Manuel de Oliveira foi um os treinadores portugueses mais desejados, no seu tempo. Dizia-se nos bastidores que “operava milagres” ao dotar as suas equipas com uma capacidade física que, em jogo, lhes permitia tirar partido da alguma técnica dos seus jogadores com a velocidade que imprimiam no desenvolvimento do seu futebol.

Por isso, a União de Leiria, na altura presidida por João Domingos, não hesitou em oferecer a Manuel de Oliveira bem mais do que aquilo que ganhava no Portimonense e rebatendo, ainda, uma “letra” – um meio de pagamento muito usado nas décadas de 70 e 80… – de 60 mil escudos que o técnico trazia do clube algarvio-

Ora, a apresentação do treinador ao plantel e à comunicação social aconteceu num restaurante leiriense, na av. Marquês de Pombal, ainda em obras. E com pompa elevada, coube ao presidente, João Domingos, as primeiras palavras, enaltecendo a figura do novo técnico, salientando os seus feitos anteriores e vincando que “a União de Leiria tem, agora, um treinador capaz de conduzir o barco a bom porto”.

Foi um discurso longo, todo ele inflamado, para elevar o “moral das tropas”. No fim das suas palavras, quis anunciar os “oradores” seguintes. E fê-lo assim: “Agora falam os capitões”!

Manuel de Oliveira, a meu lado, segredou-me sem demora: ”eh pá, estou feito “ó” bife”!

Falaram os capitães, disseram de sua justiça, enviaram recados à estrutura e, por fim, a palavra do técnico, naturalmente a mais esperada por, como era hábito, traçar, logo ali, as linhas mestras do que ia fazer, dos resultados que desejava obter.

Manuel de Oliveira não se esqueceeu de apontar “que a União de Leiria está numa zona geográfica esplêndida, com o mar a uma dúzia de quilómetros”, coisa importante, na altura, porque segundo os planos de treino adoptados pela grande maioria dos técnicos, a praia e o pinhal eram locais indispensáveis à recuperação da massa muscular e da conquista de elevados índices físicos. E foi foi mais longe ao recordar que “temos a mata de São Pedro de Moel e as suas afamadas dunas”!

De imediato se fez ouvir a voz do presidente, João Domingos, alto e bom som: ”não são dunas, são “dúnias”.

Silêncio absoluto na sala com Manuel de Oliveira a terminar a conversa com um “já disse tudo”!

E estava tudo dito. Só faltava acrescentar “quero ir embora”.

Não o disse mas…foi. Uma semana depois estava no Marítimo!

 

C.S.