Está tudo a postos para o Circuito da Guia receber mais uma edição do Grande Prémio de Macau. Pelo 72º ano consecutivo, as máquinas vão rolar na pista urbana do território, enquanto os pilotos se preparam para largar adrenalina naquele que muitos consideram ser o circuito mais difícil do mundo. Em termos desportivos, o programa contempla duas corridas de monolugares, uma das quais, a Fórmula Regional, se apresenta pela segunda vez. A coordenadora da Comissão Organizadora diz que a introdução dessa categoria, deixando para trás a Fórmula 3, “foi uma aposta ganha”. Em entrevista ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, Lei Si Leng, refere, por outro lado, haver sempre um “plano B” para as motos, mas tudo dependerá das condições climatéricas. Sobre os elementos locais que participam nas mais variadas tarefas organizativas, garante que o evento está já mais de 95% localizado. A valorização da imagem de Macau e os efeitos indirectos nos negócios da cidade foram igualmente temas da conversa

 

VÍTOR REBELO

 

O roncar dos motores no Circuito da Guia vai começar a ouvir-se esta quinta-feira, logo pela manhã, 15 minutos antes das oito horas, altura em que irão para a pista pilotos e máquinas da corrida de motos, integradas no 72º Grande Prémio de Macau (GPM).

A organização pretende evitar a situação ocorrida em 2024, em que a chuva e a pista molhada obrigaram ao cancelamento da corrida de motos. As posições da qualificação acabariam por determinar a classificação final, com triunfo do britânico Davey Todd.

Para este ano, há dúvidas quanto à possibilidade de haver chuva e bastante vento, uma vez que um tufão se encontra nas redondezas. “Espero que o tempo não volte a estragar principalmente a corrida das motos, porque se isso acontecer, mesmo com um plano B que temos sempre em equação, muitas vezes é complicado colocar as motos na pista”, disse a coordenadora da Comissão Organizadora do GPM, em entrevista ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

No escalonamento normal do programa, o Grande Prémio de Motos terá os seus treinos livres hoje e amanhã, às 7h45, e o aquecimento e qualificação no sábado, às 7h10 e 9h10 respectivamente.

Este foi um dos temas da entrevista concedida por Lei Si Leng, que faz a sua estreia como responsável máxima da organização, tendo recentemente assumido a presidência do Instituto do Desporto, em regime de substituição, depois de desempenhar as funções de vice-presidente do organismo.

Para a dirigente, que confessa gostar das corridas de duas rodas, “as provas de motos continuam a ser quase obrigatórias, uma vez que dão prestígio ao acontecimento e preenchem um programa diversificado que diferencia o evento do território de outros que se realizam por esse mundo fora”.

Se a pista estiver seca e limpa, será “óptimo”, podendo os pilotos fazer a sua corrida sem problemas. Caso contrário, a organização “terá de encontrar soluções”, porque as condições climatéricas “é que influenciam a entrada dos pilotos para a pista”.

A ideia da Comissão Organizadora é manter todos os anos o Grande Prémio de Motos, apesar de ser um tema discutível. “Como qualquer circuito, há sempre riscos”, diz, acrescentando que “os amantes das motos vêm a Macau para ver a corrida, apesar dos horários matinais, os pilotos gostam e não nos podemos esquecer que a prova é um marco do GPM, já com 56 edições, por isso tem uma história longa que queremos manter”.

 

Uma competição de futuro para os jovens pilotos

Quanto às provas de automóveis, Lei Si Leng afirma que a introdução da Fórmula Regional (FR) em detrimento da Fórmula 3 (F3) em 2024, resultou. “Foi uma aposta ganha da Federação Internacional do Automóvel (FIA) e da organização de Macau, uma vez que se trata, efectivamente, do futuro dos monolugares, com muitos jovens pilotos à espera de ascender a outros patamares na carreira”, frisou.

