Calhou que a minha ida para Macau tivesse coincidido com um dos períodos mais difíceis da história recente de Portugal: em Abril de 2011, o governo português solicitava um resgate financeiro e o país ficou perto do abismo. E digo calhou porque, apesar de o meu desejo de ir para Macau ser antigo, não se tendo concretizado quatro anos antes quando terminava os meus estudos na Universidade de Coimbra, nada naquele ano me fazia imaginar que estava prestes a receber um convite que seria irrecusável: não, apesar de tudo, pela situação complicada que o país começava a viver, não por um salário mais elevado, mas simplesmente porque era Macau. Muito tempo antes de pôr um pé no território, já este ocupava o meu imaginário. A vontade de partir à descoberta, de abrir horizontes, de conhecer “terras de pimenta e maravilha”, como canta o Fausto, e de experienciar uma nova forma de fazer jornalismo, falava mais alto do que a família, os amigos, a cidade de Lisboa que, entretanto, adoptara como minha, e uma posição estável no maior jornal nacional.

Nunca na vida eu tinha voado tantas horas seguidas como dessa vez em que, finalmente, rumei a Macau, em Setembro de 2011. Lembro-me de a certa altura olhar pela janela do avião para descobrir que estava a passar por cima dos Himalaias e de ainda faltarem umas cinco ou seis horas para chegar. Logo à saída de Hong Kong Station, depois de me ter enganado no aeroporto e não ter seguido directamente para o jetfoil – erro de principiante , senti pela primeira vez sobre os ombros o peso da humidade e da temperatura. Quando finalmente chego à RAEM, já de noite, sou absorvido pela agitação de final do dia de uma cidade que não dorme, pelo cheiro tão característico e tão difícil de descrever e pelo clarão das luzes e néons que proliferavam por toda a península, em casinos, casas de penhores, restaurantes e todo o tipo de outras casas comerciais.

Sem estranhar, Macau entranhou-se em mim imediatamente. E no Jornal Tribuna de Macau – a Tribuna – senti que estava no posto de observação ideal para ter uma visão privilegiada e descobrir afinal que terra era esta. As primeiras lições chegaram rápido: o cuidado adicional que era necessário ter com as fontes, as segundas leituras que tinham de ser retiradas de comunicados e eventos oficiais, as interpretações de interpretações dos protagonistas de língua chinesa e, talvez o mais significativo, a importância de entender que trabalhávamos num jornal de Macau, de língua portuguesa, e não num jornal português. Felizmente, na redacção contávamos com o vasto conhecimento de Macau, e das suas gentes, de José Rocha Diniz, e com o incansável Sérgio Terra, que pacientemente nos iam entrosando no jornalismo da RAEM. Ao mesmo tempo, Joana Chói, a secretária de redacção, cuidava de todos nós com dedicação, pelo que a nossa vida ficava tremendamente facilitada e nos podíamos concentrar na missão que ali nos levava: fazer sempre a melhor edição possível, informando com rigor e liberdade, honrando os pergaminhos daquela casa e do jornalismo em Macau. Mas não era nada fácil, demasiadas vezes os dias pareciam intermináveis, e a equipa curta demais. Só que o que faltava em braços, sobrava em entrega e, no final de contas, tudo acabava por compensar quando, no dia seguinte, via a primeira página da Tribuna exposta num dos quiosques do Leal Senado.

Bem sei que hoje em dia outras dificuldades se sobrepõem a estas, afinal passámos por uma pandemia global de Covid-19, cujas consequências ainda se fazem sentir de forma muito premente, e a China está, aos poucos, a fechar-se novamente sobre si mesma, arrastando as duas RAEs e asfixiando as liberdades, nomeadamente de imprensa, que pareciam garantidas por muitos anos. Mas Macau é uma cidade muito antiga e que já passou por muitos vaticínios que se verificaram falaciosos, tendo sabido sempre sobreviver, reinventar-se e prosperar.

A Tribuna chegou aos 40 anos e o que mais posso desejar é que consiga, na linha do que já nos bem habituou, manter-se uma escola para os jovens jornalistas que chegam ao território, um fórum de livre expressão de ideias, um veículo da língua portuguesa e da cultura macaense e uma defensora intransigente da liberdade de imprensa.

É com saudade que recordo estes anos de Macau: muito obrigado aos que há mais de 10 anos me acolheram naquela que foi uma das mais enriquecedoras e extraordinárias experiências que vivi, e muito obrigado agora pelo convite para voltar a escrever em mais uma edição. À Tribuna e à actual equipa, muitos parabéns!

 

*Assessor de imprensa

 

Ex-jornalistas e colaboradores

escrevem sobre os 40 anos

da Tribuna de Macau

 

Dia 1 de Novembro passam 40 anos que em Macau saiu nas bancas, pela primeira vez, o então semanário Tribuna de Macau”, que depois de 1998 passou a diário e agora celebra um marco histórico, uma vez que, na longa história da imprensa de Macau, nunca houve um jornal de informação generalista em língua portuguesa a manter-se tantos anos em publicação ininterrupta. Nesta ocasião, pedimos a vários jornalistas que passaram pela Redacção e outros observadores da “coisa pública” que nos enviassem as suas recordações destas quatro décadas de ligação comum. São estes textos que estamos agora a divulgar