Macau está pronto para receber aquele que é o evento turístico-desportivo por excelência do território. Em entrevista ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, o coordenador da Comissão Organizadora do Grande Prémio diz que a competição já não é “apenas” um acontecimento desportivo, pois assumiu um papel de elevada importância na componente do turismo, gerando receitas indirectas de cerca de 250 milhões de patacas. Sobre as novidades para este ano, destaca que a Fórmula Regional é uma boa aposta da Federação Internacional. “Foi criado um outro patamar para que os jovens pilotos tenham mais possibilidades de atingir níveis superiores nas suas carreiras”, salienta Luís Gomes. Em termos de pista, a Curva do Ramal dos Mouros foi alargada, “o que permitirá certamente tempos mais rápidos”

 

VÍTOR REBELO

 

A imagem criada ao longo de mais de 70 anos pelo Grande Prémio de Macau (GPM), não só a nível desportivo, mas também na vertente turística, parece continuar a ser um “must” e um estímulo para quem integra a Comissão Organizadora do evento. Esta convicção de um trabalho em prol dos dois objectivos sobressai na entrevista concedida por Luís Gomes ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

Antes de falar do aspecto desportivo propriamente dito, ou seja, das corridas que estão prestes a arrancar, o coordenador da Comissão Organizadora faz questão de realçar o valor de uma “marca” que a RAEM “tem sabido valorizar”, mas que é necessário explorar ainda mais”, destacando o “forte impacto” da competição no desenvolvimento do turismo.

A comprovar essa mais-valia, Luís Gomes afirma que “o GPM gera, de forma indirecta, através da vinda de visitantes para assistir ao evento, um proveito estimado em 250 milhões de patacas” nos quatro dias das provas.

Não sendo por acaso que habitualmente se diz que o GPM é o maior cartaz turístico-desportivo de Macau, o responsável, que assume pela primeira vez a liderança da Comissão Organizadora, sublinha que, colocando de lado para já possíveis novos projectos, o importante é que “somos uma equipa, todos de Macau, à volta de mil pessoas, com o mesmo objectivo de fazer bem esta prova, o que já acontece de geração em geração”. “O evento já não é apenas um espectáculo desportivo, mas sim uma marca de Macau”.

Assim, Luís Gomes salienta que, o que quer fazer, “é criar diferentes áreas de intervenção, e que possam dar produção a uma indústria, como a cultura, com produtos feitos por pessoas de Macau e associando certos conteúdos que estamos neste momento a desenvolver”.

 

Aposta no mercado chinês para turismo de lazer e desporto

O mercado chinês será uma das direcções a seguir. “Temos no Continente um grande mercado a explorar para o desporto lazer e aí também entra o GPM, podendo o evento tornar-se com mais força num dos grandes destaques da oferta desportiva e turística simultaneamente”, sustenta.

Este parece ser um dos objectivos do “reinado” de Luís Gomes, porque “esta marca GPM, com tanta tradição em Macau, tem todas as condições para se expandir cada vez mais para o exterior, para todos os lados”. E para que isso aconteça, há um veículo eficaz de divulgação: a comunicação social.

“Estamos a ver as possibilidades de poder atrair cada vez mais os media do estrangeiro a fazer reportagens do acontecimento”. Na edição passada foram acreditados cerca de 360 meios de comunicação social para cobrir a edição especial do 70º aniversário. “Este ano o número será idêntico”, revela.

O GPM está cada vez mais localizado, não em termos de Comissão Organizadora, porque essa só integra elementos da RAEM, mas no que diz respeito a pessoas que dão apoio nas várias componentes das corridas, como comissários de pista, elementos da segurança, “safety-cars”, entre muitos outros aspectos. Antigamente havia a necessidade de recurso a muitas pessoas ligadas à Federação Internacional do Automóvel (FIA), algo que tem diminuído a olhos vistos.

“Sim, isso é uma realidade e podemos dizer que actualmente a localização dos elementos que prestam apoio ao GPM atinge já mais de 90%, o que também é fruto das muitas acções de formação que têm sido levadas a cabo nos últimos anos”, diz Luís Gomes, acrescentando que “a própria FIA está muito satisfeita com isso e com a nossa preocupação em dar formação às pessoas locais”.

Neste momento, a FIA apenas faz o controlo técnico das três corridas da Taça do Mundo, Fórmula Regional (FR), GT e “TCR World Tour”, para além de enviar delegados para inspeccionar o circuito.

 

Taça do Mundo de FR visa relançar a categoria

No aspecto desportivo, a grande novidade para este ano é a introdução da FR em substituição da Fórmula 3 (F3). A propósito das muitas reacções negativas, não pela aposta na FR em si, mas pelo desaparecimento da F3, o coordenador do GPM revela que a decisão coube à FIA, mas também a Macau.

“Estamos de acordo quanto a isso, porque a F3, como é uma prova com um certo prestígio, já está bastante madura. Daí que já não há lugar para os outros entrarem, por isso foi criado, com a FR, um outro patamar para que os jovens pilotos tenham mais possibilidades de atingir níveis superiores nas suas carreiras e um dia poderem chegar à Fórmula 1”, assevera.