A comunicação com a FIA foi determinante para que a F3 fosse substituída pela FR. “Mantivemos sempre contacto com os responsáveis da FIA, colaborando na questão da entrada da FR como competição de futuro, em detrimento da F3”, referiu a número um da Comissão, para quem a Fórmula 1 “continua a ser o sonho dos jovens pilotos que costumam vir a Macau, que agora têm a FR como um dos níveis da pirâmide para chegar ao patamar superior das corridas de automóveis”.

Para esta edição do GPM, a FR volta a trazer ao território as principais figuras da temporada, muitas das quais se sagraram campeãs nos diversos países ou ganharam campeonatos continentais.

“Voltamos a ter este ano na RAEM os principais pilotos da FR, alguns muito novos, mas com grande qualidade, tal como na estreia. E, com isso, julgo que as críticas que se fizeram a propósito da saída da F3 já não se justificam e os adeptos ficarão satisfeitos pela decisão tomada, dada a qualidade da FR”, sublinha.

A par dessa categoria de progressão, está de regresso ao GPM a F4, depois de ter decorrido pela última vez no 70º aniversário do evento, em 2023, e de ter sido a única opção durante os anos da pandemia, o que permitiu a manutenção de pelo menos uma corrida de monolugares no programa da competição, recorrendo aos participantes do campeonato chinês da modalidade.

“As duas fórmulas em Macau complementam-se, pois integram pilotos muito jovens e constituem corridas de grande impacto e interesse internacional, muito importantes para a progressão dos pilotos, isto para além de despertarem entusiasmo entre os amantes do automobilismo”, admite. Por isso, prossegue, “vamos procurar manter duas competições de monolugares em cada edição do GPM”.

 

Regresso da F4 retira uma das corridas de suporte

Com a entrada da F4, a organização teve de colocar de lado a possibilidade de haver uma segunda corrida de suporte com pilotos locais e da região, como aconteceu na edição anterior com a Macau Roadsport – Taça do Estabelecimento da RAEM. Assim, este ano, realiza-se apenas a “Roadsport Challenge”, composta por uma maioria de pilotos de Hong Kong e Macau.

“Temos de tomar decisões e fazer opções, uma vez que o GPM, salvo algumas excepções, em períodos especiais, decorre somente durante quatro dias”, afirma.

Nesse sentido, sustenta, “sete corridas é o ideal, porque para além desse número não é possível compartimentar tudo e estabelecer horários que permitam ter algumas folgas para eventuais atrasos que aconteçam, resultantes de acidentes ou outros aspectos ligados às condições climatéricas”.

Lei Si Leng, no entanto, não retira a importância que as corridas de suporte têm no GPM. “São fundamentais e fazem o equilíbrio das corridas, até porque este é um evento de Macau, por isso, precisamos da participação dos pilotos locais, assim como dos que provêem de regiões vizinhas”, assevera.

Lembra também que o objectivo da Associação-Geral de Automóvel Macau-China é criar condições para que jovens pilotos que se iniciam no karting, possam posteriormente ser integrados nas grelhas das corridas no GPM. “Temos tido alguns que conseguiram o trampolim para as provas de automóveis, incluindo a Fórmula 4, num investimento que está a ser feito nos jovens valores”, aponta.

 

Segurança continua a ser a prioridade da organização

Relativamente à questão da segurança, esta continua a ser a grande prioridade dos responsáveis pela organização, incluindo a própria FIA, que faz frequentemente inspecções ao circuito. “Já cá estiveram, como habitualmente, solicitando pequenos ajustes e melhoramentos”, salienta.

A saída dos pilotos do interior da pista, quando se verificam acidentes, ou avarias nos carros ou motos, foi uma das recomendações. “Colocámos mais sinalização para esse efeito junto dos locais de saída rápida dos pilotos para fora do circuito”, indica, assegurando que, de resto, a pista e toda a sua envolvência “estão em perfeitas condições” e preparadas para receber mais um GPM.

