Nestes mais de quarenta anos de vida em Macau que correspondem aos mesmos de actividade profissional existem alguns marcos indeléveis que necessariamente figuram no meu curriculum.

Um deles é o facto de me ter juntado aos quadros da “Tribuna de Macau”, jornal que completa agora não só mais um aniversário, mas também mais um recorde que é o de continuar a ser o que regista maior longevidade sem interrupções de publicação na história da imprensa de Macau.

Não considero, naturalmente nesta medida, “O Clarim” que se publica há mais tempo, mas que tendo características muito próprias como voz da igreja católica não se pode incluir na mesma esfera.

O outro facto prende-se com a profissionalização da comunicação social no Território o que compreende igualmente a televisão que surgiria algum tempo depois e na qual estaria também a ajudar a dar os primeiros passos nesse sentido.

Imprensa rádio e televisão transformaram nessa época todo o panorama não só da comunicação de massas mas o próprio ambiente social político e porventura até, ainda que indirectamente, económico em que a “Tribuna” marcou ao nível da imprensa, um antes e um depois do dia 30 de Outubro de 1982. E a diferença foi patente e notória.

Até então, pode dizer-se que no que toca aos media o Território era uma verdadeiro deserto, com um, ou outro oásis pequenino e atribulado, que ia mantendo acesa a chama do jornalismo.

Neste campo as existências contavam-se por menos do que os dedos de uma só mão.

Uma vez por semana lia-se o já referido “Clarim” que para além do calendário litúrgico, uns tantos comentários sobre casos da semana e colunas de opinião maioritariamente sobre temas religiosos, entre as quais se contavam as históricas opiniões de monsenhor Manuel Teixeira sobre os primórdios de Macau, pouco mais inseria nas suas páginas.

Ainda estávamos muito longe dos tempos em que a diocese decidiria embarcar na nova senda e contratar jornalistas profissionais que seriam capitaneados pelo saudoso Pe. Albino Pais.

Diariamente apareciam nos átrios dos departamentos públicos da cidade os exemplares da “Gazeta Macaense” que se não venderia muitos exemplares era desse modo assiduamente lido pela quase totalidade do funcionalismo público local.

Neste ponto é de salientar que o grosso da população portuguesa de Macau era constituído por trabalhadores ligados ao governo e às suas instituições.

Os que não o eram quase se contavam, mais uma vez, pelos dedos das mãos; meia dúzia de advogados, outros tantos médicos, engenheiros (menos) arquitectos (ainda menos) e alguns funcionários bancários.

Creio que não estarei a excluir nenhuma classe laboral em actividade ao tempo.

O jornalismo era exíguo, mas ao mesmo tempo paradoxal.

É que se por um lado a oferta era pouca ninguém parecia menos, ou mal informado, antes pelo contrário e a explicação é simples.

Milhares de antenas de televisão e sintonizadores radiofónicos traziam em chinês e inglês tudo quanto se fazia, ou deixava de fazer no mundo.

O seja a informação em chinês e inglês jorrava em torrentes através de um considerável número de jornais oriundos de Hong Kong que se juntavam aos títulos em ideogramas de Confúcio que se publicavam em Macau.

O panorama era portanto complexo num Território onde as notícias corriam mais depressa boca a boca do que rodavam as engrenagens das tipografias.

Um exemplo disto mesmo conta o escritor Henrique de Senna Fernandes quando recordando a vivência social de Macau do seu tempo nos informa que pelas cinco e tal da tarde o ponto de reunião era a “Solmar” (restaurante da moda) onde eram esperados os “spitfires”(alusão aos famosos caças da força aérea inglesa da II Guerra Mundial) que vindos do Palácio da Praia Grande davam conta dos mexericos transformados em leis, ou projectos secretos, ou nem tanto, que se discutiam nos seus gabinetes à porta fechada.

A Solmar era pois uma espécie de Gabinete de Comunicação Social dos dias de hoje, mas completamente oficioso que, democraticamente, distribuía as notícias aos dois, ou três jornalistas que por cá existiam e que depois de bem jantados lá iam redigir pachorrentamente as novas nas suas redacções.

É que não havia competição e por isso não havia pressa.

Chamar-lhes novas era, porém, eufemismo já que, como disse, tudo se sabia à velocidade dos “spitfires”.

A notícia em letra de forma do dia seguinte servia apenas para apor chancela oficial ao rumor, o que se era importante por um lado, por outro revelava-se totalmente despiciendo.

Com a chegada da Tribuna, a que se acrescentava um repovoamento dos quadros da função pública que se dotava de mais e mais técnicos para preencher carências, ou estruturar novos organigramas, o panorama provinciano do velho território português do Sul da China, que se preparava já para a transferência de administração para a República Popular, libertava-se quase num ápice desses seus contornos regionalistas e adoptava sem particulares dramas renovada face em vésperas do novo milénio que se preparava então para subir ao palco da história como protagonista inteiramente novo.

Neste contexto é ainda relevante acentuar o facto da renovação introduzida pela “Tribuna” não se ter circunscrito à maquinaria moderna que fazia desaparecer os tradicionais borrões da velha imprensa tornando a leitura mais atractiva e mais limpa.

De facto a profissionalização dos quadros, a vários níveis e não só dos jornalistas, contribuiu para atrair gente nova para esta área da comunicação.

Muitos desses jovens acabariam por aprender na Tribuna e depois singrar nas respectivas carreiras integrados noutros projectos dos muitos que começariam a surgir a partir de então que não só na imprensa.

A acrescentar a tudo isto de referir também o facto do jornal se projectar desde o início como um receptáculo das mais variadas opiniões e pontos de vista vindos de pessoas que não sendo profissionais queriam intervir na vida pública de Macau e a quem eram abertas as suas páginas.

E tantas vezes abrigaram vozes que estavam longe de coincidir com as orientações editoriais da Tribuna.

Para mim esta foi uma faceta marcante e um exemplo democrático de pluralidade e respeito pela liberdade de expressão do pensamento do órgão de imprensa onde dei os primeiros passos como profissional em Macau.

* Jornalista e investigador

Ex-jornalistas e colaboradores escrevem sobre os 40 anos da Tribuna de Macau

Dia 1 de Novembro passam 40 anos que em Macau saiu nas bancas, pela primeira vez, o então semanário Tribuna de Macau”, que depois de 1998 passou a diário e agora celebra um marco histórico, uma vez que, na longa história da imprensa de Macau, nunca houve um jornal de informação generalista em língua portuguesa a manter-se tantos anos em publicação ininterrupta. Nesta ocasião, pedimos a vários jornalistas que passaram pela Redacção e outros observadores da “coisa pública” que nos enviassem as suas recordações destas quatro décadas de ligação comum. São estes textos que estamos agora a divulgar