Apesar do Inverno estar próximo, não faltam excursões turísticas da China Continental em Portugal, nem a esperança de que a visita de Xi Jinping desempenhe um papel positivo nesse segmento de viagens. Visitantes do Continente chinês e Taiwan teceram elogios aos “preços razoáveis” que encontraram em Portugal, mas também há quem entenda que, embora o número de turistas chineses tenha aumentado nos últimos anos, deve ser reforçada a promoção dos destinos lusos
Rima Cui
Enviada especial a Lisboa
Liderada pelo guia Wang Peng, uma excursão proveniente de Chengdu cumpriu uma visita de apenas dia e meio a Portugal, nomeadamente a Lisboa, Sintra e Cabo da Roca, cuja programação acabou por ser influenciada pelo anúncio da visita oficial do Presidente chinês, preferindo este período em detrimento de outro mais tardio, apesar dos preços não apresentarem grandes diferenças.
“É claro que não vamos ter a oportunidade de ver o Presidente Xi Jinping, mas acredito que as instalações turísticas, o ambiente e a segurança na capital portuguesa são melhores nestes dias, por causa da visita. Nesse sentido, os turistas também usufruem”, argumentou Wang Peng, guia de 30 anos de idade, em declarações à TRIBUNA DE MACAU, quando o grupo passeava junto à Torre de Belém.
A excursão, que deixou a capital da província de Sichuan a 27 de Novembro, integra cerca de 20 elementos, principalmente idosos.
Pastéis de Belém são muito apreciados pelos turistas chineses
“O relacionamento entre a China e Portugal tem sido cada vez mais fortalecido e acho que isso deve ser uma das razões principais para o crescimento exponencial do número de visitantes chineses em Portugal”, apontou o guia, revelando que a frequência das suas deslocações a Portugal em serviço já passou de duas vezes por ano para quatro ou cinco, no intervalo de uma década.
Na zona da entrada da Alfândega portuguesa no Aeroporto de Lisboa, a TRIBUNA DE MACAU encontrou outra excursão, que saiu de Guangdong também a 27 de Novembro. Porém, o grupo composto por 16 pessoas, maioritariamente idosas e mulheres de meia idade, só planeou permanecer em Lisboa durante meio dia, para fazer um “passeio rápido” à Praça do Comércio, Torre de Belém, Padrão dos Descobrimentos e provar os célebres pastéis de Belém.
“Se for possível, na manhã seguinte, podemos dar um salto também ao Cabo da Roca, antes de partirmos para Espanha. Não se pode associar a estadia curta em Portugal à falta de importância dada aos recursos turísticos deste país, porque por exemplo, organizo normalmente 12 excursões por ano e pelo menos quatro incluem Portugal como destino. O peso do turismo de Portugal está a crescer para os chineses”, assegurou o guia do grupo, Leo.
No entanto, embora cada vez mais excursões chinesas integrem Portugal nos itinerários, países como a França, Itália e Suíça continuam a ocupar uma posição prioritária na escolha dos destinos europeus, ressalvou o guia. Ainda assim, após visitarem esses países, os turistas com “melhores condições económicas” podem sentir vontade de visitar novamente a Europa e nesse caso equacionam deslocações a Portugal e Espanha. Segundo Leo, hoje em dia, os “turistas experientes” são os principais visitantes chineses em Portugal.
De acordo com o guia, muitos membros da sua excursão sabem que Xi Jinping visita Lisboa esta semana, mas “não ligam muito à política”.
Muito a fazer na divulgação dos destinos portugueses
Com mais de 10 anos de experiência no sector, Leo entende que ainda não há condições para convencer os turistas chineses a permanecerem mais tempo em Lisboa ou a deslocarem-se a outras cidades do país. “Quase todos os turistas chineses têm a característica de querer conhecer de uma só vez muitos países diferentes. Mesmo que a estadia em cada país possa ser encurtada, acham que vale mais a pena”, explicou.
