A mala vinha feita para duas ou três semanas, mas desde que aterrei em Hong Kong, em Julho de 2013, só regressaria a Portugal praticamente um ano depois. A falta de planeamento viria a pagá-la cara quando, por alturas do Ano Novo Chinês, senti na pele as escassas duas semanas de Inverno que se fizeram sentir: uma noite, ao sair do trabalho, abri a porta do JTM na Calçada do Tronco Velho e um vento gélido varria a rua de alto a baixo. Eram os ventos de Norte, diziam-me, os ventos que por uns dias suspendiam o tempo quente e húmido que tanto me tinha feito sofrer até então.

Os dias seguintes foram de azáfama à procura de um “min toi”, aquecedores e roupa de inverno, uma tarefa na qual a sempre disponível e incansável Joana Chói também ajudou. A Joana era e é a secretária de redacção do JTM, mas na prática era muito mais do que isso. Era a ajuda sempre preciosa no dia-a-dia para todos os que, acabados de chegar de Portugal, se sentiam perdidos numa cidade onde nem o português nem o inglês eram língua-franca.

Era a segunda vez que estava em Macau. A primeira tinha sido nas vésperas da transição de administração para visitar uma familiar que se preparava para deixar a cidade. Nessa altura, os néons do Hotel Lisboa não tinham rival na noite de Macau. Quinze anos depois, quando regressei, era o Grand Lisboa que dominava o horizonte na península e o COTAI acolhia os maiores templos de jogo do mundo. Mas, ainda assim, voltei a experienciar a mesma sensação de estranheza e familiaridade que tinha sentido durante a primeira passagem por Macau.

Desta vez vinha visitar amigos e procurar uma oportunidade de trabalho. Desde os tempos de Faculdade que Macau sempre pairou como uma possibilidade. Ao longo dos anos o Jornal Tribuna de Macau tinha acolhido vários alunos de Jornalismo da Universidade de Coimbra e alguns colegas de curso que estavam a trabalhar em Macau tinham passado pelo JTM também. Em Macau, diziam-me, para arranjar trabalho na área do jornalismo era uma questão de estar à hora certa no lugar certo e o JTM era o sítio ideal para começar dada a estabilidade do projecto liderado por José Rocha Diniz.

Contactei vários órgãos de comunicação social a candidatar-me a um posto de trabalho. José Rocha Diniz respondeu-me amavelmente, convidando-me a visitar o JTM na Calçada do Tronco Velho. Mostrou-me as instalações, apresentou-me a equipa e numa curta reunião no seu gabinete explicou que naquele momento não havia vagas no JTM, mas que iria ficar com as minhas referências para uma oportunidade futura. De seguida, levou-me numa visita de carro à cidade para que não regressasse a Portugal sem ficar com uma ideia de Macau, da San Ma Lou ao Porto Interior, passando pela Taipa e Coloane. Não tinha conseguido trabalho, mas tinha ficado com vontade de trabalhar no JTM.

A minha viagem de regresso a Portugal aproximava-se quando, uns dias depois, recebi uma chamada inesperada: Era o José Rocha Diniz comunicando-me que um jornalista estava de saída do JTM e que havia uma vaga no jornal. Não hesitei. Disse que sim à proposta e a minha viagem de regresso a Portugal acabaria adiada por tempo indeterminado. Trabalhei durante dois anos e meio no JTM, um período de intensa aprendizagem sobre Macau, sobre os desafios de fazer um jornal em língua portuguesa numa cidade chinesa, de aprendizagem também sobre o que é fazer um jornal além de escrever artigos: a edição, a paginação, como se faz uma primeira página. Foram dois mas intensos anos de aprendizagem no qual José Rocha Diniz e Sérgio Terra tiveram um papel fundamental e aos quais agradeço. Que venham mais 40 anos de Tribuna de Macau. À actual equipa do JTM muitos parabéns por este aniversário.

* Jornalista. Integrou os quadros da “Tribuna de Macau” de Setembro de 2013 a Dezembro de 2015

Ex-jornalistas e colaboradores escrevem sobre os 40 anos da Tribuna de Macau

Dia 1 de Novembro passaram 40 anos que em Macau saiu nas bancas, pela primeira vez, o então semanário Tribuna de Macau”, que depois de 1998 passou a diário e agora celebra um marco histórico, uma vez que, na longa história da imprensa de Macau, nunca houve um jornal de informação generalista em língua portuguesa a manter-se tantos anos em publicação ininterrupta. Nesta ocasião, pedimos a vários jornalistas que passaram pela Redacção e outros observadores da “coisa pública” que nos enviassem as suas recordações destas quatro décadas de ligação comum. São estes textos que divulgámos ao longo dos últimos dias