Embora reconhecendo que há selecções mais fortes, Rodolfo Reis considera que também não se pode ignorar que Portugal é campeão da Europa. A equipa das quinas tem a “obrigação” de ultrapassar a fase de grupos, frisa o antigo futebolista do FC Porto, em entrevista à TRIBUNA DE MACAU

 

Costa Santos Sr*

 

“Não sou treinador porque tenho dignidade”! Com estas palavras ditas num programa desportivo de uma estação de televisão, Rodolfo Reis justificava, de forma um pouco enigmática, a razão que o levou a abandonar uma carreira de treinador (depois de 15 anos como jogador e sempre com a camisola do FC Porto vestida) iniciada no histórico Salgueiros (época 86/87) com passagens pelo Gil Vicente, Famalicão, Tirsense, Leça, Felgueiras, Beira-Mar e Nacional, terminando em 2000/01, como adjunto, no “seu” FC Porto.

Sem se pretender “desvendar o mistério da frase”, para quem conhece Rodolfo Reis a justificação assenta numa personalidade forte, fiel aos seus princípios e métodos e, por isso, incapaz de permitir que qualquer dirigente interferisse no seu trabalho. No seu currículo constam 332 jogos, 9 golos (era médio defensivo) e seis internacionalizações.

Hoje, Rodolfo Reis continua a fazer parte do painel do programa “Play-Off” da Sic Notícias. Em entrevista à TRIBUNA DE MACAU, fala hoje sobre o Campeonato do Mundo e a selecção portuguesa

 

– Ser campeão europeu fará elevar a fasquia do sonho de Portugal?

– Naturalmente que eleva a fasquia da expectativa. Acontece este ano com Portugal como aconteceu, no passado, com outras selecções. Mas também é verdade que um Mundial, em confronto com o poderio das equipas sul-americanas, aumenta a dificuldade para todos os ‘candidatos europeus’. Mas todos nós, desde os jogadores à massa adepta, passando pelos treinadores, estamos esperançados que Portugal possa passar à fase em que possa conquistar o título embora, em minha opinião, haja um lote de equipas com poderio bastante superior ao de Portugal.

 

– Sem rodeios, que perspectivas?

– Julgo que Portugal tem a obrigação de passar esta fase. Sem qualquer tipo de dúvida. Independentemente do lugar, primeiro ou segundo. Depois, vamos ver. É complicado estar a fazer futurologia, tudo depende de quem nos calhar jogo a jogo. Que existe vontade, que existe uma selecção que tem capacidade, tem um excelente lote de jogadores, existe. Mas em futebol, não raras vezes, isso não chega. Uma coisa é clara: desta fase Portugal tem obrigatoriamente que passar e depois é ir o mais longe possível. Poderá perguntar porque não chegar à final? É verdade, até poderá chegar e oxalá chegue! E as finais são sempre para se ganhar. Não éramos favoritos no Europeu e ganhámos!

 

– Sexta-feira, Portugal defronta a Espanha…

– Não é decisivo mas é importante. Quem ganhar – e espero que seja Portugal – fica logo com uma vantagem muito significativa mas há que ganhar às outras duas equipas – Marrocos e Irão –  porque não estou a ver a selecção espanhola ceder quaisquer pontos. Mas não é decisivo nem para um, nem para outro. Uma coisa não merece discussão: se o resultado frente a Espanha não for aquele que desejamos, Portugal tem o dever e a obrigação de ganhar a Marrocos e ao Irão. E se não o fizer, é evidente que não merece continuar na luta por “qualquer coisa”.

 

– Não parece muito optimista…

– Por norma sou realista. Portugal não é das melhores selecções, há outras bastante superiores. Agora estou optimista, como adepto do futebol, que Portugal passa à fase seguinte. Ponto final. E, depois, como um homem de futebol que sou, sei que Portugal irá encontrar adversários que lhe colocarão sérias dificuldades. E aqui, poderá acontecer tudo e neste tudo a vitória portuguesa.

 

– Podemos “desvalorizar” Marrocos, que nos deu amargos de boca em 86, e o Irão?

– Nada de desvalorizar. Compreendo a sua pergunta mas coloco outra: se não atribuirmos favoritismo a Portugal e Espanha na passagem à fase seguinte, com estes adversários, ou não percebo nada de futebol ou estamos todos aqui a encenar, irrealisticamente, uma peça sem pés nem cabeça. Coisas concretas e objectivas: Portugal é muito superior a Marrocos e ao Irão; é inferior à Espanha (na minha perspectiva). Portanto, se ganhar à Espanha é um feito importantíssimo, espectacular. Às outras duas, não tem duas alternativas, só uma: ganhar! Mas Marrocos já venceu Portugal? Já. Noutro contexto, com uma selecção carregada de problemas (quem não se lembra de Saltillo) e de nível muito inferior – volto a dizer, na minha perspectiva – do que a de hoje.

 

– E a filosofia de Fernando Santos?

– Excelente. Trabalhei com ele no FC Porto, sei muito bem da sua postura, da sua capacidade técnica e isso ficou provado no Europeu. Rigoroso nos seus métodos, tudo faz para não sofrer golos e, depois, acredita que num lance qualquer o golo possa surgir. Seguramente que Portugal não irá fugir disso: coesão defensiva, um meio-campo muito povoado e, na frente – penso que irá jogar com dois avançados móveis, o Cristiano e o Gonçalo – sempre a espreitar a oportunidade para marcar.

 

– O bloco defensivo será o que se apresentou frente à Argélia, com Pepe e Bruno Alves a centrais?

– Julgo que sim. Para mim o Rúben ainda não é um jogador de selecção, pelo estilo faltoso, pela falta de experiência. Por isso, temos três centrais (Pepe, Bruno Alves e José Fonte) para escolher dois. Estamos bem nas laterais e é um sector que dá confiança total. Até pela habituação que têm entre si…

 

– E o meio-campo?

– Um sector muito forte, com jogadores para várias soluções, com estilos diferentes mas que se completam. Há jogadores de estilo mais pausado e outros com capacidade de 1×1, causar desequilíbrios. Só há uma coisa: se o Fernando quiser jogar em 4x4x2 losango, só tem o William. Mas, volto a dizer, é um sector que tem ‘armas’ para várias soluções. E isso é tranquilizante.

 

– Na frente…

– Ronaldo e mais um! Os restantes serão os estrategas dos lances ofensivos que podem estar nas alas mas entram no espaço interior, tabelando, criando igualmente desequilíbrios muito importantes. E para os cruzamentos há o Quaresma!

 

– A esperança que resiste…

– Esperança e muita. Aliás, nós falamos dos outros e esquecemo-nos que os outros também temem o campeão da Europa!

 

*Jornalista profissional especialista em desporto