Partiram à procura de uma vida melhor, mas a religião sempre os acompanhou. Dos tempos que passaram em Macau, Nuno Prata da Cruz, Aurea Collaço Meyer e Rui Ramalho recordam as celebrações religiosas, como a primeira comunhão ou o crisma, as procissões até à Colina da Penha e os Padres Lancelote Rodrigues e Manuel da Silva Mendes. Afinal, “uma das características de ser macaense é a religião”

 

Catarina Pereira

 

Os únicos sapatos brancos que calçou na vida, estreou-os na Sé Catedral, onde agora assistiu à habitual missa que faz parte do programa do VI Encontro das Comunidades Macaenses. “Vínhamos todas as semanas à missa na Sé, era sempre aqui. Andei na catequese, claro, e lembro-me da minha primeira comunhão e da confirmação”, conta Nuno Prata da Cruz ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

Quando se fala em memórias, imediatamente se recorda do dia em que recebeu a unção com o Crisma. “Foi a única vez na minha vida em que me vesti todo de branco, até os sapatos. Nunca tive outros sapatos brancos senão aqueles”, afirma, lembrando ainda que o padrinho escolhido pelos pais sempre o “apoiou muito pela vida fora”. Também a festa que os pais lhe fizeram num restaurante junto ao Palácio do Governo ficou gravada na memória – “Foi muito boa”.

O Largo da Sé estava mais movimentado do que é costume: os macaenses vindos de todas as partes do mundo – e não só – iam entrando. Não eram ainda horas de se dar início à missa, mas a Catedral já começava a ficar composta. Enquanto isso, Nuno Prata da Cruz, antigo presidente do Club Lusitano da Califórnia, dizia que “uma das características de ser macaense é a religião”.

Deixou o território há mais de 50 anos, um momento “chocante” na vida de uma então criança: “Foi muito repentino porque foi durante a época do 1, 2, 3, em Dezembro de 1966. Nunca tínhamos pensado em sair de cá, mas dentro de dois meses a nossa vida mudou completamente”.

Nuno Prata da Cruz conta que as mercearias já não vendiam comida – “Diziam que éramos estrangeiros, que já não tínhamos o direito de pertencer a Macau” -, e que se ouvia dizer que algumas pessoas “tinham sio maltratadas nas ruas por chineses”. “O meu pai percebeu que não queria perder tudo aquilo que tinha construído na vida”, acrescenta, lembrando que a experiência de Xangai também ajudou a que tomassem a decisão de emigrar. “Em 1949, quando os comunistas lá entraram, as pessoas saíram apenas com uma malinha e a roupa que tinham no corpo. Ouvia-se dizer isso”, recorda.

Nuno Prata da Cruz

Foram precisas apenas oito semanas para que tivessem autorização para se mudar – “Havia pessoas que às vezes esperavam 10 anos”, aponta. Naquela época, ainda não falava o inglês: “Foi uma completa transformação, ‘from the Earth to the Moon’ [da Terra à Lua], como a gente diz”.

Mas nem por isso a religião ficou de parte. “Fui católico toda a vida e a religião continuou a fazer parte das nossas vidas”, prossegue, sublinhando, contudo, que nos Estados Unidos – onde vive desde então, – a maioria das pessoas é protestante. “Fomos para uma paróquia onde havia muitos católicos… Na escola todos os meus colegas eram protestantes, não era fácil, não ajudou, mas nunca deixei de ser católico”, afirma. Nuno Prata da Cruz diz que voltar à Sé Catedral é “reviver a juventude” e lembra também algo que o deixou muito curioso quando ali se dirigia com a família. “Quando o Santo Padre dava o sermão, os homens saíam e vinham cá para fora, alguns fumavam e outros estavam só à conversa. Depois quando o sermão terminava, regressavam lá para dentro. Achava aquilo muito estranho, nunca descobri a razão, mas pensava que quando crescesse ia fazer o mesmo”, diz, sorrindo.

Após cerca de uma hora e meia, as pessoas começavam a sair: tinha terminado a celebração. Aurea Collaço Meyer, macaense de Xangai, diz que a religião sempre foi e continua a ser muito importante na sua vida. “A minha família costumava rezar o terço a Nossa Senhora de Fátima todas as noites, enquanto católicos, aqui em Macau. Vivemos cá durante dez anos e depois isso foi um hábito que foi ficando”, observa a macaense que hoje vive em Toronto, depois de já ter passado pelo Brasil.

Aurea Collaço Meyer (Esq.)

As memórias mais fortes que tem, contudo, são outras. “É das procissões, especialmente da procissão até à colina da Penha. Chovia sempre, chovia sempre naquele 13 de Maio”, diz, os olhos fixando o horizonte. Hoje continua a participar nos eventos da igreja e a marcar presença na missa.

“Hoje foi espectacular porque não há nada como uma missa gregoriana, é muito especial”, aponta, lamentando que em Toronto “acontece apenas uma ou duas vezes por ano”.

Outro aspecto “muito especial”, continua, era a época em que “ao meio-dia os sinos tocavam e parávamos para rezar a Nossa Senhora, depois à noite tínhamos uma bênção”.

 

“Toda a gente gostava muito do Padre Mendes”

Rui Ramalho nasceu e cresceu em Macau, tendo depois rumado a Hong Kong – quando tinha 17 anos -, para depois emigrar para a Austrália, onde acabou por se fixar. “Como católico romano, ia à Igreja de São Lourenço, que era ali muito perto do Seminário de São José, onde estudava”, recorda. “Era apenas a cinco minutos de minha casa porque vivia muito próximo da Penha. Estudei lá durante cinco anos”, conta Rui Ramalho.

Rui Ramalho

Que recordações tem desses tempos? “Estando na escola católica, recordo-me de muitas celebrações e eventos, mas na maioria lembro-me dos meus professores, que eram padres: o Padre Lancelote [Rodrigues] e o Padre [Manuel da Silva] Mendes, que era o meu favorito. Toda a gente gostava dele, era muito bom padre”, afirma.

Em Hong Kong – onde esteve doze anos -, continuou “a ir à missa todos os domingos”, já na Austrália, diz que vive “como um bom católico”. Rui Ramalho conclui dizendo que é parte daquilo que é ser macaense.