O Jornal Tribuna de Macau (JTM) celebra o seu 40º aniversário, uma data, de facto, notável! O meu relacionamento com o jornal começa a escrever-se em 2008, quando aqui realizei o meu estágio curricular, graças a um protocolo do JTM com a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, o qual permitiu, tanto a mim como a inúmeros alunos finalistas do curso de Jornalismo dessa instituição, encontrarem o caminho para o Oriente. Cheguei ao abrigo desse protocolo e, em 2009, o Dr. Rocha Diniz convidou-me a integrar os quadros do jornal. Se hoje conto 14 anos de vida em Macau devo-o, em grande parte, ao Dr. Rocha Diniz que, ao oferecer-me a oportunidade de estágio e consequentemente uma posição no jornal – o meu primeiro emprego como jornalista – me abriria as portas de Macau.
Pelo que pude testemunhar desde 2008, primeiro num plano mais aproximado e depois enquanto leitora, o JTM tem sido um jornal estável, sem divergir da sua linha editorial. Nos meus tempos no jornal, o Administrador, José Rocha Diniz, e o Director, Sérgio Terra, sempre transmitiram a mensagem de que o compromisso do JTM era, acima de tudo, com Macau e com os factos, aliás valores plasmados no seu estatuto editorial: “O JTM tem como principal objectivo assegurar a continuidade da publicação em Macau, de um jornal em língua portuguesa (…) possibilitando que os falantes de Língua Portuguesa no Território mantenham o direito a ser informados com verdade, rigor e isenção”. Até hoje, enquanto leitora do jornal, vejo esses desideratos concretizados em cada edição. Identicamente, em linha com o Código Deontológico do Jornalista de Portugal, considero que o jornal faz uma interpretação dos factos com a honestidade necessária.
Outro aspecto importante do seu estatuto editorial, é a distinção clara aos olhos do público entre notícia e opinião, algo tão negligenciado nos dias que correm. Como pode ler-se: “O JTM estabelece, rigorosamente, a distinção entre notícias e comentários (…)”. Assim tem sido até aqui. Pesa embora, na qualidade de leitora, seja sempre a favor de uma ampliação do espaço dedicado aos artigos de opinião nos jornais locais.
De facto, ao longo dos anos, o JTM tem-se pautado pelo rigor – há quem considere que esse tipo de rigor poderá até ser castrador de alguma criatividade jornalística – mas a verdade é que esta postura tem granjeado ao jornal credibilidade na comunidade local. O que vem publicado no JTM é sinónimo de verdade e actualidade, e antónimo de sensacionalismo.
Numa altura em que as redes sociais dominam muito do espaço público e de debate, o JTM manteve-se à tona dos efeitos perversos da revolução digital sobre o jornalismo, como as fake news ou a técnica do clickbait. A ética tem prevalecido. Como escreveu a propósito o escritor e jornalista colombiano Gabriel Garcia Márquez, na sua crónica sobre ser jornalista: “La ética no es una condición ocasional, sino que debe acompañar siempre al periodismo como el zumbido al moscardón”, numa tradução livre para Português: “A ética não é uma condição ocasional, deve sempre acompanhar o jornalismo como o zumbido acompanha o moscardo”. Realmente, uma metáfora muito apropriada, e uma regra de ouro no exercício diário do jornalismo, que queira ser imparcial e independente. A ética é fundamental e indispensável ao jornalismo. O JTM sabe-o e aplica esta máxima, hoje em dia, com a madureza e ponderação próprias da idade.
Quarenta anos é efectivamente um tempo de vida bastante longo para um jornal em língua portuguesa fora de Portugal. As circunstâncias especiais deste território, o reconhecimento e apoio da comunidade em língua portuguesa, da sociedade em geral, e do Governo de Macau a este diário, têm permitido a longa vida do JTM, tal como a liderança e a pertinência do Dr. Rocha Diniz no projecto que delineou há já bastante tempo. Um projecto jornalístico com um forte espírito comunitário, de forma a dar o seu contributo para a manutenção das ligações entre as sociedades de Portugal e de Macau, com especial atenção às comunidades macaenses na diáspora.
Nestes 40 anos, o seu acervo é de facto substantivo e irá permitir às futuras gerações conhecerem fielmente a história, modos e costumes de Macau, bem como o éthos macaense, durante a vivência do jornal, que desejo ainda mais duradoura. Congratulo-me por ter dado o meu pequeno contributo em algumas das suas páginas, entre 2008 e 2011.
Como o jornal refere nas suas plataformas, são realmente “40 anos ao serviço de Macau”. Bem-haja toda a equipa do JTM e felicitações pelo 40º aniversário!
* Jornalista
Ex-jornalistas e colaboradores escrevem sobre os 40 anos da Tribuna de Macau
Dia 1 de Novembro passaram 40 anos que em Macau saiu nas bancas, pela primeira vez, o então semanário Tribuna de Macau”, que depois de 1998 passou a diário e agora celebra um marco histórico, uma vez que, na longa história da imprensa de Macau, nunca houve um jornal de informação generalista em língua portuguesa a manter-se tantos anos em publicação ininterrupta. Nesta ocasião, pedimos a vários jornalistas que passaram pela Redacção e outros observadores da “coisa pública” que nos enviassem as suas recordações destas quatro décadas de ligação comum. São estes textos que continuamos a divulgar



