Um projecto que visa dar a conhecer o papel que a comunidade portuguesa teve na história de Hong Kong, a preservação do patuá e como aproveitar as oportunidades da Grande Baía, foram temas em foco durante a manhã de ontem numa sessão cultural do Encontro das Comunidades Macaenses
Salomé Fernandes
O programa do Encontro das Comunidades Macaenses contou ontem com uma sessão cultural que abordou desde temas associados à história, à língua, e aos desenvolvimentos do futuro. Uma das oradoras foi Belinda Wong, directora do Museu de História de Hong Kong. A instituição está a planear apresentar a história da comunidade portuguesa em Hong Kong, para inaugurar uma série de exposições temáticas rotativas sobre as diferentes comunidades estrangeiras que contribuíram para a cidade. Belinda Wong explicou que a exposição deverá ficar completa em 2022, acrescentando posteriormente que “o objectivo é dar a conhecer aos visitantes compreensão geral da herança cultural, histórias e contribuição da comunidade portuguesa”.
A campanha para recolher objectos para a colecção começou em Abril do ano passado, focada em artefactos, documentos, fotografias e outros itens de interesse histórico, tendo sido recebidos cerca de 100 objectos e fotografias. De acordo com Belinda Wong, a recolha está orientada para cinco áreas: negócios e profissões no período anterior à segunda Guerra Mundial, vida social e entretenimento, estudantes portugueses, práticas da religião Católica e cultura gastronómica.
“A exposição vai ser uma oportunidade fantástica de contar sobre a nossa história, as contribuições que fizemos”, discursou o conselheiro honorário do Museu de Hong Kong, Francisco A. da Roza, destacando como um factor para o sucesso dos macaenses em Hong Kong a sua actuação enquanto mediadores culturais.
À margem do evento, Francisco Roza indicou que os trabalhos estão a decorrer junto de diferentes organizações e especialistas, indicando que a sua contribuição se deve a ser “um membro da comunidade e posso falar inglês, português, cantonês e papiar um pouco, porque cresci em Macau, mas fui para Hong Kong muito jovem para completar os meus estudos”. Relativamente às contribuições para a colecção de artefactos, deu como exemplo a ajuda que está a ser providenciada pela família Lobo.
O membro do Conselho do Clube Lusitano apontou que a exposição deverá durar dois anos, e mostrou-se agradado com a iniciativa do museu. “Fiquei muito surpreso, muito contente”, disse.
Patuá “preserva tradições”
No encontro, a investigadora Elisabela Larrea Eusébio realizou uma apresentação sobre a preservação do patuá. “Como macaenses precisamos de saber sobre a nossa cultura. (…) Para perceber a história do patuá, precisamos de perceber as viagens que os nossos antepassados fizeram”, defendeu.
Apontando que, de acordo com sociologistas, o patuá foi um meio de comunicação durante 300 anos, descreveu como passou por diferentes fases, tendo entrado em declínio por vários motivos. “Os que falavam patuá eram menos educados, não falavam português normalizado e por isso eram vistos como pertencendo às classes mais baixas de macaenses. Como tal, alguns macaenses acharam que estava na altura de tentar proibir as crianças de falarem patuá porque ia prejudicar o seu sotaque português. Como queriam um futuro melhor para os filhos, proibiram a língua de ser falada em casa”, apontou. Outro motivo que apontou para o declínio foi uma reforma educativa, em que a administração portuguesa implementou português nas escolas, proibindo o patuá nesse meio também.
Assim, o abandono do patuá levou-o a “passar de uma língua completa para uma língua performativa”, usado na literatura. Nesse âmbito, apontou “Adé” como uma “figura crucial”, por dar uma estrutura à língua. Para além disso, destacou também os Doci Papiaçam, destacando o teatro como uma ferramenta de preservação. “Para uma língua sobreviver temos de a manter viva, temos de a usar. No teatro podemos ouvir os sons, a entoação, como as conversas decorrem e em que circunstâncias ou situações se usa determinada linguagem”, descreveu Elisabela Larrea Eusébio, acrescentando a possibilidade de os mais velhos transmitirem os seus conhecimentos a outras gerações.
Na sua apresentação, defendeu que, apesar de o patuá já não ser a língua utilizada nas conversações diárias, “preserva tradições, formas de pensar e um sentimento de pertença à nossa comunidade”, pelo que “para preservarmos a nossa cultura precisamos de preservar a nossa língua”. Motivo pelo qual instigou os presentes a praticarem patuá, dando diferentes sugestões, entre as quais que os jovens gravem os seus avós a falar.
Desenvolvimento da Grande Baía
O presente e o futuro da área da Grande Baía foi outro dos temas abordados. António Monteiro, do IIM, explicou como “a China espera trabalhar não apenas com as regiões desta área mas também com o mundo”, apontando diferentes pontos a considerar, entre os quais o desenvolvimento conjunto, o investimento em infra-estruturas pelo mundo, o ambiente de mercado, as melhorias na investigação e educação, a capacidade de governança, sem esquecer a situação actual de Hong Kong. E apontou a necessidade de Macau não esquecer a sua própria identidade.
Por sua vez, José Luís Sales Marques, presidente do Instituto de Estudos Europeus, apresentou ainda medidas para que Macau e os macaenses aproveitem as oportunidades neste contexto. A educação e o bilinguismo/trilinguismo foi apontada como um ponto chave para melhoria da qualidade de vida, tendo sugerido também a adopção de um papel activo no desenvolvimento da mobilidade e conectividade na região.
Para além disso, focou os incentivos à participação de negócios privados em Países de Língua Portuguesa (PLP). “Os Governos podem dizer muitas coisas, mas se os negócios privados não avançarem não haverá oportunidades e vantagens reais”, alertou. José Sales Marques sugere também a promoção do diálogo cultural, estabelecendo Macau como centro das relações entre a China e os PLP, bem como dos falantes de Espanhol. Bem como promover a Grande Baía enquanto destino turístico com uma identidade distinta. Relativamente à importação de talento, reconheceu que a sociedade é “conservadora” nesse ponto, mas frisou que “devemos convencer o Governo e outros sectores da sociedade de que Macau precisa de mais pessoas qualificadas para fazer tudo isto acontecer”.
O presidente da Associação dos Jovens Macaenses, Jorge Valente, observou que a Grande Baía abre a cooperação regional, “criando uma situação de beneficio mútuo para todos, melhorar a qualidade de vida dos residentes e afirmar que ‘Um País, Dois Sistemas’ funciona”. Assim, destacou os incentivos dados pelo Governo Central para os jovens trabalharem na Grande Baía, nomeadamente financeiros.
“Temos muitas vantagens. Por exemplo, os macaenses têm as culturas portuguesa e chinesa no seu ADN. Falamos as duas línguas em casa e conhecemos as duas culturas”, frisou também. Nesse seguimento, deu o exemplo das relações entre o Brasil e a China, destacando que “as coisas mudaram” tendo observado que as pequenas e médias empresas do Brasil começaram a reparar em Macau como uma primeira janela no caminho para a Grande Baía.



