Sara B. Figueira
Sara B. Figueira,
Maquilhadora artística
“Vivo cá há 25 anos. Cheguei ao território com 8 anos e guardo memórias de uma infância e adolescência felizes. Fui morar para o NAPE, um novo aterro na altura. Chamavam-lhe a cidade fantasma, porque não morava praticamente lá ninguém. Lembro-me de andar de bicicleta livremente por toda aquela zona e em terrenos baldios, de observar sentada nas rochas o Rio das Pérolas, de ver a estátua de Kun Iam a ser construída quando os casinos e carros eram ainda muito poucos. A ida para a escola fazia-se em cinco a 10 minutos e os autocarros não iam cheios, como agora. Trânsito era quase inexistente e nos fins de semana, íamos à praia de Cheoc Van dar uns belos mergulhos no mar (coisa que hoje é impensável). Agora, a cidade tem vindo a tornar-se cada vez mais frenética. As avalanches de turistas pelas ruas históricas e a poluição são cada vez mais presentes. Não falo só da poluição do ar, mas de ruído também. Macau tinha condições para ser uma cidade de referência a nível mundial em todos os aspectos, mas ainda há um longo percurso pela frente. Teríamos todos de mudar um bocadinho muitos velhos hábitos… Ainda assim, um aspecto positivo que se manteve é ao nível da segurança. Sempre achei Macau uma cidade muito segura”
Natacha Felini
Natasha Fellini,
professora
“Nasci em São Paulo e moro em Macau desde os 17 anos. Frequentei a Escola Portuguesa e formei-me na Universidade de Macau, em Estudos da Língua Portuguesa. Vim com a minha família sem saber o que era Macau. (…) A primeira impressão foi de segurança e qualidade de vida. Até podia sair sozinha, coisa que não fazia, e ganhei mais liberdade. Chamava a “cidade dos cinco minutos”: tudo era resolvido num dia. Não existia o COTAI, nem outros grandes casinos além do Lisboa. Ir às compras era complicado, não tínhamos muitas opções, então às vezes íamos a Hong Kong, Zhuhai ou Shenzhen. (…) Aos poucos Macau foi crescendo, muitas pessoas, e com isso o desenvolvimento: a Torre foi inaugurada, tivemos mais salas de cinema; uma terceira ponte; os casinos trouxeram os ‘shoppings’ e mais visitantes. Começámos a ter mais opções de compras, restaurantes, diversão. Com estas mudanças, sinto que as pessoas não estão tão próximas, já não conseguem estar juntas por causa dos trabalhos e diferentes horários. (…) A cidade, mesmo sendo muito pequena, tem representatividade de todos os países lusófonos entre outros, o que a torna interessante e culturalmente rica (…) Macau não deixou de ter a suas particularidades, costumes e cultura, bem como características de cidade pequena, com traços portugueses, que devemos manter. É considerada a Pérola da Ásia, linda, segura e rica. Com o passar dos anos, Macau foi-me conquistando, hoje sou residente permanente com muito orgulho, e feliz, por ter encontrado um lugar tão seguro”
Jorge Nunes
Jorge Nunes,
Engenheiro mecânico
“Vivi em Macau na década de 1950 durante cinco anos, depois regressei em 1995, embora tenha estado fora alguns anos entre 2004 e 2010. A experiência é boa, por isso, fui sempre voltando porque tenho raízes familiares em Macau e gosto da cidade. Desde então, o nível económico melhorou e os salários subiram na generalidade, mas mais no sector do jogo. Quem trabalha nesta indústria deverá ter sentido um maior poder de compra, porém, uma parte da população local não beneficiou do ‘boom’ dos casinos. Principalmente os mais jovens por conta da inflação das rendas e dos custos de habitação. Por outro lado, as infra-estruturas da cidade, devido ao rápido crescimento, não acompanharam os elevados fluxos de turistas que diariamente nos invadem, pelo que temos de viver num autêntico estaleiro. As rendas elevadas e salários mais atractivos na indústria do jogo não favorecem a criação de pequenos negócios e a diversificação da economia. Além disso, com os níveis actuais de poluição, não me parece que a qualidade de vida possa ter melhorado. Fisicamente, noto o desenvolvimento da zona do NAPE com os novos hotéis, casinos e o fecho da baía da Praia Grande com o aparecimento dos lagos Nam Van.
Irene Abreu,
reformada
“Vim para Macau porque o meu cunhado morava cá nos anos 80. Na altura vim, com os meus filhos e sogros, passar o Natal. A viagem era de 10 dias, mas apaixonei-me por Macau e disse ‘já não volto’. Estava reformada, com 42 anos, e resolvi entregar currículos. Não foi assim tão fácil, mas eventualmente uma porta abriu-se e a partir daí nunca mais parei. Em 1993 voltei a estudar, e arranjei emprego na Universidade de Macau. Em 1999 houve um selecção dentro da Universidade, e eu e o meu marido ficámos. Nessa altura fomos acompanhantes de várias entidades que iriam participar na cerimónia. Acompanhei o professor Cavaco Silva. Tínhamos um carro preto, e fui-lhe mostrar aquilo que conhecia de Macau. Participámos nas cerimónias, inclusivamente na noite da transferência de poderes. Deste então, a paixão nunca mudou. Macau ama-se ou odeia-se. Tirando o Leal Senado e a zona histórica já não tem nada a ver com a altura em que chegámos, mas a tranquilidade e segurança não mudaram. As pessoas andam seguras na rua, salvo raríssimas excepções. Acho que tudo isto funciona bem, ao contrário de Portugal, onde está tudo mal. (…) Gosto muito da minha pátria e ser turista lá, mas apenas durante três meses, porque depois quero logo voltar”.



