As quatro selecções que irão discutir a presença na final de Moscovo têm passados diferentes: duas (França e Inglaterra) poderão repetir o feito, e as outras (Bélgica e Croácia) tentarão inscrever os seus nomes nas páginas de ouro da história dos mundiais de futebol

 

Costa Santos Sr*

 

Na próxima madrugada (02:00 pelo horário de Macau), no Estádio Krestovsky, em São Petersburgo, com capacidade para 65.000 espectadores, França e Bélgica apostarão tudo para garantir a presença na final no Estádio Luzhniki, em Moscovo, com lotação para 80.000 pessoas.

Não é necessário deitar mão a incentivos extra, porque bastará pensar numa final do Mundial, para qualquer jogador sentir toda a motivação do mundo! Se os franceses  já estão habituados a isso – foram campeões do Mundo em 1998, na prova disputada no seu país, derrotando o Brasil por 3-0, e voltaram ao palco da final em 2006, na Alemanha, perdendo, nas grandes penalidades (5-3) frente à Itália – os belgas fazem a estreia nesses horizontes, graças a uma caminhada de certo modo surpreendente, vencendo o seu grupo (G) onde tinham como adversário “principal” a Inglaterra e, depois, afastaram o Japão e o Brasil. São naturalmente credenciais com peso e que, por isso, obrigam Didier Deschamps a todos os cuidados.

Sem pretender fazer uma “radiografia” do estilo de futebol belga, sempre dizemos – e a história confirma-o – que a sua estratégia assenta nas transições rápidas, num bloco defensivo baixo, bem auxiliado por um meio-campo batalhador, e depois no passe largo, o futebol directo para um trio dianteiro que tanto tem dois homens colados às linhas como forma um “tridente” na zona interior do terreno. Neste sistema encaixam-se na perfeição Hazard e Mertens (nos flancos) e o poderoso Lukaku, autêntico “tractor” que tudo leva na frente, pelo seu poder no 1×1 como pela sua velocidade de execução. Se “no papel” o sistema poderá ser o 3x4x3, na prática é quase sempre o 2x5x3 ou até 2x5x2x1. Para além deste trio será bom não esquecer o gigante Courtois, a mobilidade de Witsel e a segurança de Fellaini.

É evidente que os franceses conhecem como os dedos das suas mãos este estilo belga, muito embora uma coisa seja “conhecê-lo” e outra ter o antídoto para o travar. Apesar de figuras como Lloris, Giroud, Griezmann, Pogba, Varane e Mbappé terem capacidade de sobra para, nos rasgos individuais que o seu talento permite, fazer pender para o seu lado os “pratos da balança”, é na força do colectivo que a selecção de Didier Deschamps impõe respeito. É sempre mais eficiente o envolvimento do “todo”, o “ataque planeado”, resultante do trabalho “laboratorial” que se faz nos treinos.

Na retina de todos está a caminhada francesa até às meias-finais: venceu o seu grupo (C) sem grande brilhantismo, após derrotar o Peru (1-0) e a Austrália (2-1) e empatar com a Dinamarca (0-0), mas nos oitavos e quartos de final eliminou a Argentina (4-3) e o Uruguai (2-0), o que poderá fazer crer que, ao acréscimo das dificuldades, corresponde uma melhoria no seu rendimento e eficácia. Por isso, este “teste” provará se, de facto, as “armas” de que dispõe saberão neutralizar a estratégia belga e como a “ultrapassar” no marcador. Ninguém terá dúvidas que a França ainda tem atravessada na garganta a “espinha” do Europeu e conquistar este Mundial seria o “grito de revolta”. Nas “apostas” sempre feitas nestas situações, o valor mais alto está no “efeito surpresa”, isto é, no lado dos belgas. Mas, a “sorte”, que às vezes também tem grande importância no campo, conta muito pouco para se perspectivar quem chegará a Moscovo.

 

Uma lenda francesa ao serviço dos belgas

Thierry Henry é um mito do futebol francês e maior marcador da história dos “bleus”, com 53 golos, mas em São Petersburgo irá vestir-se de “diabo vermelho”, como assistente de Roberto Martínez na semi-final entre Bélgica e França. “É raro tê-lo do lado contrário, como francês que é. É uma lenda viva do futebol francês, o artilheiro da selecção. Trouxe muito para a França, temos muito respeito pelo que fez”, declarou no domingo o atacante Olivier Giroud. “Ele dá conselhos bastante precisos e importantes aos belgas. Preferiria certamente que estivesse connosco e desse conselhos a mim e aos outros atacantes, mas não devemos ter ciúmes”, disse o jogador do Chelsea. Por sua vez, o presidente da Federação Francesa de Futebol, Noël Le Graët, reconheceu que o órgão tem pouco contacto com Thierry Henry, que, há um par de anos, é ajudante de “Bob” Martínez, preparando, talvez, uma futura carreira como técnico principal. “A vida é assim. Jogou sempre na Inglaterra. Está pouco presente na França e tem pouco contacto com a Federação”, assinalou o dirigente. Talvez Henry seja o único que não terá nada a perder nesta semi-final. “Se vencermos, ele também ficará feliz, porque, antes de tudo, é francês”, assinalou o lateral gaulês Lucas Hernández.

 

*Jornalista profissional especialista em desporto