Os “rails” e as barreiras intermédias de protecção, em caso de acidente, foram também mexidos, tal como havia acontecido no ano passado. Foram colocados materiais próprios para absorver o impacto em determinadas zonas, como na Curva dos Pescadores.

Gradualmente, desde há alguns anos, o evento vem contando com um cada vez maior número de pessoas locais na organização, principalmente no que diz respeito aos lugares de comissários de pista, “marshalls”, elementos dos “safety cars”, médicos, paramédicos, bombeiros, voluntários e outras funções diversas.

“Actualmente, podemos dizer que já mais de 95% dos elementos são locais, muito graças às acções de formação que temos vindo a realizar durante o ano, três vezes orientadas por dirigentes de Macau e uma vez com representantes da FIA”, afirma Lei Si Leng, considerando que “a tendência é para haver cada vez menos elementos ligados à FIA ou ao exterior”.

O orçamento do GPM para este ano é de 240 milhões de patacas, 120 milhões dos quais provenientes do patrocínio das seis operadoras. Mesmo assim, o evento dá algum prejuízo em termos de contas financeiras finais. No entanto, para Lei Si Leng, “o balanço tem de ser feito de outra forma, ou seja, o benefício para a imagem de Macau, para os negócios dos restaurantes, dos hotéis, das pequenas e médias empresas durante o período do GPM, ultrapassa, em termos indirectos, essa diferença de números”.

 

“Influencers” com interesse nas provas da RAEM

A propósito da imagem do território como resultado de um acontecimento desta envergadura, a coordenadora realçou o interesse que a prova de Macau continua a despertar junto dos órgãos de comunicação social de todo o mundo. “A juntar aos jornalistas e repórteres fotográficos que aqui se deslocam, há este ano um número considerado de ‘influencers’, o que demonstra o impacto internacional do GPM”, destaca.

Considerando as credenciais passadas para o acontecimento que arranca amanhã, serão mais de um milhar os representantes dos órgãos de comunicação social preparados para cobrir “in loco” o cartaz turístico-desportivo da RAEM.

Ao longo dos anos, “Macau granjeou um enorme prestígio com as corridas, por isso, é já um evento de desporto reconhecido em todo o mundo”. Todos os anos em Novembro “há o GPM de Macau, que faz parte do calendário de todos os que gostam de provas de velocidade”, enfatiza.

“Eu própria, quando era muito nova, fui-me habituando a conviver com este ambiente do GPM. Por isso, penso que o evento já está bem enraizado nas pessoas e na população local, que aceita muito bem a realização desta competição”, acentua.

Os aspectos de maior inconveniência para os residentes e turistas, por se tratar de um circuito urbano que tem de ser melhorado e preparado para as corridas, provocando alguns constrangimentos de trânsito, têm também sido pensados pela organização. Este ano, “foram alargados vários portões de acesso à pista para que os veículos, nos dias anteriores às corridas e também quando é aberto o circuito após a conclusão das provas, possam ter mais facilidade de circulação”.

A simultaneidade do GPM com a realização dos Jogos Nacionais da China não tiram, segundo Lei Si Leng, o impacto das corridas de automóveis e motos na Guia. “Julgo que os dois eventos podem perfeitamente acontecer ao mesmo tempo e dão ainda mais relevância às provas de desporto internacional que Macau tem vindo a organizar”, defende.

Sendo esta a sua primeira experiência no cargo de coordenadora do GPM, não obstante ter ocupado outras funções no passado no seio da Comissão Organizadora, a dirigente reconhece que a responsabilidade agora é diferente. “Tenho de estar atenta, juntamente com os meus colegas, a todos os pormenores organizativos, principalmente no que diz respeito às condições da pista, para que tudo corra pelo melhor”.

Sobre dar “cunho pessoal” ou introduzir inovações, Lei Si Leng diz que apenas pretende ter um papel importante “na manutenção do que hoje existe e ajudar a melhorar no futuro”.