Em vésperas da primeira visita a Lisboa do actual Presidente da República Popular da China, Xi Jinping, responsáveis de associações da comunidade chinesa em Portugal não hesitaram em expressar alegria e esperança a propósito de um momento decisivo, numa altura em que a amizade entre os dois países atingiu o nível “mais profundo” de sempre. Entrevistados pelo Jornal TRIBUNA DE MACAU em Lisboa, cidade onde Xi Jinping vai permanecer dois dias, responsáveis de três associações manifestaram o desejo de que sejam assinados acordos nas áreas da economia, cultura, turismo e educação. Entre a comunidade chinesa que vive em solo lusitano, prevalece a expectativa de que esta visita possa contribuir para a expansão de oportunidades económicas e comerciais em Portugal. Numa vertente menos oficial, os dirigentes associativos acreditam que não faltarão referências a Cristiano Ronaldo nos encontros com o líder chinês, grande fã do futebol, e destacam o facto do jantar que será oferecido pelo Presidente português dever incluir bacalhau, vinho e Fado

 

Rima Cui

Enviada especial a Lisboa

 

Oito anos depois, Portugal voltará a receber um Presidente da República Popular da China. Acompanhado pela esposa, Peng Liyuan, o Presidente Xi Jinping chegará amanhã a Lisboa, onde vai ser recebido pelo Chefe de Estado português, Marcelo Rebelo de Sousa, e representantes das principais associações da comunidade chinesa em Portugal, no quadro de um programa cuja organização envolveu a Embaixada chinesa em Portugal.

Depois de uma reunião com Marcelo Rebelo de Sousa no Palácio de Belém, Xi Jinping será obsequiado com um jantar no Palácio Nacional da Ajuda, segundo apurou o Jornal TRIBUNA DE MACAU. Na dia seguinte, o Presidente Chinês vai encontrar-se com o Primeiro-Ministro de Portugal, António Costa, com quem testemunhará a assinatura de vários acordos importantes para os dois países, sobretudo na área económica.

Segundo adiantou a Presidência da República Portuguesa, “está prevista a assinatura de um total de 19 instrumentos legais que culminam um processo de intensa negociação bilateral em áreas que vão da cultura à ciência e da agro-indústria ao comércio”.

Um encontro com o Presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, também faz do programa daquela que será a terceira visita de um Presidente chinês a Portugal, depois de Jiang Zemin (1999) e Hu Jintao (2010). Para a Presidência portuguesa, esta visita de Estado, que decorrerá apenas em Lisboa, “ilustra a proximidade e a partilha entre os povos português e chinês ao longo de cinco séculos de História e o modo como têm sabido explorar plenamente o enorme potencial que a Parceria Estratégica luso-chinesa encerra, em benefício dos dois povos”.

Esse é também o sentimento prevalecente entre a comunidade chinesa residente em Portugal. Ouvidos em Lisboa pelo Jornal TRIBUNA DE MACAU, dirigentes de três das associações chinesas mais antigas e importantes em solo português valorizaram muito a visita oficial de Xi Jinping, mostrando-se firmemente convictos de que vai contribuir para fortalecer as relações luso-chinesas e “dar mais força” a essa comunidade, que hoje em dia já é composta por  cerca de 30 mil pessoas.

“Há oito anos, o então Presidente da República Popular da China, Hu Jintao, fez uma visita a Portugal e agora vem Xi Jinping. Acredito que o aparato da recepção será maior, mas ao mesmo tempo mais sereno”, afirmou Choi Man Hin, presidente da Associação de Comerciantes e Industriais Luso-Chinesa, em declarações a este jornal.

Oriundo de Macau, Choi Man Hin rumou a Portugal na década de 1980 e hoje integra o Conselho de Administração do Grupo Estoril Sol, que é presidido por Stanley Ho e detém os casinos do Estoril, Lisboa e da Póvoa de Varzim. Em 1997, decidiu criar a Associação de Comerciantes e Industriais Luso-Chinesa, movido pela determinação de pura e simplesmente “reunir os compatriotas chineses”, já que na altura tinha pouco contacto com a comunidade chinesa, dominada esmagadoramente por pessoas oriundas de Wenzhou, cidade da Província de Zhejiang conhecida pelos “emigrantes ambiciosos em criar negócios em todo o mundo”.

