Antes da transferência de soberania, a incerteza do futuro assaltava a mente de diferentes pessoas da comunidade macaense. Mas, a mudança era vista de diferentes formas. Enquanto sobre uns pairavam preocupações sobre a carreira profissional, integração na sociedade ou falta de clareza do futuro, havia também quem se mostrasse confiante. Agora, os olhares sobre o tempo que passou revelam optimismo e sublinham o crescimento da economia
Salomé Fernandes
As memórias do dia da transferência de soberania estão bem presentes. Era um dia muito frio e fazia-se sentir a tristeza. Isabel Manhão descreveu como foi – juntamente com o marido – testemunha de todos os actos. “Estávamos tristes mas também era um virar de página”, comentou ao Jornal TRIBUNA DE MACAU. Era incerto o que se seguia. “Estávamos com medo, não sabíamos como seria o futuro, mas felizmente está tudo bem hoje em dia e nada mudou quanto ao nosso estilo de vida”.
Isabel Manhão
Antes da mudança, a maioria das preocupações sentidas por Isabel Manhão relacionava-se com o emprego. Pertencia à Função Pública, estava a preparar-se para se aposentar e queria perceber se tinha direito à pensão, e se iria recebê-la por Macau ou através de Portugal. “Na altura era o escudo ainda. E o escudo estava sempre a desvalorizar. Então, a minha preocupação e a do meu marido também era sobre o nosso futuro, a nossa pensão”, descreveu.
Na altura tinha três opções. Uma delas era a aposentação. Podia também optar pela desvinculação da administração pública recebendo uma “bolada” de dinheiro calculada com base nos anos de serviço do Estado e a categoria que então exercia. Ou então a transferência para os quadros da República, continuando a trabalhar em Portugal. Decidiu-se pela aposentação, via que considerou mais favorável, e não se arrepende. “Acho que fiz uma escolha muito acertada, porque já estou aposentada há mais de 22 anos e ainda estou a receber”.
O que mais surpreendeu Isabel Manhão no que veio a suceder foi a mudança de Macau que descreveu como sendo “para melhor”. Apontando o acesso a mais coisas, destacou a entrada em funcionamento do Metro Ligeiro, que considera ser “uma coisa muito positiva”, que vai “contribuir para o melhoramento no caos que temos neste momento no trânsito”.
Já Manuel Silvério, afirma que nunca teve qualquer receio da transição, motivo pelo qual optou por ficar em Macau e continuar na Função Pública. “Também como macaense, como pessoa da China criada e educada em Macau não tinha outra opção. Continuar na altura era a melhor opção”, analisou. Em causa estava também ter sempre contactado com pessoas das duas nacionalidades. “Nascer em Macau é mesmo isso”, disse, acrescentando “tanto gosto de Portugal como gosto de Macau, tanto gosto da minha nacionalidade portuguesa ou da minha naturalidade por questões de sangue”.
Manuel Silvério
Mas reconheceu ser quase como “jogar na lotaria”, recordando que a maioria das pessoas da sua geração optaram por sair da Função Pública e ir para Portugal ou emigrar. Também Manuel Silvério se mostrou confiante do caminho que traçou: “Julgo que fiz a escolha acertada”.
Olhando para trás, considerou que a mudança foi dramática, mas não brusca. “Foi uma mudança suave mas também relâmpago, passando de um regime para outro totalmente diferente”, notou, reparando que a cultura de estar e a própria Função Pública eram diferentes da administração portuguesa.
“Felizmente as coisas têm corrido bem, de um modo geral para Macau (…), não só em termos económicos mas também em termos desportivos, já que sempre estive ligado ao desporto”. Vinte anos depois, o antigo presidente do Instituto do Desporto e responsável pela organização de grandes eventos desportivos no território sente-se bem e tenciona manter Macau como a sua base.
A transferência vivida pelos jovens
Os mais novos também receavam o que se avizinhava. Do dia da transferência em si, Duarte Alves recorda-se de estar em casa com o irmão, já que os pais tinham ido participar na cerimónia. “Lembro-me que estava na sala de jantar a ver a cerimónia, o descer da bandeira portuguesa, e o hastear da bandeira chinesa e da RAEM. Obviamente um momento muito emocionante para todos nós, acredito. Era um fim de um capítulo, de uma história muito longa de administração portuguesa”. Assaltava-o a incerteza de como seria “em especial para a comunidade macaense, onde a grande maioria fala e escreve português, fala chinês mas não escreve”. “Mas podemos dizer que esse receio (…) depois não foi justificado porque correu tudo bem”, comentou.
