O Instituto Cultural não diz se há livros proibidos em Macau, mas ressalva que a seleção para as bibliotecas só tem em conta se as obras enriquecem a coleção do acervo. O PLATAFORMA foi confirmar se autores e livros censurados no Continente estão disponíveis na região.

 

Catarina Brites Soares*

 

Catarina Brites Soares*

O Instituto Cultural (IC) não revela se há autores e obras proibidos, ou que evite comprar. Em resposta ao PLATAFORMA realça que a aquisição de livros para as 16 bibliotecas públicas é feita pela Divisão de Desenvolvimento de Recursos Bibliográficos do Departamento de Gestão de Bibliotecas Públicas e que  só há um critério: “Os livros que correspondem à política de desenvolvimento da coleção são considerados pela Biblioteca Pública de Macau para serem incluídos no acervo.”

Nas Políticas de Desenvolvimento de Coleções da Biblioteca Pública de Macau lê-se que “as colecções da Biblioteca e os serviços não poderão estar subordinados a qualquer forma imprópria de escrutínio, tanto a nível de consciência, como político ou religioso”.

No mesmo documento refere-se também que as obras literárias em língua chinesa são “o corpo principal das coleções” das bibliotecas que inclui obras das regiões de Hong Kong, Macau e Taiwan, do Interior da China, obras literárias em língua chinesa publicadas no estrangeiro e obras em língua chinesa escritas por chineses na diáspora.

Yan Lianke, Yu Hua, Sheng Keyi, Murong Xuecun, Ma Jian e Jung Chang são autores chineses controversos no Continente. Reconhecidos dentro e fora do país, viram muitas das suas obras censuradas por Pequim. Em Macau existem.

Yan Lianke é traduzido em várias línguas. Vencedor de diversos prémios literários, incluindo na China, foi vítima de censura, repetidamente. Em 1994, publicava o primeiro romance. “Xia Riluo”, que tem como protagonistas dois heróis militares, foi uma das obras censuradas. É considerado um livro particularmente corajoso porque na altura Yan era membro do Partido Comunista Chinês e do Exército Popular de Libertação, no qual trabalhava como escritor e tinha como função escrever histórias que moralizassem as tropas. Em Macau, pode ler-se. Encontrámos cinco exemplares nas bibliotecas: um na Sir Robert Ho Tung, outro na da Taipa e os restantes no Depósito Central.

“Serve The People” (2005) – comédia subversiva sobre o culto a Mao Tsé Tung na altura do seu auge, durante a Revolução Cultural – é mais uma das obras referência do escritor que foi proibida pelo Ministro da Propaganda Chinês. “O romance difama Mao Tsé Tung , o exército e é só sexo”, referia a nota que proibiu o livro. Aqui existe. Encontramo-lo nas bibliotecas de Wong Ieng Kuan e na do Jardim Luis de Camões, e há mais três exemplares no Depósito Central.

Já “The Dream of Ding Village” foi publicado no Continente em 2005 mas acaba por ser censurado e banido pouco tempo depois. Volta a ser publicado em Hong Kong, em 2006. É dos mais polémicos do autor. A história tem como cenário uma vila de Henan. Sem outros recursos e nas ânsias de querer acompanhar o rápido desenvolvimento económico da China, o Governo local decide fazer negócio com o sangue dos habitantes que, rapidamente, começam a vender ou a comprar. Anos mais tarde, quando os habitantes começam a morrer por estarem infetados com o vírus da SIDA, só as agências funerárias beneficiam com o mercado. Está nas estantes das bibliotecas Sir Robert Ho Tung, da Taipa e de Wong Ieng Kuan da Taipa. Além destes, há ainda mais quatro cópias no Depósito Central.

