A subida de escalão do Circuito do Guia para o grau 2, que visa reforçar a segurança para carros com tamanho e motor maiores, criará mais desafios aos pilotos na 66ª edição do Grande Prémio de Macau, todavia, essa alteração representará um “estímulo” adicional para os espectadores, avalia Lei Si Leng. Em entrevista ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, a chefe do Departamento do Grande Prémio de Macau e dos Grandes Eventos Desportivos do Instituto do Desporto revela que a introdução de bandeiras electrónicas em 10 pontos será uma experiência que poderá ter continuidade se os seus efeitos forem positivos. A responsável destaca ainda que os bilhetes esgotaram mais cedo do que nas edições anteriores

 

Rima Cui (texto)

Tatiana Lages (foto)

 

-Com o Circuito da Guia a subir de escalão, para o grau 2, quais foram as alterações operadas ao nível das instalações?

-O Circuito da Guia passa do nível 3 para o 2 e as diferenças principais consistem na localização de algumas curvas, para corresponderem melhor às exigências da Federação Internacional do Automóvel (FIA). Reforçámos algumas instalações de protecção, principalmente em certas curvas. Por exemplo, todas as curvas estão divididas em números diferentes: o 1º no Reservatório, o 2º no Hotel Mandarin Oriental e o 3º no Hotel Lisboa. Além disso, noutras curvas, consoante exigências da FIA, acrescentámos um modelo novo de barreiras de protecção.

 

-Para os pilotos, quais serão as alterações que vão sentir concretamente com esta actualização?

-Decidimos subir o grau do circuito por causa da mudança no Grande Prémio (GPM) em si. Este ano, a Fórmula 3 integra um novo modelo de carro, com um tamanho e motor maiores, pelo que atinge velocidades mais altas, subindo de 200 até 300 km/h. Devido à vinda dos novos carros, precisámos de actualizar as instalações de apoio para poderem correr em Macau com mais segurança. Muitos pilotos da F3 já participaram no GPM, mas vão usar pela primeira vez carros deste modelo. A FIA fixou a exigência deste tipo de carros na liga e campeonato da F3 da própria federação, por isso, para os pilotos, o tempo de uso de veículos deste género é mais curto. Além disso, o circuito em Macau é conhecido por ter condições um bocado difíceis, sendo que algumas ruas são mais estreitas e abrangem mais curvas. Portanto, para eles trata-se de um desafio, uma vez que vão pilotar carros com dimensão e motor maiores, concorrendo com outros em curvas muito apertadas, enquanto para os espectadores, será um estímulo maior.

 

-Essas mudanças têm um significado especial para a evolução do GPM?

-O GPM chega agora ao seu 66º ano e, se fosse uma pessoa que estuda, diria que esteve a fazer o “doutoramento” nos últimos 10 anos. Procuramos competições de nível internacional e com qualidade. Esforçamo-nos para os actuais conteúdos do GPM corresponderem cada vez mais às exigências internacionais. Mantemos uma boa comunicação com a FIA para introduzir em Macau mais elementos em voga internacionalmente.

 

-Nesta edição haverá também bandeiras electrónicas…

-A bandeira electrónica não é algo novo. Já foi usada em muitas competições internacionais, incluindo da F1. Ao longo da história do GPM, temos apostado muito na formação de funcionários para a sinalização manual. Não podemos controlar muitas barreiras nas ruas. Depois da comunicação com a FIA, concluímos que podíamos experimentar usar bandeiras electrónicas nalguns pontos, nomeadamente em ruas altas, por exemplo no monte a seguir ao Centro Hospitalar Conde de São Januário. Nas curvas após o hospital, existem apenas algumas moradias e não há muitas saídas. Destacamos para lá funcionários, mas por causa dessas condições, eles só podem sair do sítio à hora de almoço. Assim, há uma certa inconveniência para a operação do evento. A melhor solução é pôr bandeiras electrónicas em pontos onde não seja fácil mandar funcionários. É esse o papel que este novo equipamento deve desempenhar. Este ano a implementação é experimental e depois avaliaremos o seu efeito. Se for positivo daremos continuidade.

 

-Vão ser usadas apenas nessas ruas?

-Desta vez vamos utilizá-las num total de 10 pontos. Os locais concretos só vão ficar fixados após a avaliação da FIA nesta quarta-feira.

 

-A plataforma para fotógrafos na curva do Hotel Lisboa foi cancelada. Há uma alternativa?

-Cancelámos esta plataforma para dar condições à ampliação da zona-tampão desta curva. A plataforma situava-se dentro da zona-tampão, portanto, no mesmo local não haverá uma plataforma para fotografias porque não garantia a segurança. A plataforma original era muito pequena, aberta aos fotojornalistas de forma limitada, sendo que alguns até tinham de fazer sorteios para lá fotografar. Na Bancada da Curva do Lisboa, há outro ponto com condições menos favoráveis para a fotografia, comparativamente à plataforma cancelada. Juntamente com a FIA, tentámos encontrar novos pontos seguros e satisfatórios para fotojornalistas, mas nesta edição não haverá uma substituição no mesmo local.

 

-Em termos de corridas, quais serão as novidades deste GPM?