Apontando que a tendência de aumento do interesse dos turistas chineses por Portugal começou há cerca de oito anos, Leo defende que os governos das duas partes “ainda têm muito a fazer” no âmbito de divulgação sobre o turismo português junto do mercado da China. “Por exemplo, depois de visitarmos o Cabo da Roca, vamos para leste. É preciso optar entre Évora e Mérida, em Espanha, tendo em conta que os pontos turísticos das duas cidades são muito semelhantes. No entanto, a escolha inclina-se sempre para a cidade espanhola, porque é mais conhecida para os chineses”, contou.
Por outro lado, Leo disse que, por norma, são raros os excursionistas que manifestam expectativas em ver alguma coisa em concreto em Portugal, embora alguns jovens que adoram futebol façam questão de mencionar que “é o país de Cristiano Ronaldo”.
Na sua opinião, Portugal tem a vantagem de oferecer preços mais baixos do que muitos países europeus. Mesmo assim, lamenta que Lisboa seja normalmente a primeira paragem de muitas excursões, que seguem depois para Barcelona, o que leva muitos chineses a gastarem pouco dinheiro em Lisboa, até porque ainda estão a adaptar-se à grande diferença horária face à China.
Tsai e a esposa integraram Portugal na viagem de lua-de-mel
“Prefiro que a ordem dos dois destinos seja trocada, porque os produtos portugueses são bons e relativamente mais baratos”, defendeu o guia turístico, oriundo da província de Shandong.
Em contrapartida, queixou-se do “nível insuficiente de sorrisos” na área de serviços em Lisboa, bem como das dificuldades na comunicação com as pessoas locais, que “não dominam muito bem o Inglês”.
Mas, nem todos pensam da mesma forma. Tsai, residente de Taiwan, e a sua esposa, elogiaram a facilidade de comunicação com os portugueses através da língua inglesa. Em declarações à TRIBUNA DE MACAU, perto da Torre de Belém, o jovem casal contou que está a realizar uma viagem de lua-de-mel, tendo passado anteriormente pela Holanda e Espanha. Decidiram conhecer a capital portuguesa, após visitarem Sintra e o Cabo da Roca.
Portugal é “sem dúvida uma boa opção para a lua-de-mel” para casais jovens que estejam a iniciar a carreira profissional, porque “quer a comida quer os produtos têm boa relação entre a qualidade e o custo”, reconheceu Tsai. “Além disso, os pratos portugueses são muito saborosos, muito melhores do que os de Espanha. Aqui há bons mariscos e bom tempo”, acrescentou o jovem de Taiwan.
Segundo Tsai, o interesse e a curiosidade em conhecer Portugal têm crescido na Ilha Formosa nos últimos anos. De acordo com a sua observação, o número de turistas de Taiwan em Portugal tem aumentado tanto ao nível das excursões como nos casos individuais.
Na mesma zona, a TRIBUNA DE MACAU encontrou ainda mais turistas individuais também oriundos de Taiwan.
Por outro lado, no restaurante centenário Pastéis de Belém, sobressaíam os clientes do Continente chinês. Em Mandarim, enquanto mexia no telemóvel, uma turista chinesa falava com o companheiro, mencionando o nome de Xi Jinping, quiçá a propósito da histórica visita que hoje inicia em Lisboa.
Visitantes da China subiram 16,5% até Junho
Nos primeiros seis meses deste ano, Portugal registou a entrada de mais de 171 mil turistas chineses, o que representa um acréscimo de 16,5%, face ao primeiro semestre de 2017, segundo dados do Turismo de Portugal divulgados pela agência Lusa. O número de dormidas aumentou 14,4% para 272.154. No cômputo geral de 2017, o crescimento foi mais expressivo, com Portugal a acolher 256.735 turistas da China, reflectindo uma subida homóloga de 40,7%. Segundo estimativas oficiais, os turistas chineses gastaram 130 milhões de euros em Portugal no ano transacto.



