Henrique Manhão
Henrique Manhão

Vêm de várias partes do mundo, mas com um objectivo comum: reencontrar amigos de longa data, rever familiares e matar saudades da terra onde nasceram e cresceram e da qual saíram há já muitos anos. Em entrevistas ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, Henrique Manhão, Maria de Lourdes Vaz Albino, Fernando Leopoldo do Rosário e Ivone Carion recordam os velhos tempos que passaram em Macau. Falam ainda sobre os hábitos e tradições que continuam a fazer parte das suas vidas e acerca da importância do Encontro das Comunidades Macaenses. O evento organizado pelo Conselho das Comunidades Macaenses inicia-se amanhã, com as boas-vindas aos participantes no Jardim de Infância D. José da Costa Nunes, prolongando-se até sexta-feira, dia 29 de Novembro

 

Catarina Pereira

 

A Macau de hoje e a de antigamente são como “céu e terra”, mas pisando o solo do território, o presidente da Casa de Macau USA, Henrique Manhão, não sabe explicar o que sente. “É uma sensação muito especial. Ficamos tão satisfeitos, estamos de volta à nossa terra”, diz em entrevista ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

Henrique Manhão fala no plural sabendo que, na maioria, todos os macaenses sentem o mesmo – não tivesse sido, aliás, a viagem até ao território um claro exemplo disso mesmo. “Vinha no avião com sete pessoas de Toronto e estavam todos muito entusiasmados com o Encontro das Comunidades Macaenses. Ficam assim de cada vez que voltam a Macau”, frisa.

Foi precisamente no Canadá que Ivone Carion – membro da Casa de Macau no Canadá (Toronto) – estabeleceu a vida com a filha na altura com cinco anos. “Queria dar-lhe um futuro melhor. Macau não era tão desenvolvida como agora”, observa. Também a pensar na filha, Fernando Leopoldo do Rosário rumou ao mesmo país: “Trabalhei 12 anos em Hong Kong antes de ir. A minha filha estava na primeira classe e aquilo era muito puxado. Decidi partir”. Até hoje lá continua pertencendo à “Macau Cultural Association of Western Canada”.

Não tão longe, mas igualmente distante, Maria de Lourdes Vaz Albino fala a este jornal através de e-mail. A presidente da Casa de Macau em Portugal conta que é a excepção entre os irmãos: foi a única que nasceu em Portugal quando os pais se encontravam de licença graciosa. Voltou a Macau tinha oito meses, mas, à semelhança de muitos dos seus colegas, partiu rumo ao país que a viu nascer para estudar, onde acabou por se fixar.

 

Em Macau “para matar saudades”

Henrique Manhão saiu do território em 1979, já com dois filhos, rumo aos Estados Unidos. Desde então, vem com frequência a Macau: as raízes estão cá. Sempre que vem há paragem obrigatória em locais como a sala de convívio da Santa Casa da Misericórdia, a Associação dos Aposentados, Reformados e Pensionistas de Macau (APOMAC) e a Associação dos Macaenses (ADM). “É lá que reencontro amigos e temos sempre a mesma conversa: falamos sobre o passado”, conta Henrique Manhão. Os desafios de futebol, os jantares de amigos e até os passeios escolares. “Era uma grande festa quando tínhamos os passeios a Coloane. A praia de Cheoc Van não era nada assim dantes, era bonita…”, recorda.

Na memória ficam também as paradas militares – “No 10 de Junho havia sempre desfile militar, como estava na Mocidade Portuguesa era obrigado a participar” -, e as festas com danças e música. “Eram muito animadas, normalmente em casa uns dos outros. Também havia um clube, o “Happy House”, ali na Rua do Campo, que agora já não existe. Esse era o único sítio onde também organizávamos festas”, prossegue.

“A gente vem cá para matar saudades”, afirma pensativo. O Encontro, sublinha, “é muito importante para a nossa identidade”. Vem desde sempre e, enquanto puder, continuará a estar presente, mas lamenta que algumas alterações tenham sido feitas ao programa. “Mudaram um bocadinho… dantes quando a gente vinha havia sempre uma récita de patuá e vinham grupos da diáspora para cantar. Não sei por que razão já não acontece”, aponta Henrique Manhão. Ainda assim, o gosto em estar presente continua a ser o mesmo.

