A Fosun vai tornar-se o maior investidor chinês em Portugal, num cruzamento de participações com o Estado chinês que envolve a EDP e a REN. Na sequência de uma oferta obrigatória ao capital detido pelos pequenos accionistas que não venderam na OPA, a Luz Saúde está prestes a ser detida a 100% pela Fosun/Fidelidade

 

RICARDO JORGE

Correspondente

 

No início de 2014, a empresa chinesa Fosun entrou em Portugal garantindo a compra de 80% do grupo segurador Fidelidade à Caixa Geral de Depósitos. Pouco depois, o grupo chinês lançou-se por via da Fidelidade, na corrida à Espírito Santo Saúde (actual Luz Saúde), enquadrada no colapso do BES/GES. Num processo muito disputado por vários concorrentes, no final ganhou quem pagou mais: a Fosun.

 

8,8% da Bolsa portuguesa

Famílias portuguesas como Amorim ou Soares dos Santos, fundos internacionais, como o soberano da Noruega ou o americano Black Rock, figuram no restrito clube dos maiores investidores no mercado de capitais, com aplicações acima dos mil milhões de euros.

Mas, segundo a edição online do Expresso, “ninguém bate a China quando se fala dos donos da bolsa portuguesa”. As participações na EDP (28,25%) REN (30%) e BCP (27%) valem 4,8 mil milhões de euros, uma cifra que compara com a capitalização do PSI-20 de 54,3 mil milhões.

Segundo salienta o semanário, “é só fazer as contas para se concluir que o peso do capital chinês é de 8,8%, repartido pelo Estado e pelo conglomerado Fosun, a face visível do investimento privado”.

Mesmo assim, ainda há um país europeu onde o investimento chinês ultrapassa o de Portugal: a Finlândia. Nas última duas décadas, a Finlândia e Portugal foram os dois membros da moeda única com maior peso de investimento de origem chinesa na sua economia. O investimento chinês que atraíram entre 2000 e 2017 representa respectivamente 3,2% e 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo o último levantamento anual realizado pela consultora nova-iorquina “Rhodium Group” e pelo “Mercator Institute for China Studies”, um “think-tank” de Berlim. Muito acima da média de 0,8% do PIB na União Europeia, refere o Expresso.

De acordo com os dados que revela, “o valor acumulado foi de €7,1 mil milhões, no caso do país nórdico dos lagos, e de €6 mil milhões para o país mais ocidental do continente. São valores distantes ainda assim das cinco economias da União Europeia que mais atraíram investimento chinês: Reino Unido com €42,2 mil milhões; Alemanha com €20,6 mil milhões, Itália com €13,7 mil milhões, França com €12,4 mil milhões e Holanda com €9 mil milhões. Mas no caso de Portugal, é quase duas vezes o investimento chinês na vizinha Espanha e, no caso da Finlândia, é duas vezes e meia o investimento realizado na vizinha Suécia.”

 

Friedmam cauteloso

Um aprofundamento da relações político-diplomáticas e económicas entre Portugal e a China não acarreta riscos para a política externa portuguesa, mas os países devem moderar as expectativas sobre os resultados que possam advir dos acordos internacionais. O argumento foi defendido por George Friedman, fundador e presidente da “Geopolitical Futures”, a propósito da visita do Presidente chinês. Em entrevista ao Jornal Económico, o analista de geopolítica, que fundou e liderou o “think tank” de geopolítica “Stratfor” durante 20 anos e comanda agora a “Geopolitcal Futures”, disse que “Portugal deveria estar a falar com todas as nações, e ser honrado com uma visita de Xi Jinping tem valor para a imagem de Portugal”.

 

OPA à EDP em 2019

A China Three Gorges (CTG) e os reguladores estão a fazer o que lhes compete quanto à OPA lançada sobre a EDP-Energias de Portugal, estando a ser feitos os ‘filings’ em diferentes países, disse o CEO da EDP, frisando que os calendários da operação não estão dependentes da visita do presidente Xi a Portugal. Referindo que “esse processo tem uma maturidade que nunca foi suposto ter resultados até Dezembro”, António Mexia adiantou que “as coisas estão a seguir exactamente o seu caminho (…) Os filings estão a ser feitos nos diferentes países, na Europa e nos EUA. Faltam alguns, mas já estava previsto”.

Mexia disse aos jornalistas que este “é um processo inevitavelmente longo porque são muitos países, muitas autorizações e questões em particular na Europa e EUA, que exigem muito trabalho por parte do oferente e dos reguladores”. Por isso, “o resultado da operação será algures em 2019, com certeza”, disse, destacando que o balanço da CTG no capital da EDP desde há seis anos, quando os mercados estavam fechados, “é bastante positivo, trouxe músculo á companhia”.

 

O “soft power chinês”

Citado pelo “Observador”, Carlos Rodrigues, director do mestrado em estudos chineses da Universidade de Aveiro, reconhece que a “invisibilidade dos chineses na gestão de topo das empresas que adquirem tem sido uma constante nos últimos anos em todo o Mundo, não só em Portugal”. E dá o exemplo da Volvo ‘sueca’, comprada pela Geely chinesa. “Não há um único cidadão chinês na equipa de gestão da empresa. Obviamente, isto não quer dizer que os investidores chineses não tenham influência nos processos de decisão. Recorrendo novamente à Volvo, a decisão de transferir uma parte da produção da empresa para a China teve, com certeza, ‘mão’ chinesa.” Por esta razão, o académico português considera que este “modus operandi é muitas vezes relacionado com vários princípios que norteiam a política externa chinesa e a presença chinesa no Mundo, alguns deles dos anos 50, e até com o que é geralmente designado por ‘softpower’. Para avaliar a influência chinesa na economia e nas empresas portuguesas, neste contexto, ficam apenas alguns números que permitem quantificar vertentes como os fluxos de IDE (investimento direCto estrangeiro), as contas das empresas e afins”. “Sobre os processos de decisão pouco se pode dizer”, concluiu.

 

Imprensa portuguesa dividida sobre a visita

A imprensa portuguesa parece dividida sobre a visita do Presidente Xi Jinping. O grupo que detém o Diário de Notícias, que já não tem edição diária em papel e o Jornal de Notícias, dominante no norte de Portugal, onde já entraram accionistas chineses, alegadamente via Macau, são naturalmente os que mais espaço dão à visita, sempre de um ponto de vista positivo. O Público, por outro lado, aborda o assunto de forma mais cautelosa, o que também acontece com os jornais económicos. Outros diários que ainda têm edições em papel quase não se referem à visita nas suas edições de ontem, ou então abordam assuntos laterais da presença chinesa em Portugal, caso da futura OPA à EDP. O matutino que mais vende em Portugal, o Correio da Manhã, não tinha uma palavra sobre a chegada de Xi Jinping, na edição de ontem, fazendo grande manchete sobre as “novas reformas que perdem 26 % do salário”.