Duarte Alves
“Na minha perspectiva de 16 anos, era um bocado a incerteza do que é que iria acontecer após a transição sob administração chinesa. (…) Era um novo capítulo, para todos nós, para Macau, depois de tantos anos de administração portuguesa. Por isso talvez um bocado de receio, de dúvida do que seria o futuro”, comentou Duarte Alves.
Quando a meia-noite chegou, Paula Carion chegou mesmo a chorar. Apesar de ser muito jovem, sentiu o momento como um fim de história dos portugueses em Macau. Apesar de confessar que não tinha consciência política, notou que “na altura o futuro não foi muito claro”, motivo pelo qual não existia muita confiança no Governo chinês e na mudança.
Os seus principais receios prendiam-se com questões associadas à cultura e nacionalidade. E relativamente aos macaenses persistia a dúvida sobre que nível iriam manter dentro da sociedade. “Sabemos que muitos chineses não gostam de macaenses”, observou, referindo que após a transição viu vários comentários em redes sociais indicando que Macau já não é terra de portugueses mas de chineses, pelo que as coisas deveriam ser feitas de outra maneira.
Depois do descer da bandeira
Duarte Alves encontrava-se então a estudar, focado nos passos académicos e na carreira que queria seguir. Pelo que, apesar de estar consciente do que se passava, não esteve muito envolvido. Acabou por não viver os primeiros 10 anos da RAEM na primeira pessoa. “Mas vinha sempre cá de férias, e via o desenvolvimento, o crescer de Macau, a estabilidade, a segurança”. Destacou ainda questões de segurança, “um dos grandes problemas enfrentados em Macau” antes da transferência. Agora, “temos uma sociedade harmoniosa, pacífica, onde também vimos um rápido crescimento da economia”.
Duarte Alves comparou os 20 anos da RAEM ao desenvolvimento de uma criança, salientando que no início passou uma fase de aprendizagem que teve de ser muito rápida e onde se notaram “algumas falhas, a habitação estava a ser feita, umas coisas não correram tão bem, outras correram muito muito bem”. Mas, vincou, “podemos olhar para trás com um sorriso”. “Estamos todos contentes por ainda existir uma forte presença da comunidade macaense na RAEM. E o mais importante é também a nossa inserção neste novo Macau”, frisou.
Para além disso, descreveu a realização do Encontro das Comunidades Macaenses ao longo das últimas duas décadas, como “uma das grandes mensagens passadas” pelo Executivo da RAEM e pelo Governo Central. Relativamente à língua, no princípio parecia que ia passar para segundo plano mas acredita que acabou por suceder o contrário. “Houve novas directrizes também da parte do Governo Central que o Português seria bastante importante”.
Paula Carion
A atleta Paula Carion considera que “não houve muitas mudanças na vida normal”, mas apontou áreas para melhorias. “Agora o Governo ouve muito a população. Parece que tem medo da gente”, comentou. No seu entender, é necessário respeitar a população mas também “tem de ser mais forte” ao passar uma medida política, querendo uma postura mais assertiva ao Executivo.
Por outro lado, apesar de reconhecer o crescimento económico registado, acredita que isso não foi acompanhado pelo aumento do nível de vida. “Toda a gente só quer dinheiro. Há pessoas que pensam que o dinheiro traz felicidade, mas na verdade acho que não é assim. Prefiro uma vida mais suave, mais simples (…) Antigamente acho que as pessoas de Macau estavam mais contentes do que agora”.
Paula Carion entende que a comunidade macaense ainda é muito unida, mas lamenta que a sensibilidade sobre o ser-se macaense esteja a decrescer. Em causa está uma menor adesão às tradições macaenses que antigamente se realizavam, tais como festas de Natal, considerando que se está a perder herança. “Muitos jovens já não fazem isto ou não sabem o que são tradições da comunidade”.
