Umtiti “matou o jogo” aos 51 minutos e Deschamps teve cabeça para não embarcar em euforias, obrigando os belgas a fazer o que não sabem: ataque planeado. Para a França, foi a vitória do trabalho e da disciplina

 

Costa Santos Sr*

 

Um desvio de cabeça de Umtiti, aos 51’ de jogo, ditou o vencedor e quem, por direito, estará domingo na final do Mundial de futebol, no Estádio Luzhniki, em Moscovo. Mas, até esse momento, a vida dos gauleses não foi fácil, tranquila, nem dominadora. Para além de montar o seu dispositivo preferido, assente no conhecido 3x5x2, a Bélgica teve ainda determinação para fazer pressão sobre o homem da bola e vigilância “curta” sobre os possíveis desequilibradores, sobretudo Griezmann, Mbappé e Giroud. Sem espaço para se movimentar ou pensar o seu jogo e, sobretudo, sem os seus “homens-chave” com capacidade de manobra, a França viu-se “afunilada” entre as linhas belgas, obviamente descidas quando a defender mas depressa a procurarem o lançamento largo para os homens da frente, principalmente Hazard e Lukaku, apesar deste ficar muitas vezes fora da sua posição habitual por exigências da própria estratégia da equipa mas sempre debaixo dos olhos de Varane ou Pogba.

A primeira grande intervenção de um guarda-redes pertenceu a Lloris, aos 21’, para deter um remate de Alderweireld. Um lance que confirmava a maior desenvoltura atacante da Bélgica, que causava mais perigo. A França também tentava chegar à baliza de Courtois, mas raramente as bolas chegavam ao “gigante” belga. O “bloco” defensivo belga funcionava na perfeição, a entreajuda era completa e a própria França, “à cautela”, não arriscava demasiado, temendo o venenoso contra-ataque contrário.

As “gazuas” gaulesas tentavam, procuravam jogo mas não conseguiam urdir lances capazes de causar rombos na bem estruturada muralha belga. Com Griezmann e Mbappé bem vigiados, cabia a Matuidi, pelo corredor direito, tentar surpreender, inclusive com movimentos interiores. Mas Dembelé ou Chadli “saíam” ao seu encontro e ou saíam passes errados ou não restava outra solução senão atrasar o jogo. Só à passagem da meia-hora e graças a uma jogada de “laboratório”, a baliza belga passou por um momento de maior apuro: livre marcado por Griezmann e Giroud a desviar de cabeça, levando a bola a passar perto do poste direito de Courtois. Excepção à regra. A Bélgica, no seu estilo, mostrou um dispositivo táctico que travou todas as intenções dos gauleses em criar perigo junto à baliza de Courtois ou, sequer, tecerem lances envolventes que pudessem permitir uma finalização com êxito. O nulo ao intervalo “escondia” a vantagem belga, em jogo-jogado e oportunidades, e realçava a capacidade de Lloris, com um punhado de defesas de elevado grau de dificuldade.

 

O feitiço contra o feiticeiro

Porém, seis minutos depois do reatamento, após um canto marcado no flanco direito do ataque gaulês, num lance minuciosamente ensaiado, o defesa Umtiti surgiu solto na área belga para fazer um desvio ao primeiro poste e colar a bola às malhas. Um golo que, pressentiu-se, transformaria o cariz do jogo.

A Bélgica estava “condenada” a abandonar o seu sistema preferido e teria de correr atrás do prejuízo, forçar o ataque e procurar o golo. E bem tentou, mas sem a eficácia desejada e a eficiência necessária.

A França dispôs, a partir de então, de oportunidades flagrantes para aumentar a vantagem e isso só não aconteceu porque Courtois brilhou a grande altura e os dianteiros franceses, em vantagem no marcador, pareceram algo displicentes. Os belgas não “sabem atacar” e quem os “obrigar” a fazê-lo, ganha vantagem. Coube à França chamar o adversário para o seu terreno e usar o contra-ataque como arma. É verdade que não surtiu efeito, mas a vantagem já tinha sido conseguida e havia que a preservar antes de tudo.

Foi o suficiente para levar a França marcada para domingo (23:00 em Macau).

 

*Jornalista profissional especialista em desporto