“A FIA quer que no próximo ano se desenvolva a FR em diferentes regiões e foi nessa perspectiva que atribuiu a Macau a Taça do Mundo da categoria, para relançar estas corridas de FR”, sublinha Luís Gomes, observando que “a potência da FR é quase igual à da F3, o mesmo acontecendo com a velocidade, uma vez que são carros com alguma semelhança”.

O GPM vai, assim, chamar a si uma inédita Taça do Mundo de FR, “e compreendemos que a Federação tem de explorar mais oportunidades para os jovens pilotos”.

 

Curva do Ramal dos Mouros está mais ampla e suave

Relativamente à pista, que tem uma extensão de 6,2 quilómetros, todos os anos são feitas pequenas alterações ou melhoramentos. Desta feita, o mais significativo é o alargamento, para o interior, da Curva do Ramal dos Mouros. “Penso que é importante, pois vai torná-la mais suave, mais ampla, menos perigosa, e, como consequência, certamente que os tempos vão ser um pouco mais rápidos”, refere o também presidente do Instituto do Desporto. “Fizemos um ensaio depois da obra e constatámos que certamente trará resultados positivos”, assegura.

Outra novidade é a introdução, em determinados locais, nomeadamente na Curva do Reservatório, de barreiras metálicas com um sistema mais eficaz de amortecimento do choque. “Em alguns pontos mais altos usámos materiais novos que foram trazidos dos EUA e de Inglaterra, que vão permitir uma maior absorção da energia provocada pelo impacto quando ocorrem acidentes”.

Em virtude destas alterações, o processo de colocação dos “rails” de protecção da pista foram este ano colocados um pouco mais cedo. “Procurámos ter tudo pronto com algum tempo de antecedência, colocando 162 barreiras e as respectivas portas (de quatro a seis metros de largura) de acesso à pista para ser mais fácil aos automobilistas de Macau, antes e depois das corridas.

“O reajustamento de sete reentrâncias surgiu por indicação dos próprios delegados de segurança da FIA, feita no final da edição do ano passado”, destacou o coordenador do GPM.

Quanto a mais bancadas para o público, o dirigente reconhece que a organização tem pensado nisso. “Mas, não é fácil, porque o público gosta de ver as corridas nos sítios considerados mais perigosos e nas zonas em que poderíamos introduzir mais bancadas há prédios que não permitem essa possibilidade”.

No entanto, garante estudar as hipóteses que possam surgir. Por enquanto, o acréscimo de locais para assistir é proporcionado por alguns hotéis, situados ao longo do circuito, que oferecem pacotes de visão privilegiada das corridas e em segurança.

 

Histórica corrida de motos  “é para continuar”

Por falar em segurança e em curvas apertadas, próprias de circuitos citadinos, a corrida de motos é sempre um tema de discussão. Apesar de se saber que o traçado tem zonas que oferecem maior risco aos pilotos das duas rodas, “a ideia é manter o Grande Prémio de Motos, uma vez, que tirando as pistas inglesas e irlandesas, Macau é do agrado dos pilotos e esta corrida tem já 56 anos”, sublinha Luís Gomes, para quem “a prova de motos tem uma história longa e é um marco do GPM, por isso, é para continuar”.

A Federação Internacional de Motociclismo, presidida pelo português Jorge Viegas, “pretende que Macau assegure e continue a ter esta corrida, para a qual terão de ser feitos, naturalmente, todos os esforços para garantir a segurança dos participantes”, afirma.

As corridas de suporte foram desde sempre consideradas de grande importância para o GPM, proporcionando visibilidade e notoriedade aos pilotos da região, em especial os de Macau. Para isso, Luís Gomes reconhece que os apoios “são importantes” para o evento. “O Governo de Macau tem sempre dado o seu contributo e apoio para suportar esses pilotos locais, investindo fundamentalmente nos mais jovens”, muitos dos quais saem do karting.

“Essa será outra das apostas em termos de futuro, porque, como temos a nossa pista, eles podem ir treinando”, afirma.

O karting tem pista durante todo o ano, mas para as corridas de automóveis os pilotos de Macau têm de realizar provas na China, ou na Malásia, para fazerem a qualificação para o GPM, ganharem ritmo e realizarem testes.

 

Circuito da Guia “deve ser preservado”

Macau só oferece um circuito urbano, uma vez por ano. Será que poderá ser pensada a construção, a longo prazo, de uma pista permanente, em local fora do centro da cidade?

O coordenador do GPM afirma que, “mesmo que isso fosse possível, penso que o Circuito da Guia, pela sua enorme tradição, nunca deixaria de existir”.

Tal como o do Mónaco, o circuito de Macau “é famoso em todo o mundo, tem já 71 anos, por isso deve manter-se, deve ser preservado, mesmo que houvesse outro”.

O patrocínio das concessionárias do jogo em Macau volta fazer-se sentir de forma considerável, sendo mesmo, depois da edição de 2023, a primeira vez que canalizam 100 milhões de patacas, em conjunto, para um GPM de um único fim-de-semana.

“Mesmo que não tivéssemos tanto dinheiro, todo o aperfeiçoamento que pretendemos na organização do GPM teríamos de o fazer, porque temos sempre de melhorar”, aponta Luís Gomes.

A realização em definitivo do GPM em dois fins-de-semana consecutivos é descartada pelo actual líder da Comissão Organizadora. “Só em ocasiões muito especiais, como foi no ano passado, porque isso iria provocar incómodo na população”.