Percebe-se imediatamente a intenção do artista realizador da obra, Musquiqui Chihying, de origem hakka, de associar o cantonense com o cinema de Hong Kong na sua obra, quando o público visiona uma das últimas partes da mesma. É uma aparente paródia do grande clássico “O Dragão Ataca” (1973) de Bruce Lee. Esta parte com duração de quatro minutos, isto é, um quinto da duração inteira, é protagonizada pelo cineasta berlinense de origem africana, Yugen Yah.

E percebe-se perfeitamente que se trata de uma referência a Chim Kei Lei – nome cantonense de Jim Kelly – e ao seu papel como Williams no seu traje “karategi” amarelo, com várias pessoas artistas com trajes brancos. Entre estas, estão não apenas pessoas amigas do realizador, mas também artistas profissionais como Hanwen Zhang ou Xiaopeng Zhou, com laços cantonenses, e eu próprio.

De novo, esta paródia, que julgo “aparente”, ao desfocar a cena clássica do combate entre Bruce Lee e Robert Wall e ao dar ênfase ao papel de “Williams” (Yugen Yah ensina, nestas cenas, às pessoas asiáticas a arte marcial), adiciona mais uma camada de complexidade de significados culturais: já a cena de combate de Lee e Wall demonstra, de certa forma, o conflito de poderes masculinos “chinês” e “ocidental”, representados numa coprodução dos EUA e Hong Kong, o realizador taiwanês quer, por sua vez, dar mais voz “visual” à imagem do mestre de arte marcial de origem africana.

 

(Anti)racismo e geopolítica da arte

Em entrevista ao JTM, o crítico taiwanês activo entre os festivais de cinema internacionais, Wen Hsu expressa uma opinião semelhante à do realizador:

“Penso que as pessoas artistas estão conscientes dos problemas e partilham opiniões diferentes. Por exemplo, “The Lighting” parte do “kung flu” dito por Trump, faz referência ao cinema de kungfu em língua chinesa, e ainda leva o público a conhecer os telemóveis usados em África, produzidos com apoio da tecnologia de Taiwan. Ao discutir tais temas e acontecimentos estreitamente ligados ao público, somos empurradas e empurrados a discutir as problemáticas do racismo que estão sempre presentes na nossa civilização.”

O comentário do também distribuidor de filmes revela já o enredo inteiro da obra de Musquiqui Chihying. Esta criação artística, com uma clara estrutura das histórias em capítulos, ao abordar a deficiência inerente da tecnologia fotográfica para a “pele escura” e o estereótipo racista que existe nos vários lugares do mundo, mostra justamente a posição antirracista do realizador, que é formado em “arte em contexto” pela Universidade de Artes de Berlim.

As expedições quase antropológicas do artista na República Togolesa levam-no igualmente a integrar, no seu filme, uma interessante demonstração da história de telemóveis produzidos por uma empresa vinda do continente chinês, contanto com a exploração tecnológica de Taiwan para “fazer com que a pele fique mais clara” ou as pessoas com “pele escura” fiquem mais facilmente identificáveis para a fotografia.

Esta revelação aumenta, naturalmente, a complexidade da obra. Pois, o tema, embora sejam o anti-racismo e o racismo abordados de forma omnipresente em Berlim, vai para além disso. O filme em si, mostra uma geopolítica complexa da arte, que atravessa vários continentes. Considero interessante, ao ver estas temáticas abordadas com inteligência artística e estética numa tal produção, observar-se como vários pontos de vista intercontinentais e ideológicos se cruzam.

Neste mundo que parece estar a ser dividido, pelo menos é o que vejo em Berlim, “The Lighting” engendra justamente uma curiosidade artística, já com provas dadas das múltiplas críticas de arte em línguas alemã ou chinesa. Esta obra, de língua chinesa e realizada por um artista de língua chinesa, ao fazer eco a vários temas importantes e muito presentes no actual mundo, merecerá uma leitura atenta também no contexto de Macau.

 

Sobre o artista

Musquiqui Chihying (a primeira parte é nome de artista, a segunda parte do nome é o seu nome próprio verdadeiro) trabalha entre Berlim e Taipé e explora temas, tais como, a identidade sócio-cultural e o modo como esta é construída através do audiovisual. A condição humana e o sistema ambiental na era da capitalização global ou a subjectividade na cultura social dos países do sul são os seus temas principais de investigação. As suas obras têm sido apresentadas na Berlinale, na programação do Centre Pompidou ou no Festival Internacional de Cinema de Roterdão.

Numa recente entrevista à Fundação Hakka de Comunicação Pública de Taiwan, Musquiqui Chihying explica explicitamente que a sua inspiração vem do grande humorista cantonense de Hong Kong, Stephen Chow.

*Natural de Macau onde foi intérprete-tradutor até 2013 vivendo desde então na maior parte do tempo na Europa (Alemanha e Bélgica). Autor do filme experimental “uma ficção inútil” com sucesso internacional. Actual doutorando em antropologia visual e média em Berlim.