Há pouco mais de três anos assinava o meu último artigo neste jornal. Perdi a conta aos artigos que escrevi, às entrevistas que conduzi, às traduções que “decifrei”, às estórias que contei em formato de reportagem e aos textos que editei ao longo dos quatro anos em que, diariamente, subi a íngreme Calçada do Tronco Velho.

A minha ida para Macau foi fruto do acaso. Resultado de uma certa impaciência e de uma vontade (dito necessidade) de desbravar caminho, e iniciar um novo capítulo. Em teoria, esse caminho seria feito em Portugal e de preferência na área. Várias candidaturas submetidas, poucas respostas, e promessas de entrevista que se contavam pelos dedos das mãos – quase todas elas propondo condições precárias.

Em jeito de impulso candidatei-me a uma vaga que não sabia estar disponível. Uma hora depois dizia à minha mãe que tinha uma entrevista agendada. Entusiasmada, perguntou-me se era para Lisboa ou Porto – por serem os destinos lógicos. Disse-lhe “Macau”. “Onde?”, questionou-me, confusa e incrédula até.

Nas semanas seguintes não tive tempo de processar sobre aquela que se tornou na experiência mais desafiante, enriquecedora e transformadora da minha vida. Só tive tempo de tratar de burocracias, fazer malas e seguir viagem. Em pouco menos de um mês estava em Macau – onde sempre regressei até Agosto de 2019, altura em quem me despedi.

Se mudar-me para o Oriente, Macau, foi inconscientemente uma decisão fácil, sair foi conflituoso. A minha experiência pela Ásia foi indescritível, especial. Foi neste jornal onde encontrei o verdadeiro sentido de camaradagem, aprendi que errar faz parte do percurso, e passei a dar ainda mais valor ao “porquê”. Abri horizontes, e conheci outro lado do mundo. Entrevistei anónimos de Macau, e contei histórias que me fizeram arrepiar.

Subi aquela ladeira orgulhosa por ver publicado o meu primeiro artigo; frustrada com aquela entrevista que não correu tão bem como esperava; desiludida com aquela conferência de imprensa onde não consegui encontrar a resposta a todas as minhas questões; drenada depois de horas a fio a acompanhar assembleias legislativas ou sessões de julgamento.

Tive o privilégio de partilhar redacção com uma equipa de jornalistas ímpar. A elas agradeço a dedicação com que se entregaram ao Jornal Tribuna de Macau durante os anos em que ali trabalhei. Ao Sérgio, agradeço a forma como me recebeu, e me guiou. Apesar de nem sempre partilharmos opinião aceitou os meus erros, e validou o meu valor enquanto jornalista.

Foi um verdadeiro desafio ter feito parte da equipa deste jornal de Macau em língua portuguesa. Chegou a ser alucinante testemunhar, e viver na primeira pessoa, a entrega e dedicação daquela pequena equipa – nos dias de hoje ainda mais reduzida.

Parabéns Jornal Tribuna de Macau. Fica aqui o meu obrigada também à Liane, Salomé, Viviana, Rima e Joana Choi. Sem vocês Macau e a minha passagem por este jornal não teria sido a mesma.

Um especial obrigada à Catarina Pereira, actual editora deste jornal que tem feito um trabalho brilhante, e a toda a equipa pela dedicação e destreza com que têm ultrapassado as dificuldades e obstáculos. Que se continuem a preencher as páginas deste jornal, e a noticiar o território sem filtros por mais outros tantos 14.610 dias.

 

Oriente! Haverá nome que melhor tenha soado aos ouvidos dos portugueses? Não há, e com razão. É que o Oriente é aquele mundo onde qualquer coisa de novo, de misterioso e de subtil, empresta uma nova feição à vida e às coisas.” – A caminho do Oriente, Jaime do Inso.

 

* Coordenadora de Conteúdos na Trinity College London.

 

Ex-jornalistas e colaboradores escrevem sobre os 40 anos da Tribuna de Macau

Dia 1 de Novembro passam 40 anos que em Macau saiu nas bancas, pela primeira vez, o então semanário Tribuna de Macau”, que depois de 1998 passou a diário e agora celebra um marco histórico, uma vez que, na longa história da imprensa de Macau, nunca houve um jornal de informação generalista em língua portuguesa a manter-se tantos anos em publicação ininterrupta. Nesta ocasião, pedimos a vários jornalistas que passaram pela Redacção e outros observadores da “coisa pública” que nos enviassem as suas recordações destas quatro décadas de ligação comum. São estes textos que estamos agora a divulgar