Um dos motivos que menciona como estando na base desse fenómeno prende-se com os trabalhos por turnos e a falta de tempo para actividades com a família. “Agora, toda a gente está muito ocupada com trabalho, com vida, e já não temos tempo para fazer estas tradições”.
A influência do contexto
José Basto da Silva recorda que existia “alguma animosidade em relação aos portugueses”. Especialmente nos últimos anos antes da transferência de soberania, sentia-se um ambiente tenso. “Lembro-me por exemplo que havia situações desagradáveis. Os táxis não paravam quando eu chamava, os autocarros às vezes não paravam quando eu fazia sinal, mas um pouco mais à frente, fora da paragem, se fosse preciso já paravam para um residente chinês”, lembrou. Na altura sentiu-se em certa medida rejeitado pela comunidade chinesa.
Uma tensão que coincidiu com algumas “situações de descontrolo da segurança”, nomeadamente quando “as máfias de Hong Kong começaram a deslocar-se para cá”. De resto, não se sabia ao certo qual o futuro dos portugueses em Macau e falava-se de que a chefia seria substituída por dirigentes enviados por Pequim. “Portanto, os portugueses iam começar a ser postos na prateleira, com todos os efeitos que vinham dessas decisões”.
José Basto da Silva
E se o clima era de incerteza, “nós, os macaenses, sempre estivemos entalados na pior posição”, comentou José Basto da Silva. “Quando era administração portuguesa os macaenses eram um bocado subalternos. E depois não se sabia com a transição para a China se íamos ficar numa posição sem grande relevância, sem grande importância”, observou, recordando a perspectiva de que os macaenses se encontravam em segundo plano quer a região fosse governada por portugueses ou chineses. Visão da qual se excluíam “alguns casos excepcionais”.
Saiu em 1998 de Macau, por motivos variados. Por um lado os seus pais iam reformar-se, por outro, tinha regressado há dois anos, licenciado, e não tinha intenções de permanecer muito tempo. “Eu particularmente vinha com o objectivo de contribuir para a minha terra antes da entrega de soberania. Portanto, o meu objectivo estava mais ou menos atingido”, explicou.
À época, foi publicada uma lei de integração dos funcionários de Macau nos quadros da República em Portugal, incluindo os que não estavam no quadro da região, casos de José Basto da Silva e da mulher. Pretendiam constituir família, pelo que não fazia sentido os pais irem embora, os sogros estarem em Portugal e o casal ficar em Macau sem apoio. Enquanto engenheiro informático, as perspectivas profissionais em Portugal na sua área eram boas, com o “boom” da internet, para além da possibilidade do país começar a usar a moeda europeia. Equilibrando os factores, optaram por ir para Portugal. José Basto da Silva contou ainda que não queria estar em Macau no dia do arriar da bandeira portuguesa.
Integração na nova realidade
Anos depois, o contexto alterou-se e o casal começou a procurar hipóteses de mudar o rumo de vida. “Tínhamos um eco da situação em Macau, que estava próspera e que alguns amigos estavam a ponderar regressar. Os meus pais entretanto também tinham regressado e portanto pôs-se essa hipótese, tentámos e conseguimos”. Vieram em 2012.
José Basto da Silva já não estava receoso. O desconhecido já não o era, e entendeu que sendo a terra dos chineses, deveriam “ter pessoas da terra, chineses a governar”. A par disso, notou que as chefias incluíam também alguns macaenses e portugueses, para além de chineses. “Nem eram do partido Comunista, eram os chineses locais. A situação estava calma, próspera, os casinos prosperavam também, economia pujante, muitos subsídios, exactamente o oposto a Portugal. (…) A situação era atractiva”, concluiu.
A única preocupação restante deve-se à prosperidade de Macau estar associada aos casinos, podendo a economia sofrer caso os negócios nessa área diminuam.
Com os receios anteriores à formação da RAEM dissipados, revelou-se “bastante satisfeito”. “Estou grato por me terem aceite”, referiu, notando ter ficado no topo do concurso para a função pública, e posteriormente ter sido promovido a chefe funcional ainda que não domine o Chinês escrito.
Lamentou apenas que, em diferentes contextos, o Português não seja utilizado, esperando que o novo Governo “tenha uma atitude mais proactiva”. “Agora estou mais optimista e encaro isto uma oportunidade para desenvolver o meu Chinês (escrito)”.