Yu Hua é mais um dos autores que está na lista negra do Continente. “China in Ten Words”, um dos livros mais controversos do escritor, foi proibido. O jornal norte-americano The New York Times escrevia que o livro retrata uma nação moralmente comprometida com um desemprego crescente, um fosso entre ricos e pobres cada vez maior, e corrupção endémica. A obra junta memórias pessoais e uma análise às transformações que a China tem atravessado nos últimos 60 anos. Há três no Depósito Central, e mais dois nas bibliotecas de Mong Há e da Taipa.

Murong Xuecun, pseudónimo de Hao Qun, é outra das vozes críticas contra a falta de liberdade de expressão no país. Está entre os escritores mais conhecidos da China, em muito graças ao uso inteligente da internet, como têm feito muitos escritores da mesma geração. Numa entrevista ao jornal The Washington Post dizia: “Posso aceitar que não me deixam falar sobre o 4 de junho ou sobre Tiananmen, mas não posso aceitar a censura injustificada. Tudo o que digo sou autorizado a dizer, tudo o que critico é-me permitido criticar. Este tipo de censura cultural está inextricavelmente ligado ao nosso sistema de educação pública. Um sistema de lavagem cerebral.” Do autor, encontrámos “Leave Me Alone, A Novel of Chengdu” na Biblioteca da Taipa e no Depósito Central.

Sheng Keyi, outro nome incontornável na literatura chinesa contemporânea, também teve a vida dificultada no Continente. Se a obra “Northern Girls” conseguiu ser publicada, o mesmo não aconteceu com “Death Fugue”. As editoras chinesas decidiram que a história era demasiado controversa para a publicarem. Acabou por sair em Hong Kong e Taiwan, e de ser traduzida para inglês por uma pequena editora australiana, Giramondo. “Quando escrevi a obra, sabia que não poderia ser publicada no Continente”, confessou a escritora, numa entrevista ao The New York Times. “Death Fugue” está nas bibliotecas Central de Macau, na da Taipa e do Patane.

De Ma Jian há dois exemplares no Depósito Central de “Beijing Coma” (2008) um dos livros que procurámos do autor. A obra conta a história do 4 de junho sob a perspetiva de uma vítima fictícia do massacre. Dai Wei acorda do coma dez anos depois de ter sido alvejado durante os protestos de Tiananmen, em 1989. “O livro pretende reclamar a história de um Governo totalitário que tem como objetivo apagá-la”, afirmou o autor sobre a obra.

A escritora Jung Chang termina a nossa lista e integra outra: a dos escritores que não são simpáticos a Pequim. A viver em Londres com o marido, o historiador Jon Halliday, com quem assina muitas das obras, só pode regressar ao país para visitar familiares. O jornal The Telegraph referia que a autora tinha de evitar viagens e atividades políticas, pelo menos, até 2013. Este ano, foi uma das convidadas para o Festival Literário Rota das Letras de Macau, mas não esteve no evento. A organização preferiu que não viesse com receio de que fosse impedida de entrar no território depois da alegada pressão do Gabinete de Ligação – representação do Governo Central em Macau – , que terá considerado a visita inoportuna.

A autobiografia “Wild Swans” é o livro mais conhecido da autora. Vendeu mais de dez milhões de cópias pelo mundo. Foi proibido no Continente. Outro dos títulos polémicos, é a biografia “Mao: The Unknown Story”. O livro está nas nas bibliotecas do Mercado Vermelho e Central de Macau. Além dos exemplares, há mais quatro cópias no Depósito Central.

 

Academia livre

Além das públicas, procurámos saber como é a oferta nas bibliotecas das principais instituições de ensino superior de Macau. Começámos pela Universidade de Macau (UMAC). De Yan Lianke, encontrámos “Xia Riluo”, “Serve The People” – em chinês; “The Dream of Ding Village” – em chinês e em inglês. “China in Ten Words”, de Yu Hua, também está nas estantes da biblioteca da UMAC, em chinês e em inglês. De Murong Xuecun, há a obra “Leave Me Alone, A Novel of Chengdu”, em chinês. De Sheng Keyi não encontrámos “Death Fugue”, mas estava “Moral Song”, em livro digital. “Beijing Coma”, de Ma Jian, também está disponível em chinês. E da obra “Mao: The Unknown Story”, de Jung Chang, há 12 exemplares: três em chines, sete em inglês e dois em português.

