É-me pedido um texto para a edição comemorativa dos quarenta anos do JTM, interrompendo-se-me assim brevemente o limbo que me impus, em termos de escrita, há quase um ano. Não indiferente à efeméride, saúdo efusivamente José Rocha Diniz, Sérgio Terra e os elementos da equipa actual do jornal, como representantes de todos os que os antecederam, na já longa caminhada, por ocasião deste feliz aniversário!
Mas outro motivo me leva a responder afirmativamente ao convite: o poder reiterar – ainda e mais uma vez – a minha fidelidade a dois dos “amores” que mais têm enriquecido o meu percurso pessoal: os que nutro pela nossa língua e pelo sempre fascinante exercício da escrita.
Pela nossa língua, com a sua musicalidade e o aconchego afectuoso das palavras com que nascemos e com que crescemos. E a escrita, essa aventura sempre nova de registar palavra depois de palavra, como se numa caminhada sempre única pela areia virginal da praia.
Acresce que continua intacta a minha curiosidade pelo núcleo de temas que me têm animado no último meio século, tudo o que, no domínio das relações entre Estados, se passa neste nosso conturbado planeta , cada vez mais ensombrado pela multiplicidade de conflitos que colocam, sobre todos nós, um preocupante ponto de interrogação.
Mas a esperança é de rigor para quem tem filhos e netos a quem legar um mundo pelo menos… habitável. Por isso aqui escrevi frequentemente, a propósito das múltiplas questões abordadas, vendo-as sob o ângulo da diplomacia. A diplomacia, quer dizer, essa tentativa última de quem não se pode resignar ao pior.
Uma “segunda casa”
Durante quase dez anos, o JTM foi quase uma segunda casa para mim, tanto de pessoal pus (de empenho e entusiasmo) ao escrever regularmente as minhas crónicas e de as ver publicadas! E pelo acolhimento que os meus textos sempre mereceram, da parte de quem teve a santa paciência de suprir deficiências dactilográficas que a minha péssima visão nunca pôde superar. Bem hajam, meus santos… amigos!
Esses quase dez anos de escrita livre seguiram-se – importa recordar o contexto – a quase três décadas e meia no serviço diplomático português, a que acresciam alguns anos já de magistratura e advocacia. E, como diplomata, seis anos muito significativos passados em Macau (1996-2002}, três imediatamente antes e sobretudo três logo depois do “handover”.
O JTM constituiu assim, intelectualmente falando, um dos meus meios privilegiados de respirar, para além das fronteiras físicas do quotidiano – passaporte que a escrita quase sempre dá! Por outro lado, foi o jornal, igualmente, um meio de reflectir na importância da comunidade lusófona residente, a portuguesa e de outros luso-falantes, pensando em como a RAEM muito devia e deve do seu carácter cosmopolita à existência de todos esses elementos que também enriquecem, com o seu contributo, essa região administrativa especial da China.
Reitero pois as minhas saudações ao jornal, como instituição e a todos os que nele trabalharam e trabalham, e aos seus colaboradores, na já longa caminhada destes quarenta anos.
*Embaixador. Primeiro Cônsul-geral de Portugal na RAEM
Ex-jornalistas e colaboradores escrevem sobre os 40 anos da Tribuna de Macau
Dia 1 de Novembro passam 40 anos que em Macau saiu nas bancas, pela primeira vez, o então semanário Tribuna de Macau”, que depois de 1998 passou a diário e agora celebra um marco histórico, uma vez que, na longa história da imprensa de Macau, nunca houve um jornal de informação generalista em língua portuguesa a manter-se tantos anos em publicação ininterrupta. Nesta ocasião, pedimos a vários jornalistas que passaram pela Redacção e outros observadores da “coisa pública” que nos enviassem as suas recordações destas quatro décadas de ligação comum. São estes textos que passamos hoje a divulgar.



