Cheguei a Macau no final do verão de 2008, há 14 anos. Tinha, então, 23 anos e chegava ao Oriente para fazer o estágio curricular da licenciatura em Jornalismo, num jornal local de Língua Portuguesa, o Jornal Tribuna de Macau (JTM), que completa agora 40 anos. Na bagagem trazia a única coisa que se carrega – às costas e no peito – nos verdes anos: todos os sonhos do mundo.

Quando penso nos tempos que vivi em Macau e trabalhei no JTM, a primeira coisa que recordo é o impacto do primeiro encontro com o Oriente. Os cheiros, o calor húmido que se cola à pele e massacra o espírito, a imensa quantidade de gente, o frenesim constante de um território que pulsa sem parar. Digo muitas vezes que Macau me deu uma noção de escala, que não teria sem esta experiência. A Macau que, embora pequena, tem em tudo um perfil XL; a Macau que nunca dorme, nem deixa dormir; a Macau acelerada, caótica e excitante, ensinou-me quão pequenos somos, quando a escala é a do mundo. No JTM recordo, com todo o carinho do mundo e a nostalgia doce que nos fica das experiências felizes, as pessoas e, muito especialmente, a minha equipa que, aqui, resumo, naqueles que eram, à época, os seus três líderes: o José Rocha Diniz, o Sérgio Terra e a Joana Chói.

José Rocha Diniz, o director que tratava todos os portugueses por “compatriota”, que nos foi buscar ao aeroporto no primeiro dia e nunca mais abriu mão do papel de cicerone, numa terra que adoptou como sua há muitos anos e que ama verdadeiramente. Tornou-se rapidamente num amigo, porque tinha todos os ingredientes necessários para o ser: tinha um coração gigante, era alguém que era muito fácil admirar e acolhia todos os que ali chegavam, com o carinho e a generosidade de quem, um dia, fez a mesma viagem. Há duas ou três frases do Rocha Diniz que, ainda hoje, cito frequentemente (quem me conhece sabe: “quando eu trabalhava em Macau, o director do jornal onde eu trabalhava costumava dizer uma coisa que a vida veio a provar ser muito verdadeira…”) e há, pelo menos, dois ou três ensinamentos, que ele me passou, que continuam a ser – década e meia depois e mesmo tendo deixado de ser jornalista – absolutamente úteis. Sempre que estive à frente de equipas, a dirigir outras pessoas, mais tarde ou mais cedo, acabei por citar uma frase que ele usa, quando as coisas correm mal: “nós não somos médicos, isto não é uma cama de hospital e, ao contrário do que lá se passa, aqui, se falharmos, não morre ninguém”. Até nisto, continuo a rever em mim muito do que ele me ensinou: o importante são as pessoas e – enquanto isso não matar ninguém – é fazer como o Beckett nos ensinou: “Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.”

Sérgio Terra, o chefe de redacção que nunca dorme (literalmente porque, mesmo 14 anos depois, ainda não conheci ninguém capaz de bater a resistência do Sérgio ao cansaço), bem-disposto, dedicadíssimo, mestre na arte do carpe diem e em arranjar uma solução para cada problema. Era facílimo e sempre muito divertido trabalhar com ele. Era exigente, mas compreensivo, curioso e muito atento. Escrevia com o corrector automático desligado, mas, mesmo assim, apanhava as gralhas todas – era, também, um grande revisor de textos. Um dia, perguntei-lhe porque é que não ligava o corrector. Nunca me esqueci da resposta: “o corrector automático torna-te preguiçoso. Ficas desatento. Habituas-te a que seja ele a fazer o trabalho e, um dia, quando ele falhar, tu já vais estar destreinado”. Isto foi uma das várias coisas que o Terra me ensinou e que tenho tentado honrar, ao longo dos últimos anos: faço um esforço para me manter atenta ao mundo e nunca mais liguei o corrector automático.

Joana Chói, a secretária de redacção a quem chamávamos “Mãe Joan”, porque ela tomava conta de todos. Encomendava-nos o jantar, traduzindo ementas incompreensíveis; ralhava connosco quando não nos alimentávamos; tratava de nós quando ficávamos doentes; ia-nos ensinando umas palavras soltas de Mandarim, para conseguirmos sobreviver sem ela – tal como uma Mãe. Está há anos e anos ao lado do Rocha Diniz e ajuda, diariamente, a pôr na rua um jornal escrito numa Língua que ela não conhece, feito por pessoas que não falam a língua dela. Desculpem, estou a ser pouco rigorosa e isso fica mal a uma jornalista, ainda que “reformada”. Permitam-me que reformule: a Joana nunca falou Português e nós nunca falámos Cantonense. Mas ela sempre nos entendeu, porque no Jornal Tribuna de Macau toda a gente fala a mesma Língua.

Cheguei a Macau há 14 anos, com o Verão a acabar. Era o tempo de todos os começos e, ali, do lado do mundo onde nasce o Sol, nasceram também muitas coisas em mim. Muitas delas germinaram na redacção do mais antigo jornal de Língua Portuguesa de Macau, publicado ininterruptamente há 40 anos. Ali, na Calçada do Tronco Velho, a escassos metros do Largo do Senado e da famosa San Ma Lou, num edifício de janelas gigantes, onde escrevíamos com a urgência a que obrigam os diários, mas com tempo e vontade para ir espreitando a azáfama, lá fora. Cheguei com o Verão a acabar, na Primavera da vida. Na bagagem trazia a única coisa que se carrega – às costas e no peito – nos verdes anos: todos os sonhos do mundo. No dia em que vim embora, trazia comigo muito mais do que os 32 quilos permitidos pela TAP. Só por sorte não tive de pagar a taxa do excesso de bagagem. Mas a maior sorte foi ter encontrado numa redacção que tinha tudo para ser uma Torre de Babel, uma casa. Uma casa onde toda a gente fala a mesma Língua.

Obrigada por tudo, por tanto, a todos.

Muitos parabéns e longa vida ao Jornal Tribuna de Macau!

 

* Ex-jornalista

 

Ex-jornalistas e colaboradores escrevem sobre os 40 anos da Tribuna de Macau

Dia 1 de Novembro passam 40 anos que em Macau saiu nas bancas, pela primeira vez, o então semanário Tribuna de Macau”, que depois de 1998 passou a diário e agora celebra um marco histórico, uma vez que, na longa história da imprensa de Macau, nunca houve um jornal de informação generalista em língua portuguesa a manter-se tantos anos em publicação ininterrupta. Nesta ocasião, pedimos a vários jornalistas que passaram pela Redacção e outros observadores da “coisa pública” que nos enviassem as suas recordações destas quatro décadas de ligação comum. São estes textos que estamos agora a divulgar