A biblioteca do Instituto Politécnico de Macau também garante que os alunos podem ler nomes que hoje são referência no Continente e no exterior, apesar de censurados. Tem obras de quase todos os autores da nossa lista. De Yan Lianke há o “Xia Riluo”, “Serve The People”, em chinês, e “The Dream of Ding Village”, em chinês e inglês. “China In Ten Words”, de Yu Hua, há um exemplar. Não há livros de Murong Xuecun nas prateleiras, mas a instituição tem várias obras do escritor em ebook. De Ma Jian encontrámos o “Beijing Coma”, em inglês. De Jung Chang há, à semelhança da biblioteca da UMAC, vários exemplares de “Mao: The Unknown Story” – três em chinês e dois em inglês. De Sheng Keyi só havia uma cópia de “Moral Song”.

 

Livrarias sem stock

Nas livrarias já é mais difícil encontrar a maioria dos autores. Apesar de as obras não estarem disponíveis, todas ressalvam que podem ser encomendadas e estarão em Macau no espaço de dias.

Na Pin Tou só encontrámos “’我只知道人是什麼” (não há tradução em inglês), de Yu Hua, em chinês. Já na Livraria Portuguesa só havia a versão chinesa de “Moral Song”, da autora Sheng Keyi. Na Plaza Cultural, a responsável não pode ajudar-nos, mas numa pesquisa pela livraria demos com “To Live” e “Chronicle of a Blood Merchant”, de Yu Hua. Foi o único autor da nossa lista que encontrámos. A oferta cresce na Elite, a livraria local onde encontrámos mais autores e obras dos nomes que selecionámos. Yan Lianke, Yu Hua, Murong Xuecun, Ma Jian e Jung Chang estão todos à venda no espaço da Rua da Palha. E os livros de Sheng Keyi podiam ser encomendados.

 

Yan Lianke

É um alvo frequente da censura do Governo central. Yan nasceu na província de Henan, em 1958. É dos poucos escritores críticos ao regime que continua a viver no país, em Pequim. A infância do autor coincidiu com um dos períodos mais negros da História da China: o Grande Passo em Frente. Yan já admitiu várias vezes auto-censurar o que publica para evitar ser, posteriormente censurado pelas autoridades. “O meu trabalho causou mais problemas do que qualquer outro autor na China. Mas a perseguição contra mim diminuiu. Acho que isto mostra que, em muitos aspetos, a sociedade está a melhorar, a reformar-se e a desenvolver-se”, referiu Yan. Xia Riluo (1994), o primeiro romance do autor, foi banido e Yan foi obrigado a escrever autocríticas durante quatro meses; Enjoyment (2004) levou Yan a ser convidado a abandonar o Exército de Libertação do Povo, do qual fazia parte; The Dream of Ding Village (2005) também foi banido no Continente e provocou uma disputa legal entre autor e editora. “Não é o livro que queria escrever. Fiz uma autocensura severa. Pensei que chegava”, disse na altura. Mas não chegou. As autoridades proibiram a distribuição, venda e a divulgação do livro.

 

Sheng Keyi

Nasceu na província de Hunan, em 1973, e agora vive em Shenzhen. “Northern Girls” (2004) é um dos seis romances publicados pela autora. Retrata a história das jovens mulheres que abandonaram a China rural rumo aos grandes centros do sul, nos anos 90. Uma vida que a autora conhece bem já que também ela foi uma trabalhadora migrante na altura. “Death Fugue” (2014) é o mais recente romance da autora e o segundo traduzido para inglês. Os protestos de Tiananmen são o cenário de fundo.“Um romance tem de ter a capacidade de ofender”, refere na nota do livro. Quando foi confrontada com o facto de muitas cenas serem quase repulsivas, respondeu: “Então consegui”.

