Viajar até ao que vivemos numa época distante, quando esse tempo e esse lugar permanecem colados à nossa pele, é excepcional. Por ter sido tanto de descoberta como de espanto, de ingenuidade, aprendizagem, tropeços e regozijos.

Honra ao Jornal Tribuna de Macau pelos 40 anos de informação testemunhada e analisada, escrita com entusiasmo por dezenas de jornalistas de quem o jornal foi e é tarimba, escola e até solidário abrigo. Grato pela oportunidade que a Tribuna me dá em celebrarmos juntos, ligados por este breve exercício da memória e da escrita.

Ainda com pouco mais de três meses no território e escassas semanas no jornal, estive presente no almoço comemorativo do seu primeiro aniversário. Até chegar ali, com trinta e alguns anos de idade, profissionalmente era apenas, a partir de muito jovem, um homem da rádio desde Moçambique até Portugal. Não interessa, neste enquadramento, mencionar as gravíssimas aleivosias executadas a mando do Governador, em Outubro de 1983, sobre um grupo de jornalistas requisitados à RDP, num cobarde golpe de mão, pela calada da noite, aproveitando a ida a Pequim, em serviço, do administrador da recém-criada TDM. Refiro-o somente para contextualizar a minha entrada para o então semanário Tribuna dirigido e fundado pelo jornalista José Rocha Diniz.

Estou ciente de que muito dificilmente teria conhecido tão de perto algumas das singulares realidades de Macau, se não tivesse vivido intensamente num meio de comunicação para mim novo, enquanto jornalista, naqueles primeiros tempos do que viria a ser a minha longa caminhada de 32 anos por este território, mais tarde região.

Era relativamente recente o restabelecimento das relações diplomáticas entre China e Portugal, as receitas do jogo autorizado contribuíam quase totalmente para o crescimento de uma conservadora cidade pequena, com duas ilhas adjacentes, formalmente administrada por Portugal, mercado aberto, onde o lixo era acumulado de encontro às paredes dos edifícios, as ratazanas por pouco não tomavam conta da cidade, a água de consumo jorrava muitas vezes barrenta, a energia eléctrica falhava com alguma frequência, as comunicações com o exterior eram dificílimas, a higiene na generalidade dos restaurantes era indescritível. Mais: Havia Sua Excelência o Governador português, na realidade prática pouco mais do que um director-geral dos funcionários públicos de quem era dono e soberano.

O território prometia vir a ser próspero. A chamada máquina administrativa crescia como nunca, o dia a dia era o movimento constante de portugueses “da República” em direcção a Macau. Na segunda metade dos anos 1980, a criação de algumas faculdades de ensino superior, e protocolos acertados com os países de língua portuguesa, mais a denominada “macaízação dos quadros”, positivamente aliciando em Portugal macaenses licenciados nas mais diversas áreas, iam acrescentando riqueza múltipla ao universo local da nossa língua. O Governador de então, com fama e proveito de concentrar em si múltiplos poderes de decisão e, alegadamente, a partir de determinada altura, na esperança de ser candidato a PR, não suportava confronto com outra opinião que não a sua, ou sequer que algum dirigente político lhe fizesse sombra, por muito ilustre que ele fosse, como por exemplo o Dr. Carlos Assumpção, presidente da Assembleia Legislativa, brutalmente mandada encerrar por Sua Excelência o Governador.

Perseguiram-se e anularam-se jornalistas, levados a tribunal e interrogados pela PJ, ameaçadores telefonemas anónimos de madrugada e mensagens escritas por debaixo da porta. Manietavam-se professores e outros funcionários públicos com filhos em idade escolar. A ainda titubeante comunicação social de língua portuguesa era subjugada, o governo chegou a criar um jornal apologético esboçado e escrito na própria sede da Administração. O então semanário Tribuna, nascido em 1982, comprado nas bancas quase disfarçadamente, e lido às escondidas, corajosamente ia apontando erros governativos, naturais e, principalmente, anti-naturais. A Tribuna denunciava os erros e as falsidades. Enfim, era um tempo em que tudo o que não levasse a bênção colonial do senhor Governador não tinha cabimento em Macau.

Foi neste ambiente, aqui pincelado muito levemente, com uma filha de nove anos comigo, que comecei a trabalhar na Tribuna. Na redacção éramos apenas dois, o director e eu; com um ou outro colaborador para textos de opinião e cobertura de algumas actividades desportivas, bem como as célebres fotomontagens e cartuns de sátira local.

Mesmo com, naturalmente, possíveis erros pontuais de avaliação sobre o modo de conduzir o acto administrativo do território por parte de um governador de patéticas bravatas ao jeito colonial e gravemente prejudiciais, o exercício da liberdade de escrita e da resistência praticava-se na Calçada de Santo Agostinho. Alguma coragem também.

Aqueles primeiros quatro anos de notícias, reportagens, entrevistas, opinião, registos fotográficos e legendas – porque todos fazíamos tudo – foram o cimento, a forja da minha ligação a Macau até ao fim dos dias que me pertencerem. A José Rocha Diniz ficarei sempre devendo a confiança, a paciência para aturar a minha ignorância técnica sobre o funcionamento da imprensa, a importância das causas locais, a dimensão que se lhes deve dar em página de jornal, o exemplo do alerta permanente, a ousadia. E nunca, por uma única vez, alguma diferença de opinião impediu que estivéssemos lado a lado. O mesmo acontecendo poucos anos depois, quando, acumulando com a rádio, voltei a escrever no jornal. Tal como mais tarde, depois de trabalhar com outras publicações, a quem também sou devedor de aprendizagem e confiança, regressar ao JTM até optar pela residência em Portugal.