-O GPM inclui diversos tipos de corridas, o que raramente se encontra em competições noutras cidades. Acolhemos quatro tipos: a F3, GT, carros de turismo e motas, em seis competições. Vêm todos os anos pilotos conhecidos mundialmente. Muitas pessoas nunca pensariam que, no ano passado, acontecesse aquela situação rara na Curva do Hotel Lisboa, que foi um acidente mas não causou muitos feridos. Com a actualização e melhoria dos veículos, há alterações até nos pneus, por isso, a velocidade dos carros e as técnicas dos pilotos são diferentes em cada edição. Os espectadores têm gostos distintos, mas acredito que as competições em si já constituem uma grande atracção.

 

-Qual é a previsão da organização para o valor das receitas deste ano?

-A venda de bilhetes foi melhor do que nas edições anteriores. Em comparação com o ano passado, esgotaram mais cedo. Mas, as receitas não apresentam uma diferença evidente face às edições anteriores porque os lugares estão sempre lotados. Esse momento pode é acontecer mais cedo ou mais tarde. Ainda não calculámos o resultado final, mas penso que o valor será equivalente ao registado no passado.

 

-Como vê o regresso da piloto alemã Sophia Flörsch, que ficou ferida na Curva do Hotel Lisboa no ano passado?

-Ainda não a vimos pessoalmente, mas temos acompanhado o estado dela. A participação na corrida de F3 não é fácil. Mas se conseguiu passar o teste para correr em Macau, será uma prova de que o seu estado é óptimo.

 

-O GPM volta a abranger a Taça da Grande Baía. Como avalia esta competição que se estreou em 2018?

-O efeito é muito positivo. Desta vez, na Taça da Grande Baía, serão usados carros do GT. No ano passado, foi outro tipo de veículos. Este avanço ajudará, com certeza, a reforçar a comunicação entre nós e as cidades da Grande Baía sobre o evento.

 

-O Instituto do Desporto (ID) voltou a organizar actividades culturais e familiares alusivas ao GPM. Têm corrido bem?

-Dedicamo-nos bastante à divulgação do evento nos bairros. Em 2018, realizámos pela primeira vez o carnaval em família do GPM com a duração de dois dias. Este ano, o carnaval decorreu no primeiro fim-de-semana de Novembro. O GPM tem 66 anos de história, por isso, esperamos que todos os residentes possam sentir a atmosfera do evento desde a infância até se tornarem adultos. Para isso, temos apostado muito. Embora saibamos que provoca inevitavelmente congestionamentos de trânsito, continuamos a realizar o GPM, que já ganhou reputação mundial. Macau é uma cidade muito pequena mas possui um evento competitivo tão singular. Isso não é fácil, é uma invenção de pessoas de Macau. Esperamos que toda a população sinta orgulho neste evento e conheça mais sobre o GPM, compreendendo a nossa persistência. O carnaval em família transforma funções incluídas no GPM em versões para as crianças terem um contacto preliminar com o evento através dos jogos. Ao longo dos anos, também temos contactado com muitas escolas que levam alunos às bancadas para assistir aos treinos. Em dias normais, convidamos ainda estudantes a visitar o edifício para conhecerem como é que as competições decorrem em concreto. Em anos recentes, passámos a deslocar-nos também a escolas do ensino secundário complementar e a universidades, trocando opiniões com alunos e respondendo a dúvidas sobre situações registadas em edições passadas, para que vejam o GPM de ângulos diferentes. A nossa promoção poderá até contribuir para atrair alguns estudantes interessados em participar na nossa equipa de preparação do evento no futuro.

 

-Nos últimos anos integraram na equipa muitos jovens locais?

-A partir de Março, a Associação Geral de Automóvel de Macau-China costuma começar a recrutar funcionários e têm entrado na equipa muitas caras novas. Alguns sentiram bastante alegria nesse trabalho e, na edição seguinte, trouxeram amigos para trabalhar em conjunto na preparação do GPM. Mas, também há quem ache aborrecido e deixe de vir. Hoje em dia, os jovens locais têm muitas opções de entretenimento, pelo que isso é normal. A associação costuma formar 800 pessoas por ano e, em 2019, cerca de 600 entraram efectivamente na equipa de preparação. É uma percentagem normal e não há espaço para alargar lugares. Podemos recrutar muitas pessoas para a formação, mas o número das que acabam realmente por trabalhar é mais ou menos igual.

 

-Na preparação para o 66º GPM, quais foram os principais desafios para a organização?

-Todos os anos enfrentamos desafios e dificuldades. Depois do último dia das competições, começamos logo a preparar a nova edição. Todas as infra-estruturas são montadas quando se aproxima o arranque do evento, porque são corridas que decorrem nas ruas. Algumas pessoas podem achar aborrecido o facto de repetirmos sempre a montagem e desmontagem. Precisamos de fazer muito planeamento e preparativos ao nível das infra-estruturas. Temos uma estrutura fixa de seis competições, mas para procurarmos provas de nível mais elevado temos de comunicar muito frequentemente com a FIA. E quanto aos trabalhos de divulgação nos bairros, não paramos no ano inteiro. Aliás, em dias menos ocupados, contactamos logo com escolas para promover a campanha. Como somos um organismo governamental, muitos trabalhos implicam procedimentos administrativos. Um dos desafios é a alteração na situação das ruas, que acontece todos os anos. As ruas de Macau têm um grande fluxo e, por vezes, vemos facilmente uma fenda, um buraco ou um caso de deterioração. São incidentes imprevisíveis que quebram os planos iniciais, como por exemplo o colapso de um muro de retenção que ocorreu este ano. Este ano temos sorte, tendo em conta que, em 2017 e 2018, passaram dois tufões históricos.