 

Murong Xuecun

É o pseudónimo do ativista Hao Qun, um dos autores chineses mais críticos do regime de censura do país. Nasceu em 1974 na província de Shandong, e começou a escrever ficção em 2001. Em 2014, todos os livros do autor foram retirados das livrarias chinesas e o escritor deixou de ter acesso aos cerca de 8,5 milhões de seguidores no blogue Weibo, onde publicava o que ia escrevendo. Deixou de poder viver da escrita no Continente e hoje vende fruta. “A verdadeira coragem num escritor passa por dizer a verdade quando toda a gente está calada, quando a verdade não pode ser dita. Passa por levantar uma voz, arriscando a raiva do Estado e ofender toda gente pelo respeito pela verdade e pela consciência do escritor”, defende.

 

Ma Jian

É considerado o autor chinês proibido mais conhecido. Nasceu em 1953, em Qingdao. Foi fotojornalista de uma revista publicada pela All-China Federation of Trade Unions, sob o domínio do partido. Ma é residente permanente de Hong Kong, para onde se mudou pouco tempo antes das autoridades no Continente banirem o primeiro livro que publicou, em 1987. Deixou a cidade em 1997, quando o território deixa de ser colónia britânica e passa a estar sob administração chinesa, e foi viver para Londres, onde obteve a nacionalidade. Apesar dos trabalhos do escritor estarem proibidos no Continente, o autor voltava ao país com frequência ainda que, denunciou, sob vigilância apertada. Em 2011, foi impedido de entrar no Continente. “A minha esperança é que o Governo chinês perceba que é inútil reprimir a liberdade de expressão e que percebam que, ao contrário do que acreditam, a força do regime não está na supressão da pluralidade de opiniões e ideias, mas na capacidade e vontade de as incentivar”, defendeu. “Stick Out Your Tongue” (1987)  foi escrito depois de uma viagem de três anos do autor pelo Tibete. O livro foi proibido e fez com que outros trabalhos também fossem restringidos no Continente.

 

Yu Hua

Vive em Pequim, mas nasceu em Hangzhou, na província de Zhejiang, em 1960. Cresceu durante a Revolução Cultural. “Brothers” (2005), que conta a história de dois cunhados durante o período da Revolução Cultural e o das reformas do país, foi um bestseller no país. “China in Ten Words” (2010) é outra das obras referência censurada. “Quando, neste livro, escrevo sobre a dor da China, estou a registar a minha dor também porque a dor da China é a minha também”, disse sobre o livro. O autor publica no jornal New York Times entre outros media. “Alguns dos meus ensaios são proibidos na China. Estou muito pessimista relativamente à situação de liberdade de expressão. Os tempos vão continuar a ser duros, sobretudo para os jovens escritores”, alertou o escritor em declarações ao Asian Review.

 

Jung Chang

Chang, a viver em Londres, é uma crítica feroz do sistema político do Continente. Os livros que publicou – incluindo a biografia sobre o antigo líder Mao Tsé Tung – estão banidos no Continente. Mao morreu em 1976, quando começou o período de reformas na China e o país se começou a abrir. Dois anos depois, Jung partia para estudar. Foi uma das 14 alunas bolsistas enviada em 1978 para o Reino Unido para prosseguir os estudos. “Muitas coisas boas aconteceram entretanto, mas isso não significa que fique extasiada quando vou à China. Fico sempre despedaçada porque há problemas com o desenvolvimento. E, claro, os meus livros estão proibidos. Como é que posso estar completamente feliz com a China?”, referiu a escritora ao South China Morning Post.

 

* Jornalista. Artigo publicado no semanário “Plataforma”, respeitando o acordo ortográfico