Passaram 40 anos desde que Carlos Dantas Guimarães assumiu a liderança da comissão organizadora do Grande Prémio de Macau. O antigo secretário-geral, que esteve uma década no cargo, desde 1984, disse, em entrevista ao JORNAL TRIBUNA DE MACAU, acreditar que a Fórmula Regional manterá a atracção dos adeptos. No entanto, admite uma “despromoção” da imagem internacional do GPM com a saída da Fórmula 3

 

VÍTOR REBELO

 

Carlos Dantas Guimarães é um nome conhecido para aqueles que se encontram a viver há mais de três décadas em Macau. O antigo secretário-geral do Grande Prémio (GPM), cargo que posteriormente passou a denominar-se presidente da Comissão Organizadora, recorda os tempos do seu “reinado” à frente do evento e o momento actual da prova.

Ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, aquele que liderou a equipa organizativa do GPM de 1984 a 1993, começou por abordar o tema principal da edição deste ano – o desaparecimento da Fórmula 3 (F3) para dar lugar a uma nova era de monolugares no Circuito da Guia, a Fórmula Regional (FR). “Vejo com alguma apreensão a mudança registada, especialmente nesta tão importante prova que alcançou um grande prestígio internacional ao longo de vários anos, iniciado com o extraordinário piloto brasileiro Ayrton Senna, vencedor em Macau em 1983”, começou por dizer.

Dantas Guimarães, que acompanha à distância quase tudo o que diz respeito à prova de Macau, considera ser necessário procurar saber, “de quem de direito, a organização do GPM e a Federação Internacional do Automóvel (FIA), qual é a situação actual e contratual referente à F3 na sua participação neste evento”. “A população de Macau tem o direito de saber quais as razões que suportaram a decisão da FIA para esta ‘despromoção’ da imagem internacional do GP de Macau, criada com tanto esforço e grande sacrifício de todos quantos estiveram envolvidos com este evento desportivo, desde 1954 até à data”, frisa.

Em termos puramente desportivos, Carlos Dantas Guimarães refere que a FR “será mais económica para pilotos e equipas”. Todavia, “não creio que a FR diminua a atracção e o interesse que o traçado único da Guia proporcionam a todos os que vêem as corridas nele efectuadas”.

Sendo assim, reforça, “deverá ser incrementado o trabalho de patrocínios” do GPM, “de modo a reduzir os custos e aumentar os investimentos de empresas internacionais”. Os apoios e incentivos a equipas e pilotos locais serão “um dos projectos essenciais da gestão deste evento”, preconiza.

Após a transferência de soberania, o antigo número um do GPM afirma “nunca ter admitido que isso pudesse afectar a organização deste grande acontecimento desportivo”. Esta prova, “que abrange várias modalidades do desporto motorizado internacional e reconhecido o seu valor como um dos poucos circuitos de cidade do mundo, nunca poderia ser ignorada”.

Sobre a “localização” dos funcionários que apoiam na organização do evento, como comissários de pista, elementos da segurança, staff médico e “safety-car”, entre outros, frisa que foi sempre esse o seu espírito de trabalho, tendo em consideração “que a estrutura organizativa não continha profissionais do desporto motorizado, mas sim a participação voluntária de funcionários governamentais com inteira disposição para desempenharem as diversas funções que lhe eram atribuídas”.

 

Pilotos locais tinham como apoio a gasolina

Quanto à participação de pilotos locais nas provas de suporte, salienta que “são essenciais na composição do programa, uma vez que, como evento desportivo de Macau, deverá ser privilegiada a sua inscrição”. “Não podemos esquecer que foram pilotos amadores e iniciados que deram início a este grande evento desportivo, em 1954”, vinca.

Dantas Guimarães acentua que da parte da organização do GPM, no seu tempo, o apoio que era dado aos pilotos locais de carros e motas, “foi essencialmente a gasolina (105 octanas) utilizado para os carros de F3, Guia e MotoGP”. Claro que nas motas, enfatiza, “teriam de misturar esta gasolina com a utilizada pelo público nas estações de combustível”.

Sobre a possibilidade de fazer arranjos no circuito, Dantas Guimarães refere que a pista não terá, em termos de segurança, muito mais oportunidades de ser aumentada, “pois trata-se de um circuito de cidade que, até à data, sofreu as alterações necessárias impostas pela regulamentação da FIA e da Federação Internacional de Motociclismo”.

A importância do marketing “é uma ferramenta de trabalho essencial na elaboração do planeamento e organização desta prova, tão importante no panorama desportivo internacional”. “Quero crer que a gestão comercial estará devidamente resguardada de interesses pessoais, ressalvando, prioritariamente, e garantindo a vontade da população de Macau, que sempre contribuiu para a realização deste evento”. “O turismo ocasional deverá, também, ser tratado em conjunto com a História de Macau e o seu valioso património”, sustenta.

Dantas Guimarães foi, recorde-se, o primeiro director do Museu do Grande Prémio. “Quando deixei de exercer as funções de secretário-geral do GP de Macau, iniciei de imediato o projecto Museu do GP que o Governador General Vasco Rocha Vieira me encarregou de dirigir e organizar em Fevereiro de 1993, para ser inaugurado em Novembro desse ano, por altura da realização das corridas”.

Foi com a colaboração “indispensável” do arquitecto José Catita que, “com muito trabalho e dedicação, conseguimos inaugurar a primeira fase do Museu na data prevista”, tendo continuado a trabalhar com ele na extensão (2ª fase) do Museu, regressando a Portugal a 30 de Dezembro de 1998.

Dantas Guimarães sublinhou ainda que se sente “muito orgulhoso”, por ter podido comparticipar na evolução desportiva de pilotos, quer da F1 quer na modalidade de motociclismo e outras, destacando alguns nomes que passaram por Macau, como Ayrton Senna (1983), Michael Schumacher (1990), Kevin Schwants (1988), Steve Hislop (1990/93/94) e Emanuele Pirro (1991/92).