A ligação à gastronomia macaense, vista como uma forma de união entre as pessoas, levou seis equipas a mostrarem as suas aptidões culinárias no Encontro das Comunidades Macaenses. O primeiro lugar do concurso de cozinha macaense de 2019 foi atribuído à Casa de Macau de Toronto, tendo a equipa de Macau assegurado a segunda posição no pódio
Salomé Fernandes
Uma hora depois do início do concurso já os cheiros que emanavam da cozinha denunciavam a quem passava na rua a que actividade se dedicava quem estava dentro do edifício. No interior, encontrava-se a força de braços no trabalho de esticar a massa, vapores a elevarem-se dos tachos e ingredientes à espera de integrarem o prato final. Entre a agitação própria de uma cozinha, provava-se a comida e analisava-se o resultado. Se não fosse pela faixa a anunciar que se tratava da final do concurso de cozinha macaense, os aventais de dois participantes a dizer “ui di sabroso” davam já pistas sobre a gastronomia em questão.
Carlos Cabral, da Confraria da Gastronomia Macaense, indicou que o concurso realizou-se pela primeira vez em 2004, tendo parado alguns anos devido à falta de pessoas para o organizar. “Não temos assim tantas pessoas para trabalharem em tantas coisas ao mesmo tempo. E este ano para aproveitar a Cidade Gastronómica e que a gastronomia macaense também faz parte da lista do Património Imaterial da RAEM, retomámos este concurso”, explicou, indicando que houve vários interessados em participar.
O evento decorreu no Centro de Actividades Educativas da Taipa, com seis Casas a preparar pratos para a final. “Todos sabemos que a comida faz a união das pessoas. Os pratos são a alma que faz unir as pessoas. E muito mais ainda as pessoas da diáspora. Cada família para unir a sua relação com Macau, têm as próprias Casas. E mesmo assim, os locais também se unem dentro das Casas de Macau da sua terra. E é através da comida que eles sentem que estão na Casa”, descreveu.
O “chef” Carlos Cabral apontou como as pessoas que participam em concursos ou demonstrações nunca estão na sua própria casa, existindo dificuldades associadas ao manejamento do material na nova cozinha. “É por isso que há sempre uma grande discrepância para as pessoas a utilização das cozinhas não da própria casa. Isso acontece sempre em todos os lugares, países e casas. Há sempre esta confusão, mas resolve-se, não há problema”.
Neste concurso existiu também uma dificuldade associada ao equipamento, já que cada fogão devia ter o seu próprio conjunto. “Agora, estou a ver que há falta de utensílios, não tão suficiente para esta equipa toda. Por isso vamos tentar fazer uma mudança. As pessoas fazem um prato primeiro e depois fazem o outro”, comentou o membro da comissão organizadora.
Legado macaense
Diana Guerra, uma das participantes, comentou que “não tem espaço, não tem pratos para eu empratar como quero, não tem utensílios suficientes na cozinha para cozinhar”. Já teve um restaurante no qual fazia comida chinesa durante a semana, enquanto aos sábados e domingos apresentava pratos macaenses, e no concurso apresentou arroz gordo, bebinca de leite e minchi tradicional. Este último era requisito obrigatório a todos os participantes.
Membro da Confraria Enogastronómica dos Sabores do Botaréu de Águeda, ao nível da qual realiza workshops e mostras de culinária para introduzir a cozinha macaense, está também a escrever um livro. “Estou a compilar muitas coisas que descobri, que a minha irmã entregou agora, sobre coisas da minha bisavó, de doçarias”. Um trabalho que envolve converter as medidas para gramas.
Questionada sobre se o livro vai ser publicado em Portugal, indicou que aí consegue mais pessoas para garantir o lançamento e vende mais. Mas, reiterou que o que está em causa não são os ganhos. “Não é por dinheiro. Eu quero é deixar um legado macaense”. Parte do conhecimento deixa-o também aos filhos, que refere que “adoram” cozinhar. E que sabem como fazer comida macaense. “Aprenderam comigo desde crianças. Cozinham e divulgam para os amigos deles”.
Para além de se dedicar à comida, tem também interesse em conjugar os vinhos que a podem acompanhar. No entender de Diana Guerra, a comida macaense combina bem com vinho verde. “A nossa comida macaense tem muito sabor muito intenso, os condimentos. E o vinho verde parece que lava a língua e dá vontade de provar outra comida”, disse.
Uma forma de conexão
O primeiro lugar do concurso foi para a Casa de Macau de Toronto, representada pelo casal Virgínia Sanchez e José Rodrigues. Apesar de terem nascido em Macau, foi no Canadá que se conheceram. Virgínia chegou a trabalhar nos Serviços de Saúde antes de emigrar, e tem dois filhos que encontram por cá. Todos os anos vêm a Macau, e José observa que o território passou por “um desenvolvimento enorme. Penso que está fora de controlo, às vezes”.
“Gosto de cozinhar”, comentou José Rodrigues, que se descreveu como um jovem de 78 anos. “Hoje (ontem) foi um grande dia para a gente, encontrar-nos com os amigos, fazer um concurso de ‘cozinhação’ macaense, é uma cozinha típica macaense: porco [balichão], minchi e coqueira. No Canadá fazemos muita comida macaense, portuguesa também. Chinesa de vez em quando”.
Os amigos que têm no Canadá são também de Macau, e José descreveu como nos fins-de-semana geralmente fazem um encontro com cerca de 15 ou 20 pessoas para o qual cada um contribui com um prato. “É como se fosse um buffet. Vinho português sem falta, e um bom cafezinho”, descreveu, apontando facilidade em encontrar os ingredientes necessários.
Já o segundo lugar foi para a equipa de Macau, tendo Fernanda Manhão revelado surpresa com o resultado, adiantando ainda que vai ensinar à filha “sobre a comida macaense”. Os pratos incluíram minchi, caril de galinha e mousse de chocolate. Maria Isidro, mostrou-se também satisfeita “[Estou] muito contente com a minha mãe, porque ela já se preparou há muito tempo, experimentou muitas vezes com as comidas e por isso foi bem”.
Foi o Lusitano Clube da Califórnia a arrecadar a terceira posição, representado por Marie Therese Noronha e Ken Harper. Quando terminou de cozinhar, Marie explicou que nasceu em Hong Kong mas a avó era de Macau. Relativamente à gastronomia macaense, descobriu que “é preciso saber como vai ser o sabor e não há instruções, as receitas são péssimas”, lamentou, comentando a necessidade de fazer adaptações já que há diferenças entre países, nomeadamente ao nível do corte da carne ou dos vegetais.
“E acho que a comida é uma óptima ponte. Toda a gente adora. E agora ainda mais, com a internet, a televisão, toda a gente está a abraçá-la. (…) Quanto mais exposição, mais pessoas estão dispostas a tentar”, defendeu, apontando que é através da comida que “nos conectamos com as outras pessoas”. Questionada sobre as reacções de quem não é macaense à comida, respondeu em tom positivo: “ainda não encontrei ninguém que não adore”.