Há poucos dias, quando o Sérgio Terra, actual director do JTM, com a gentileza e objectividade de sempre, me solicitou um texto a propósito do 40º aniversário do jornal, sugeria ele que eu contasse algum episódio, podendo mencionar a influência, ou não, que os anos de colaboração com a Tribuna tiveram sobre a minha vida. Gigante influência, camarada. Fosse eu mais capaz, teria extraído melhor proveito.

Episódios curiosos ao serviço da Tribuna, foram muitos, inesquecíveis, quase todos eles, directa ou indirectamente, e experiência profissional e de vida. Recordo apenas um, vivido ainda nos primeiros meses de actividade no jornal. O director, a propósito não me ocorre de quê, destaca-me para uma entrevista a Chui Tak Kei (falecido faz agora 15 anos), uma das mais importantes e influentes figuras da comunidade chinesa, dirigente das principais associações patronais e com peso político, vice-presidente da Assembleia Legislativa.

Chui Tak Kei, conhecido por “gostar dos portugueses”, era daquelas pessoas que, pelo menos publicamente, mostrava um suave sorriso permanente. Estando de fresco em Macau, eu nunca o tinha visto. Socorrendo-me, como quase sempre, de alguém que generosamente traduzisse a entrevista, à hora marcada estava no seu escritório onde me aguardava na companhia de um tradutor profissional, cidadão macaense que eu já conhecia.

Assim que lhe fui anunciado por uma secretária, veio ao meu encontro de sorriso menino, olhos fixos nos meus, mão lançada ao cumprimento, dizendo: desculpa, eu falo pouco português, e indicou-me o tradutor. Foi a minha vez de, por importância maior de razão, lhe pedir desculpa por não falar a sua língua.

A conversa, mais do que entrevista, fluiu tranquilamente, Chui Tak Kei brindando-me com umas frases em português e um subtil sentido de humor. Da minha parte, lá ia tomando notas. Pelo meio, após breve pausa para o entrevistado atender um telefonema, pedi-lhe se poderia tirar umas fotos, ao que respondeu prontamente se eu desejava que ele ficasse sentado ou de pé.

Ocorre-me que era dia de fecho da edição que sairia na manhã seguinte. Chego à redacção ao princípio da noite, depois de longa espera pela revelação do rolo fotográfico. Ainda era o tempo das maquetas de cada página expostas na vertical, para eventuais emendas e retoques de pormenor. Rocha Diniz, atarefado com o fecho, quis saber como decorrera a entrevista. Folheando o bloco de notas, respondi singelamente que o senhor tinha sido muito simpático, mas não tinha encontrado conteúdo que justificasse alguma peça. Apontando-me as duas fileiras de maquetas com as páginas já preenchidas, diz-me descontraidamente: Ah, não?, pois tens ali uma página em branco e uma hora para a preencheres. Somente a primeira página e a que me calhara, estavam em branco. Senti-me a entrar por um buraco.

Via e revia mil vezes os apontamentos, aquilo para mim não tinha substância. O director, assobiando baixinho, galgara as escadas até ao gabinete. Admirado pela aparente descontracção do director, entrego as fotos a quem paginava, sento-me à secretária, o tempo a correr e eu desesperado à espera de alguma luz.

Oiço dizerem-me: esta foto de Chui Tak Kei ao alto, quase em perfil, com um destaque recortado do texto a acompanhar a imagem, mais o antetítulo, o título principal e um anúncio, está feita, não tem de escrever muito, Helder, vá lá, concentre-se.

Foi definitivo. Espremo o máximo do que anotara, busco na memória recente o que ouvira e desvalorizara, dou ao dedo antes que me esquecesse; pouco depois, página feita, e nem estava mal de todo. Como que adivinhando, o director desce à redacção com o seu assobio de sexta-feira, mira as maquetas, troca impressões com quem paginava, e vá de preparar os títulos de primeira.

Parece singelo este exemplo, porventura pouco representativo de todas as diferentes experiências que vivi no jornal, mas apeteceu-me contá-lo; de algum modo, representa a importância que devemos à opinião regional, ao acontecimento local, por muito que ao jornalismo de massa pareça desinteressante.

As quatro décadas do Jornal Tribuna de Macau, agora justamente celebradas, ajudaram, definitivamente, em cada edição, a fazer e a registar a história recente de Macau. E tanto e tão diferente aconteceu!

Sou testemunho de que o destinatário do que escrevemos pode não permanecer apenas leitor, acontece muitas vezes ser cúmplice. Cúmplice não apenas de situações narradas, de opiniões vertidas, dificuldades de percurso, mas também das transformações, do esforço do jornal em ser melhor. Neste caso, o JTM, valorizado década após década, cumpre não somente o dever de informar, como também, no âmbito da sua acção na sociedade macaense, no leitor de língua portuguesa, a função social, a defesa dos legais interesses do cidadão. Como muitos que vestiram a sua camisola, pessoal e profissionalmente ganhei ferramentas utilíssimas, pratiquei liberdade.

 

*Jornalista e radialista reformado

 

Ex-jornalistas e colaboradores escrevem sobre os 40 anos da Tribuna de Macau

Dia 1 de Novembro passam 40 anos que em Macau saiu nas bancas, pela primeira vez, o então semanário Tribuna de Macau”, que depois de 1998 passou a diário e agora celebra um marco histórico, uma vez que, na longa história da imprensa de Macau, nunca houve um jornal de informação generalista em língua portuguesa a manter-se tantos anos em publicação ininterrupta. Nesta ocasião, pedimos a vários jornalistas que passaram pela Redacção e outros observadores da “coisa pública” que nos enviassem as suas recordações destas quatro décadas de ligação comum. São estes textos que passamos hoje a divulgar.