Este ano, a data é “simbólica” até porque “nunca ninguém havia de sonhar que isto ia acontecer” – o macaense refere-se à continuidade que tem sido dada aos Encontros. “No fim da administração portuguesa nunca julguei que isto pudesse continuar, mas a verdade é que começaram logo a tratar dos Encontros após a transferência”, lembra. Enquanto não chega esta altura do ano, lá fora, os costumes e tradições mantêm-se.

“Continuamos a celebrar a Festa do Bolo Lunar e a Festa de Nossa Senhora de Fátima, a 13 de Outubro… Os velhos macaenses têm uma especial devoção a Nossa Senhora de Fátima”, destaca com um sorriso no rosto. Mesmo que muitos sejam de Hong Kong ou Xangai, passaram cá vários anos – “Viveram cá durante a ocupação japonesa, na Segunda Guerra Mundial, por isso têm um certo amor e lembrança a Macau”, frisa. Também a gastronomia continua presente no seu dia-a-dia. Pratos como ‘tacho’ ou ‘chau-chau pele’, o ‘minchi’, ‘capela’ ou os coscorões são habituais ainda que a mais de 12 mil quilómetros de distância.

Maria de Lourdes Vaz Albino

Maria de Lourdes Vaz Albino, por sua vez, encontra na “estreita ligação à terra”, nos amigos do seu tempo e no facto de ser a presidente da Casa de Macau em Portugal razões mais que suficientes para marcar presença no Encontro das Comunidades Macaenses.

A presidente da Casa de Macau em Portugal sublinha que “todos os Encontros das Comunidades são importantes” porque permitem juntar no território várias Casas na diáspora “proporcionando aos seus associados e amigos a possibilidade de reverem a terra onde nasceram ou viveram e de reencontrar as suas origens”. Porém, “no ano em que se assinalam os 20 anos da RAEM o evento ganha particular relevância, pois constitui um exemplo de positiva coexistência de diferentes culturas e de constante progresso e desenvolvimento em prol de Macau e das suas gentes”.

A história de Maria de Lourdes Vaz Albino com Macau começa muito antes da sua chegada ao território com o avô oficial do Exército que para cá veio em 1931, tinha a sua mãe 12 anos. “Por lá foram ficando e quando a minha mãe completou 24 anos conheceu o meu pai, que, por sua vez, tinha ido cumprir serviço militar em Macau”, conta. Os pais viriam a casar-se na Sé Catedral e Maria de Lourdes Vaz Albino viria a crescer e estudar em Macau – primeiro no Colégio de Santa Rosa de Lima e, mais tarde, no Liceu Nacional Infante D. Henrique, onde terminou o então 7º ano em 1964. “Como quase todos os meus colegas de então, uma das opções era sair de Macau para seguir um curso universitário, o que efectivamente sucedeu também comigo”, prossegue.

Os regressos à terra que a viu crescer têm sido sem carácter definitivo, pois a vida familiar e profissional, essas, têm-se “desenrolado em Portugal”. Mas nem por isso alguns dos costumes e tradições deixaram de fazer parte do seu quotidiano em resultado dos “laços muito fortes” que criou. “Há sempre vestígios nas nossas casas, nem que seja uma peça de mobiliário, e ainda nos hábitos, que se mantêm ao longo do tempo”, lembra Maria de Lourdes Vaz Albino, acrescentando que um dos “traços fortes” é a gastronomia macaense ou o hábito de juntar grupos de amigos – nos eventos organizados na Casa de Macau ou fora destes – e de falarem “com algum saudosismo” dos tempos de infância e juventude.

 

“Recordar velhos tempos”

Sentado num dos sofás da APOMAC está Fernando Leopoldo do Rosário acompanhado pela esposa. “Ainda não é meio-dia, faltam oito minutos. Estamos à espera para almoçar”, afirma o macaense que viajou do Canadá para o Encontro. Diz que tem saudades da Macau antiga, pois “agora há muita gente”, mas lembra que nos dias de hoje “a vida está melhor” do que no seu tempo.

