Pedro Mariano é comentador de pista de automobilismo desde os anos 80. Foi jornalista e comentador na RTP mas também passou pela Direcção da TDM. Vibra com a função que exerce e diz que o mais interessante é o facto de estar rodeado de um comentador chinês e outro inglês na mesma sala: têm de estabelecer prioridades quase “telepaticamente”. Espera que o futuro do GP Macau seja “risonho” e que continuem a passar pelo território pilotos que depois sejam projectados na Fórmula 1, como foi o caso de Ayrton Senna

 

Catarina Pereira

 

-Como é que o Grande Prémio chega à dimensão dos dias de hoje?

-Não é uma coisa que se faz de um dia para o outro, é na verdade algo que é passo a passo, ano a ano, devagarinho, até se chegar à posição em que esteve nos últimos anos do século passado. Deu-se um grande avanço aí, com uma promoção muito intensa do GP, em que o português César Torres – que foi presidente do ACP e que tinha grandes conhecimentos na FIA – abriu muitas portas e janelas para que o GP Macau progredisse e pudesse ser considerada uma prova a sério. Ele trouxe para cá todo o ‘know how’ com os Serviços de Turismo e a Administração portuguesa, que estavam abertos a gastar dinheiro nisso. Foi um processo que demorou alguns anos, mas acho que valeu a pena.

 

-E como é que o Grande Prémio entra na sua vida ?

-Começou há muito tempo, antes de eu vir para Macau, porque sempre gostei muito de acompanhar desporto automóvel e quando estava na televisão, nos anos 80, a RTP tinha os direitos da Fórmula 1, uma modalidade extremamente popular, e era a única que transmitia e também era a única que existia. Por isso era importante acompanhar de perto, eu fazia parte da equipa que durante muitos anos comentou e acompanhou o evento. E portanto, foi nascendo daí, não me limitei a comentar a F1, comentei o rally de Portugal. Quando fui convidado para ser director da TDM, em 1994, sabia que havia cá o GP de Macau e seguia-o à distância quando podia, embora como deve imaginar, há 25 anos não havia nada como é hoje. Agora com o telemóvel em Lisboa consegue ver o GP. Se calhar não consegue, porque ninguém o está a transmitir, que é uma coisa que não entendo. Na altura, quando vim, demos um grande empurrão a isso, fiquei com esse dossier e fiz questão de ter uma cobertura TV muito mais completa, mais próxima. E hoje é exemplar apesar de ser preciso pedir meios exteriores.

 

-Que diferenças vê nas transmissões e na forma como é feita a cobertura?

-Não tem nada a ver. Sendo um circuito que não é permanente, porque é citadino, é preciso estar sempre a ajustar o local das câmaras, a maneira como são feitos os planos, o número de câmaras. Por exemplo, na zona sinuosa do circuito instala-se uma câmara e ela cobre só 100 metros. É muito exigente em termos técnicos, mas foi evoluindo, depois já se fazia com carros de exterior, colocar a transmissão no satélite, investir no letering, os tempos da cronometragem, etc. Tudo isso vai melhorando nas transmissões. Houve sempre muita paixão por transmitir o GP, mas hoje em dia com os meios que existem e com os meios que são utilizados faz-se uma transmissão que não envergonha ninguém , pelo contrário.

 

-Qual é a maior dificuldade de ser comentador de pista neste contexto?

-A maior dificuldade é que estamos numa situação em que quase não vemos os carros. Mas é um desafio muito interessante, sobretudo porque não estou sozinho. Estou com o comentador inglês e com o chinês e há ali um estabelecer de prioridades. Quem é que fala mais, quem é que fala agora e há um momento em que olhamos uns para os outros e temos de tentar perceber se é a minha altura de falar, se é do outro, quase telepaticamente, e isso é muito importante. Acho que tem funcionado bem.

 

-Os novos carros de F3 têm uma série de características diferentes. O que é que isso significa ao certo?

-Este ano a primeira coisa foi alterar o chassi do carro, que é toda em carbono. Os chassis são todos iguais e os motores também. Têm 3.400 centímetros cúbicos, com cilindros em V: é um motor muito mais equilibrado, muito mais potente, com mais potência desde baixa rotação. Atingem nestes carros os 300 quilómetros por hora e os pilotos sofrem uma acção da gravidade tipo 2.6/2.9g’s nas curvas. O que é que isto significa? Que é 2.6 ou 2.9 vezes o peso do piloto no pescoço, por exemplo. Por isso quando se sentam já têm o pescoço amparado à direita e à esquerda. Também têm um aro de segurança de aço, à frente, que não tinha. E depois tem uma coisa muito importante que é o DRS, que é o sistema na asa traseira. Essa parte não é fixa. O que acontece é que electronicamente pode ser aberta. Quando está fechada aumenta a estabilidade porque mantém o carro mais seguro ao chão, e ao abrir-se, a deslocação do ar deixa de ter efeito de pressão e, portanto, o carro anda mais e ganha maior velocidade, facilitando as ultrapassagens. Na F1, desde que esteja a um segundo do carro da frente ou menos, o piloto pode acionar o DRS e ultrapassa-o pela certa. Se não for à primeira é à segunda ou terceira.

 

-Que futuro para o GP Macau?

-Que seja um futuro risonho. É muito bom que continuem a vir aqui os melhores pilotos, como este ano vieram o campeão e vice-campeão de F3 e outros que participem e sejam depois projectados porque são pilotos de ponta. Não é um piloto qualquer que anda aqui em Macau. Seria bom que os pilotos fizessem bons tempos e que viessem a ser projectados na F1 como grandes pilotos e que tenham na sua história uma vitória, uma presença ou uma boa posição no pódio em Macau. Não foi por acaso que em 1983 o piloto Ayrton Senna venceu o GP de Macau. Anos depois era um ídolo mundial.

 

A chegada dos novos F3

O circuito da Guia sofreu pequenas alterações que tiveram a ver com a chegada dos novos Fórmula 3 que se estrearam este ano no Campeonato de F3 da FIA e também aproveitando o que aconteceu o ano passado. Uma delas foi precisamente ao pé do Hotel Lisboa. Foi mudado o material de que são feitas as barreiras de absorção, agora são de espuma e aço, tendo uma elasticidade completamente diferente. Vimos um carro que entrou de frente para a barreira e foi impressionante porque o carro praticamente não teve nada, o piloto ficou na mesma e vê-se a barreira em câmara lenta a deformar-se e a formar-se outra vez. Não é a mesma coisa que bater num rail de metal, que é uma coisa rija…

 

*PEDRO MARIANO (COMENTADOR DE AUTOMOBILISMO)