As primeiras impressões são, não raras vezes, aquelas que mais perduram. No meu caso, a minha primeira memória de Macau – aquela que guardo até hoje – foi o ficar com os óculos imediata e completamente embaciados devido ao calor húmido de uma já abafada tarde de Maio, enquanto desembarcava no Terminal Marítimo do Porto Exterior. “No que me vim meter?!”, pensei para comigo. A resposta era simples: havia aceite um convite para integrar a equipa do Jornal Tribuna de Macau (JTM).

Após um par de anos a trabalhar na redacção de um dos principais diários portugueses, o desafio de vir para Macau parecia fazer sentido. Não só monetário, mas sobretudo ao nível de experiência de vida: na casa dos vintes, sem responsabilidades nem amarras de maior, era o momento ideal para cruzar oceanos e colocar novos pontos cardinais no meu mapa pessoal.

No JTM, encontrei uma nova casa, a começar pela energética Joana Chói, responsável pelos serviços administrativos da empresa e um enorme poço de paciência e bondade, sempre disponível para ajudar os jornalistas portugueses do jornal a ultrapassarem quaisquer dificuldades que as barreiras linguistas nos pudessem colocar. Foi ela que me “baptizou” com o meu nome de família chinês que, embora nunca plasmado de forma oficial no meu Bilhete de Identidade de Residente, passei agora aos meus filhos, já nascidos no território.

Se as diferenças – de recursos humanos e materiais – eram abismais entre a redacção que deixei em Lisboa e aquela que vim encontrar em Macau, o certo é que a extraordinária disponibilidade e capacidade de trabalho de um minúsculo grupo conseguia, dia após dia, esse milagre que é fazer sobreviver um jornal em português num território chinês. Em grande parte, pela liderança incansável na redacção de Sérgio Terra, que, pacientemente, nos detalhava o intricado funcionamento da máquina chamada RAEM. A ele devo muito do que sei hoje sobre o território, as suas gentes, a sua forma de operar e as especificidades que marcam este palmo de terra.

Ao serviço do JTM, tive a oportunidade de realizar alguns dos trabalhos jornalísticos que mais me marcaram. À memória, salta uma reportagem no Vietname acompanhando as iniciativas no país da organização não-governamental Orbis, focadas na promoção da saúde visual, tema que é muito caro. Foi também como jornalista do JTM que tive a oportunidade de entrar no complexo de Zhongnanhai, no centro de Pequim, onde palpita o coração político da República Popular da China, ou de entrevistar figuras proeminentes da cultura em português, desde a fadista Ana Moura ao falecido escritor local Henrique de Senna Fernandes, membro incontornável da comunidade macaense e um delicioso contador de histórias.

Mais de uma década passou desde as minhas últimas memórias ao serviço do JTM. Durante esse período, muito mudou na comunicação social em português de Macau: após um período de maior fulgor e expansão, os media locais em língua portuguesa enfrentam hoje desafios de diversa ordem. À boleia dos 40 anos do JTM, é imprescindível que todos nós, aqueles que, em Macau, usamos o idioma de Camões para nos expressar, saibamos reconhecer o papel da comunicação social em língua portuguesa na definição (e afirmação) da nossa comunidade. Sem media locais fortes e activos, ficamos mais “invisíveis” no seio do todo, bem como mais distantes entre nós: foi esta a grande lição que José Rocha Diniz, a “alma” do JTM, me ensinou nos anos em que estive no jornal – mensagem que, por ventura, só viria a compreender na sua plenitude anos depois. Ao JTM, mais do que parabéns, obrigado.

* Jornalista

Ex-jornalistas e colaboradores escrevem sobre os 40 anos da Tribuna de Macau

Dia 1 de Novembro passaram 40 anos que em Macau saiu nas bancas, pela primeira vez, o então semanário Tribuna de Macau”, que depois de 1998 passou a diário e agora celebra um marco histórico, uma vez que, na longa história da imprensa de Macau, nunca houve um jornal de informação generalista em língua portuguesa a manter-se tantos anos em publicação ininterrupta. Nesta ocasião, pedimos a vários jornalistas que passaram pela Redacção e outros observadores da “coisa pública” que nos enviassem as suas recordações destas quatro décadas de ligação comum. São estes textos que continuamos a divulgar