Com 74 anos, Fernando Leopoldo do Rosário afirma que a comida macaense continua a fazer parte da sua vida. “Normalmente faço ‘minchi’, é sempre diferente de casa para casa. Aquele de que mais gosto é o que leva porco e camarão”, observa.

Entretanto, entram um ou dois macaenses que o cumprimentam. “São mais próximos do meu irmão, mas também os conheço”, refere. A esposa, Fernanda, está atenta à conversa – nasceu em Macau mas é chinesa. Conheceram-se tinham 15 anos e casaram aos 23 na Igreja de Santo António, onde mais tarde os seus netos viriam a ser baptizados. Há 45 anos que saíram do território, depois de Fernando ter trabalhado em Hong Kong.

Fernando Leopoldo do Rosário

Daqui tem “boas memórias”, a maioria relacionadas com amigos. “Naquele tempo fazíamos malandrices”, atira com um sorriso no rosto. Que malandrices eram essas? “Apanhávamos fruta das árvores dos vizinhos”, recorda. Se tem saudades ou não, não sabe bem dizer, sabe apenas que eram bons esses tempos e que gostaria de continuar a ver aqueles que cresceram com ele. “A cada Encontro que passa vão sendo cada vez menos os amigos que revejo. Alguns já têm uma certa idade, outros já morreram. Mas o mais interessante é conversarmos sobre o passado, sobre as memórias e recordar velhos tempos”, refere Fernando Leopoldo do Rosário. “A vida é assim”, acrescenta.

A passagem por Macau prolonga-se para lá dos dias de actividades incluídos no Encontro, permitindo-lhe assim visitar os familiares, mas também aqueles que já partiram. “De manhã fui ao cemitério e mais logo vou ao outro, onde o meu pai está enterrado. Sempre que venho vou lá duas vezes: assim que chego e quando vou embora”, conta.

Ivone Carion deixou Macau em 1980. Dos tempos que cá viveu lembra as crianças a brincar todas juntas perto do Jardim Camões, mas são as memórias com o pai que lhe surgem em primeiro lugar. “O meu pai trabalhava na Capitania, comandava o navio que dragava o lodo da água para que o ‘ferry’ pudesse passar, mas também tomava conta do Farol da Guia. Nesses dias, levava-me a mim e à minha irmã para o farol e metia-nos a dormir lá no chão, com alguma coisa por baixo”, recorda Ivone Carion a este jornal. “Quando já éramos mais velhas levou-nos lá para tirarmos fotografias”, prossegue.

Ivone Carion

Muito tempo esteve sem se juntar à Casa de Macau no Canadá (Toronto) – “não estava muito interessada”, aponta -, mas assim que o fez sentiu que era a decisão certa. “Encontrava as pessoas de Macau que não via há muito tempo e depois nos Encontros é muito bom porque além de poder ver os amigos que não emigraram, posso ver aqueles que foram para outras partes do mundo”, explica. Este ano, participou até no concurso de gastronomia organizado a propósito do Encontro. “Fiquei em terceiro lugar, eram só seis pessoas, mas foi muito, muito divertido”, acrescenta.

As tradições já não são o que eram: Ivone Carion recorda que antigamente, na sua família “todas as raparigas tinham de utilizar uma tigela e pauzinhos”. “Somos três irmãs e três irmãos, eles e o meu pai utilizavam prato, garfo e faca e nós não, mas agora já não o fazemos”, observa. Ainda assim, caldo verde continua a ser a sopa preferida da filha – “Se eu fizer outra, não a come”, diz a macaense.

Em ocasiões como o Natal a família continua a juntar-se mas em nada se assemelha àquilo que vivenciou em criança. “Quando éramos mais novas, o meu avô comprava um peru vivo, alimentava-o até que estivesse gordo e depois tratava de tudo e cozinhava-o. Havia uma mesa comprida com todas as gerações, pais, filhos, netos…”, lembra.