Victor Marreiros e Carlos Marreiros receberam ontem o Prémio Identidade 2019. O reconhecimento foi descrito por Victor Marreiros como “um doce para alma”, enquanto Carlos Marreiros realçou o “significado muito profundo”

 

Salomé Fernandes

 

Realizou-se ontem a entrega do Prémio Identidade 2019 do Instituto Internacional de Macau (IIM), que foi atribuído aos artistas Victor Marreiros e Carlos Marreiros durante uma cerimónia inserida no Encontro das Comunidades Macaenses. Foi “uma decisão unânime do júri”, indicou Jorge Rangel, presidente do IIM.

Victor Marreiros descreveu-se aquando da entrega do prémio como “um homem de bastidores, de muito trabalho mas pouca fala”. “É um reconhecimento, é um doce para alma. Só tenho a agradecer. Nunca trabalhei na vida. Não quero plagiar o Dalai Lama: ‘encontre a sua profissão certa e não trabalharás’. Eu posso usar essas palavras”, acrescentou, em declarações aos jornalistas. O artista aproveitou para agradecer aos seus colaboradores e clientes por permitirem “ser feliz e servir a minha terra”.

Questionado sobre o que gostou mais de concretizar ao longo da carreira, Victor Marreiros destacou três projectos. Por um lado, o esforço que fez para o arranque da TDM, recordando o recorde de ter ficado cinco dias e quatro noites sem dormir. Mas também os Jogos sem Fronteiras e “um dos poucos trabalhos que trabalhei com o meu irmão, a Peregrinação”, o qual permitiu “pôr a noção do design, do vídeo, porque ali quebrei as regras todas e foi um trabalho muito reconhecido em Macau e fora”.

Actualmente dedica-se a trabalhos esporádicos de design gráfico. “O artista é uma espécie de forma de vida, não reforma. Estou sempre a trabalhar, e quando não há pedidos de trabalhos de clientes estou a trabalhar para meu prazer”, frisou.

Ao discursar na cerimónia, Carlos Marreiros destacou a necessidade de se dedicar tempo a trabalhar a ideia do que é ser macaense. E alertou para a os desafios da Grande Baía. “O desafio que as nove cidades, mais as duas Regiões Administrativas Especiais, têm nos próximos anos é precisamente manter a identidade de cada local”.

Aos jornalistas, comentou que o prémio “tem um significado muito profundo”, comentando que a sua atribuição “a alguém que é um ‘enfant terrible’, como eu, não é muito normal”. Isto, apesar de analisar que tem contribuído “a vários níveis para dignificar a memória macaense aqui e no mundo”.

Carlos Marreiros apontou ainda que com o reconhecimento vem uma dupla responsabilidade. “Doravante ainda tenho de fazer mais. Não dá só pendurar e exibir medalhas no peito como decoração. Temos que dignificá-las”, explicou. Para além disso, considera ser mais difícil ganhar um prémio macaense ou nacional português do que um nacional da China ou internacional. “Temos sempre anticorpos e principalmente alguém que não é politicamente muito quieto, como eu”.

Relativamente aos destaques na sua carreira, apontou dificuldades dado que “todas as minhas obras são minhas filhas”. O artista pretende deixar a pouco a arquitectura, devido a um cansaço externo à área em si. “Há uma teia de burocratas que ganharam poder e terreno em macua, que estão nas direcções de serviço para piorar”, criticou. O seu objectivo é, assim, dedicar-se mais “à literatura, às artes visuais, à filantropia, à defesa dos animais e do ambiente”.

Em Junho deste ano, o IIM salientou que os dois galardoados são “dois grandes talentos de Macau e duas notáveis histórias de sucesso”, sendo que ambos dispõem de “significativa projecção no exterior, prestigiando Macau, sua terra natal, além-fronteiras”.