A língua constitui um entrave ao estudo da gastronomia macaense, mas começa a ser dada atenção às suas origens, indicou Maria João dos Santos Ferreira. A autora de “Macau: Cultural Tourism and Macanese Gastronomy”, indicou que a cultura intangível também atrai pessoas em turismo
Foi ontem lançado o livro “Macau: Cultural Tourism and Macanese Gastronomy”, de Maria João dos Santos Ferreira. Para a autora, a fase das compilações de receitas já passou, apontando como novo relativamente à gastronomia macaense o facto de começarem “a surgir estudos teóricos sobre as origens”, o que “é muito importante”.
“Mas, ainda acho que é um assunto incipiente. Porque como eu, a maior parte dos investigadores portugueses não dominam o chinês, provavelmente os investigadores chineses, os académicos, não dominam o português, portanto temos uma lacuna enorme. Não é fácil traduzir”, comentou.
A par disso, apontou dificuldades associadas ao facto de até ao princípio do século XX o destaque ir para aquilo que se encontrasse associado à gastronomia francesa, já que “o que vinha de França é que era bom”. “Apenas no século XX é que começaram a dar ênfase ao típico e ao local. E hoje em dia com muito mais pertinência porque a gastronomia é um produto turístico. E portanto temos de tirar partido da gastronomia para desenvolver os turismos locais. A maior parte dos picos da procura turística são no Verão, na altura das festas. E é preciso dinamizar localmente fora dessas épocas festivas. Portanto a gastronomia ajuda imenso e é uma mais valia”, comentou.
Hoje, Maria João dos Santos Ferreira considera que as pessoas se encontram mais conscientes da importância da gastronomia macaense do que no passado. “Há uns anos, daquilo que me apercebi, o turismo de Macau assentava muito no património material, que por acaso se diz tangível. Hoje em dia já temos muitos motivos para pensar que não é só o bloco e a pedra que atrai as pessoas, mas sim a tal parte intangível das culturas e das heranças que vamos tendo”.
No entanto, deu o exemplo de algumas localidades brasileiras nas quais a história dos pratos a oferecer é apresentada juntamente com os menus para indicar que ainda não se atingiu esse patamar. A autora não exclui que isso venha a acontecer, mas apontou que “é um longo percurso”, frisando que, na sua maioria, os cozinheiros em Macau são chineses ou filipinos, não dominando o português – língua na qual as receitas estão escritas.
Questionada sobre o que tem sido feito em Portugal neste âmbito, dada a ligação da gastronomia macaense à portuguesa, a autora lamentou que “há muito pouco feito”, indicando não ter conhecimento de qualquer restaurante macaense em Portugal, fenómeno que atribui primeiramente às rendas e à carga fiscal. “Não tenho conhecimentos de finanças, seria complicado dar uma resposta cabal, mas acho que enquanto houver esse senão grande tudo o que se realize é por esforço pessoal das pessoas”, disse.
Mas os entraves estendem-se à geografia. “É um bocado complicado em Portugal arranjar determinados ingredientes. (…) Ou a pessoa compra e leva de cá, ou se manda pelo correio chega lá, esbarra na alfândega e é uma complicação grande”.
O livro é o resultado da tradução da tese de doutoramento defendida em Dezembro de 2015 por Maria João dos Santos Ferreira sobre a gastronomia macaense no turismo cultural de Macau, pela Universidade de Lisboa, com parceria com a Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril. As sugestões então apresentadas para a dinamização da gastronomia macaense sugeriam a criação de roteiros gastronómicos e de um museu.
S.F.