Sem posições políticas, a entidade liderada por Choi Man Hin e composta por 200 membros assume, acima de tudo, o objectivo de impulsionar a ajuda recíproca entre chineses que vivem em Portugal. Nesse sentido, a estrutura associativa encara a visita de Xi Jinping com o “coração calmo”, prometendo prestar o maior apoio possível à Embaixada da China em Portugal para que o Presidente tenha uma recepção cordial.

“Quando o país se torna cada vez mais forte, é claro que todos nós, emigrantes no estrangeiro, sentimo-nos orgulhosos pela vinda da figura mais alta do país. Com toda a certeza, esta visita a Portugal vai suscitar um efeito de aprofundamento da amizade entre os dois países”, salientou o empresário.

Considerando que a amizade entre a China e Portugal tem sido muito boa, mesmo durante a fase de transição de soberania de Macau, e que “a cidade de Macau é marcada pelo intercâmbio no passado entre os dois países”, Choi Man Hin espera que, durante esta visita, sejam assinados muitos acordos importantes na área da economia, cultura e educação, algo que “corresponde ao desejo da toda a comunidade chinesa em Portugal”.

“Até agora, as empresas privadas da China já investiram 9.000 milhões de euros em Portugal e, por ano, vêm cerca de 250 mil turistas chineses. Acredito que todos os chineses que vivem aqui desejam a expansão da economia. Além disso, considero muito revelante que haja avanços na educação depois desta visita, porque é um sector muito importante para as próximas gerações. Os mais novos não se podem esquecer das suas raízes”, sublinhou.

Por outro lado, sobre o jantar que será oferecido a Xi Jinping, o líder associativo vê com bons olhos a escolha da parte portuguesa de pratos de bacalhau, vinho e até actuações de Fado, porque se trata da “essência” nacional de Portugal. Essa parte do programa deverá agradar especialmente à Primeira-Dama chinesa, tendo em conta que Peng Liyuan era uma cantora lírica muito popular no país.

 

Visita de Xi Jinping é motivo de “orgulho”

Apesar de estar sediada no Porto, a Liga dos Imigrantes Chineses em Portugal também garante que vai receber Xi Jinping no dia da sua chegada a Lisboa. Em declarações à TRIBUNA DE MACAU, Wu Zhengguang, presidente da associação, criada em 1992 e que conta agora com 200 membros, começou por recordar que já recebeu os antigos Presidentes Jiang Zemin e Hu Jintao na capital portuguesa. Mas, desta vez, classifica a visita de Xi Jinping como um momento que gera a “maior alegria na comunidade chinesa”.

“Estamos muito contentes e satisfeitos, pois acreditamos que o Presidente Xi Jinping vai trazer os maiores impulsos para reforçar a economia, a cultura e o turismo entre a China e Portugal. Estamos orgulhosos”, enfatizou.

Wu Zhengguang

Para Wu Zhengguang, quarto presidente de uma das associações chinesas “mais antigas e mais democráticas” em Portugal, as relações luso-chinesas têm sido “muito harmoniosas”, contribuindo para que muitas grandes empresas acabem por explorar negócios em Portugal. “Tudo isto tem corrido bem porque a população portuguesa é muito simpática com os chineses. Através de Xi Jinping, tenho a convicção de que as pessoas das duas comunidades terão mais confiança umas nas outras e conviverão de forma mais harmoniosa”, sublinhou Wu.

Na sua perspectiva, com a visita de Xi, os projectos de investimento chineses poderão expandir-se, para além das actuais apostas nas redes energéticas e no sector dos seguros.

O presidente da Liga dos Imigrantes Chineses em Portugal antevê ainda novidades na área turística, que está “cheia de potencialidades para crescer”, uma vez que, na sua opinião, a população da China ainda não conhece muito bem o país localizado na posição mais oeste da Europa. Neste ponto, o responsável destacou, por outro lado, o papel do futebolista Cristiano Ronaldo, cuja imagem contribui para aumentar os conhecimentos sobre Portugal em todo o mundo.

