HARALD BRÜNING:
O Jornal Tribuna de Macau (JTM) é meu companheiro constante há quatro décadas.
Sou um ávido leitor de livros e jornais e é por isso que quando comecei a visitar Macau com bastante frequência no início dos anos 80, depois de me mudar de Munique para Hong Kong e ainda trabalhar para uma empresa que forneceu o equipamento para a primeira estação de televisão local de Macau, TDM, comprava regularmente os jornais portugueses locais para poder “tomar o pulso” do que se passava em Macau, entre eles, claro, o Jornal de Macau e a Tribuna de Macau, ambos lançados no final de Outubro de 1982.
O Jornal de Macau era um jornal vespertino – os jornais vespertinos entretanto tornaram-se uma espécie altamente ameaçada, enquanto a Tribuna de Macau era um semanário publicado todos os sábados de manhã.
Depois de regressar ao jornalismo em meados da década de 1980 (eu “trabalhava” na publicação da minha escola secundária e ocasionalmente escrevi artigos para revistas durante os meus anos de universidade) e de começar a trabalhar como correspondente em Macau, inicialmente para o Hong Kong Standard, Eastern Express e A United Press International (UPI) e mais tarde para o South China Morning Post e Reuters, ler tanto a Tribuna de Macau como o Jornal de Macau tornou-se um “must” profissional.
Eu não teria sido capaz de entender a situação política e social complexa e em rápida mudança de Macau sem ler os dois jornais o tempo todo. Lembro-me de sair a correr do Café Safari todas as tardes, onde costumava tomar o meu “high tea” da tarde regular com os colegas do Jornal “Va Kio” e doutros jornais locais de língua chinesa, para comprar o Jornal de Macau que seria entregue a uma banca de jornais em frente ao restaurante por volta das quatro e meia. A primeira matéria que lia era o famoso “quadradinho” do jornal, escrito pelo seu director, João Fernandes, cheio de perspicácia, sagacidade e o ocasional humor negro.
Todos os sábados de manhã, comprava a Tribuna de Macau, e o primeiro artigo que lia era o editorial de José Rocha Diniz, cuja forma de acertar em cheio ao escrever sobre assuntos controversos era bastante impressionante.
A propósito, os meus colegas da imprensa chinesa pediram-me muitas vezes para traduzir artigos de ambos os jornais para o inglês. Isso mostrou que o impacto de ambos os jornais foi muito além da comunidade relativamente pequena de língua portuguesa.
Tanto João Fernandes quanto Rocha Diniz logo se tornaram meus colegas e amigos, e eu ocasionalmente visitava as suas redacções para trocar notícias e pontos de vista – com o café obrigatório.
Estou certo de que sem o Jornal de Macau e a Tribuna de Macau o meu trabalho como correspondente durante um dos períodos historicamente mais importantes de Macau teria sido muito mais difícil e, admito, menos bem sucedido. Gostaria de aproveitar esta oportunidade para expressar a minha gratidão tanto ao João Fernandes (postumamente) como ao José Rocha Diniz.
Ambos os jornais eram bastante diferentes nas suas orientações editoriais, estilo de jornalismo e abordagem das notícias e pontos de vista. Como jornalista à moda antiga, insisto em separar notícias de opiniões e em manter o princípio básico, mas vital, dos famosos 5Ws (quem, o quê, quando, onde e por quê?) da reportagem profissional. Tanto o Jornal de Macau como a Tribuna de Macau publicaram reportagens sólidas e comentários contundentes.
Quando os dois jornais se fundiram em 1998, muitos dos seus leitores e colegas da imprensa local ficaram bastante surpresos, eu também, e alguns pensaram que o “casamento de conveniência” não duraria. Bem, durou. Foi pragmático num momento em que havia dúvidas se os jornais portugueses de Macau conseguiriam “sobreviver” por muito mais tempo após a transferência de poderes em 1999. Bem, conseguiram.
Sou, naturalmente, ainda leitor regular do JTM, bem como dos outros jornais de língua portuguesa em Macau, que são um elemento importante da posição de Macau como uma cidade chinesa mas também única. Os jornais portugueses, também, fazem parte integral do património cultural de Macau. Nós dos jornais de língua inglesa de Macau não estamos a competir de frente com os nossos homólogos das línguas portuguesa e chinesa – estamos a trabalhar lado a lado em prol da nossa região administrativa (tão) especial.
Macau é uma cidade profundamente chinesa, mas também culturalmente única, graças ao seu multiculturalismo e multilinguismo. Macau precisa das suas três línguas da comunicação social – chinês, português e inglês – para poder cumprir o seu papel de plataforma de relações comerciais e económicas entre a China e os países de língua portuguesa, de centro mundial de turismo e lazer, de base emergente de financiamento internacional, e um pólo de desenvolvimento científico e tecnológico, como, por exemplo, nas áreas de pesquisa médica e até astronómica.
A situação trilingue no sector dos meios de comunicação social de Macau é uma mais-valia que beneficia a nação chinesa no seu conjunto.
Desejo aos meus amigos e colegas da JTM, em particular o José Rocha Diniz e o Sérgio Terra, as maiores felicidades para as próximas décadas. Eu sei muito bem que a publicação de jornais é um trabalho árduo, mas também é um dos mais gratificantes do mundo.
O JTM continuará a ser o meu companheiro constante enquanto trabalhar e viver em Macau.
*Director do jornal “The Macau Post Daily”
Ex-jornalistas e colaboradores
escrevem sobre os 40 anos
da Tribuna de Macau
Dia 1 de Novembro passam 40 anos que em Macau saiu nas bancas, pela primeira vez, o então semanário Tribuna de Macau”, que depois de 1998 passou a diário e agora celebra um marco histórico, uma vez que, na longa história da imprensa de Macau, nunca houve um jornal de informação generalista em língua portuguesa a manter-se tantos anos em publicação ininterrupta. Nesta ocasião, pedimos a vários jornalistas que passaram pela Redacção e outros observadores da “coisa pública” que nos enviassem as suas recordações destas quatro décadas de ligação comum. São estes textos que estamos agora a divulgar