 

Amizade “mais profunda” do que nunca

A cerimónia da recepção ao Presidente chinês também irá contar com a participação da Associação Internacional Buddha’s Light, que congrega actualmente cerca de 500 membros da China Continental, Macau, Hong Kong e Portugal. Dedicada à promoção da cultura tradicional chinesa, bem como a acções de caridade e popularização da língua chinesa, esta entidade fundada em 1995 já ensinou entre 200 a 300 alunos portugueses, de acordo com Jin Yi, mestre da associação.

Jin Yi

Para o responsável da Associação Internacional Buddha’s Light, a visita oficial de Xi Jinping tem especial significado, desde logo porque ocorre numa altura em que a “amizade entre os dois países é a mais profunda de sempre”.

“Localizado no lado mais oeste do continente europeu, Portugal tem mantido muito intercâmbio económico e comercial com a China”, realçou Jin Yi, sublinhando que, desta vez, será assinado um memorando de entendimento no âmbito da iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”, projecto que vai aprofundar ainda mais as relações entre Lisboa e Pequim.

“Em comparação com outros países da Europa, Portugal possui uma vantagem única, derivada da abundância dos recursos marítimos”, acentuou. Nesse domínio, mencionou que a vinda de Xi Jinping poderá ter como um dos objectivos principais a celebração de um acordo para assumir a responsabilidade pela gestão do Porto de Sines. Na perspectiva de Jin Yi, esse passo “irá trazer esperança aos emigrantes chineses em Portugal, gerando oportunidades decisivas para a abertura dos mercados dos dois países, no âmbito de ‘Uma Faixa, Uma Rota”.

“Portugal é o melhor amigo da China na União Europeia, sendo que todos os partidos portugueses apoiam o aprofundamento da cooperação económica e comercial com a China”, frisou o mesmo responsável.

Por outro lado, o dirigente associativo também deu ênfase à imagem associada ao futebol português, nomeadamente do capitão da equipa das quinas. Jin Yi prevê mesmo que o Presidente português não deixará de mencionar o nome de Cristiano Ronaldo no encontro com Xi Jinping, cuja paixão pelo futebol é amplamente conhecida.

Embora muitos jovens chineses já estejam a estudar em Portugal para assimilar as técnicas do futebol, Jin Yi acredita que, depois da visita de Xi, essa tendência será ainda mais evidente e haverá crescentes acções de intercâmbio na área de futebol entre os dois países. “Penso que a táctica da selecção portuguesa é muito adequada para a equipa da China, porque é mais focada na técnica do que na mera força. Para os futebolistas chineses que não têm muita vantagem em termos da aptidão física, seria ideal aprender essa estratégia”, defendeu.

 

Alibaba quer marcas portuguesas na China

O grupo Alibaba, fundado pelo magnata Jack Ma, quer funcionar como porta de entrada para empresas portuguesas interessadas em comercializar os seus produtos no mercado chinês. O desafio foi lançado pelo gigante do comércio electrónico numa conferência organizada no Museu do Oriente, em Lisboa, em parceria com a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) e o Millennium BCP. “Estamos já a trabalhar com algumas das mais bem-sucedidas empresas portuguesas no mercado, como a Parfois, CR7 underwear, Mistolin, Delta Cafés, Prozis, Cutipol e Renova, e estamos ansiosos por poder levar à China ainda mais marcas ‘made in Portugal’ de excelência”, frisou o director-geral da Alibaba para Itália, Espanha, Portugal e Grécia, em entrevista ao Jornal Económico. Rodrigo Cipriani Foresio acredita que os clientes chineses das plataformas do grupo poderão ser cativados por alguns produtos portugueses, como azeite, vinho, têxteis/lar, alimentos e café. Durante a conferência, o grupo chinês e a AICEP também celebraram um Acordo de Desenvolvimento Estratégico, que segundo a agência de investimento representa a “primeira etapa de uma cooperação mais efectiva com Portugal e as empresas portuguesas”. Por outro lado, a Alibaba selou um acordo com a cadeia de centros comerciais “El Corte Inglés”, cujas lojas estão presentes apenas em Espanha e Portugal, para vender os seus produtos em todo o mundo através de plataformas como a “Tmall” e “AliExpress”.