epa12967259 Portuguese rider Afonso Eulalio of Bahrain Victorious wearing the overall leader's pink jersey before the 9th stage of the 109th Giro d'Italia cycling race over 184km from Cervia to Corno alle Scale, Italy, 17 May 2026.  EPA/LUCA ZENNARO
epa12967259 Portuguese rider Afonso Eulalio of Bahrain Victorious wearing the overall leader's pink jersey before the 9th stage of the 109th Giro d'Italia cycling race over 184km from Cervia to Corno alle Scale, Italy, 17 May 2026. EPA/LUCA ZENNARO

ANA MARQUES GONÇALVES*

António Amorim descobriu Afonso Eulálio na Internet e convenceu o líder do Giro a apostar no ciclismo de estrada, antecipando que o miúdo “muito curioso” e com pressa de aprender acabará no top 10 da ‘corsa rosa’.

“Não fui eu que fiz dele ciclista”, ressalva à partida o antigo corredor, antes de contar à agência Lusa a história que levou o figueirense a trocar o BTT pelo ciclismo de estrada.

António Amorim era treinador de juniores no Sport Ciclismo São João de Vêr e, na altura do defeso, no final de 2018, “precisava de uns ciclistas”. “Andei a fazer uma pesquisa na Internet e, como o BTT nos deu muitos bons ciclistas, eu fui vendo quem é que fazia os melhores resultados nas provas de BTT a nível nacional. […] O Afonso aparecia-me sempre bem colocado, estava sempre no ranking dos melhores”, detalhou.

Através do Facebook, o agora massagista da EF Education-Easy Post enviou uma mensagem a Afonso Eulálio, perguntando-lhe “se estava interessado em praticar ciclismo”. “Mostrou-se logo receptivo a isso. Agradou-lhe o meu contacto e a oportunidade de fazer ciclismo. Ele não tinha ligação nenhuma à estrada, não conhecia ninguém, praticamente”, recorda, em declarações à agência Lusa.

Quando chegou a São João de Vêr, o corredor “não tinha muita noção do que era ciclismo de estrada, nenhuma mesmo”, e teve de aprender aspectos técnicos e tácticos, como “vir ao carro buscar um bidão, abrigar-se do vento, andar em pelotão”. “Ele teve dificuldade, caiu logo na Volta a Loulé, que se não é a primeira, é a segunda [corrida da época]. E eu pensei, ‘pronto, se calhar, já vou perder ali o Afonso durante uns tempos, pode ganhar um trauma, receio. Mas não, ele era duro, mostrou dureza e estava logo pronto para a próxima”, lembra.

Apesar de ser “tudo novidade para ele” e de ter um acordo com Amorim para ir às principais provas de BTT – “seria ali uma 70, 80% de estrada, foi um bom negócio” -, Eulálio “começou a ter bons resultados” e ganhou duas corridas.

“Viu-se logo ali qualidade e ele também se entusiasmou”, diz o antigo ciclista e treinador, notando que o agora líder do Giro também percebeu que era mais fácil ser profissional na estrada.

António Amorim descreve à Lusa um miúdo que aprendia “muito rápido e era muito curioso” e que “perguntava muito sobre os treinos e o que é que devia fazer”. “Queria aprender muito rápido, porque sabia que estava contra o tempo. Praticamente é quase impossível, é muito difícil começar no segundo ano [de júnior] e depois vir a dar o ciclista que ele está a ser. Pode haver um ou outro, mas é muito difícil. Todos eles começam o mais tarde em cadete e ele foi no segundo ano”, destaca.

Quando começou na estrada, Eulálio “comia muito. “Estava sempre com fome, o que é próprio também da idade. Eu dizia ‘olha que tu sobes bem, vê lá se comes menos, estás um bocadinho fortezinho’”, brinca.

Embora notasse que o miúdo da Figueira da Foz tinha “qualidade para subir bem”, Amorim nunca imaginou que o agora corredor de 24 anos da Bahrain Victorious chegasse à liderança de uma grande Volta. “Vi logo qualidade nele, isso vi. Mas pensar que estaria a liderar a Volta a Itália? Isso foi agora mais com o tempo, quem está atento à carreira dele, que tem sido em crescimento, em progressão… Agora, em júnior, claro que não”, pontua.

Ainda assim, o massagista da EF Education-Easy Post acredita “muito” que Eulálio ficará no top 10 da ‘corsa rosa’, que começou em 8 de Maio, em Nessebar, na Bulgária, e termina em 31 de Maio, em Roma, antecipando mesmo que o líder do Giro teria uma boa prestação no contra-relógio de terça-feira.

“E ele também é irreverente. […] E se tiver um bocado de força, ele tenta ir ganhar algum tempo. Ele nunca abaixa os braços. Ele é muito forte mentalmente. É isso que também apreciei nele quando o treinei. Não se deixa intimidar, o que é bom”, conclui.

 

Eulálio recebeu tantas chamadas que falhou o telefonema de Seguro

O português Afonso Eulálio recebeu tantas chamadas quando chegou à liderança da Volta a Itália que nem atendeu o Presidente da República, com o ciclista a confessar que estar em casa é, agora, o seu hobby favorito. “O Presidente [António José Seguro] tentou ligar-me e deixou-me uma mensagem. Penso que devo estar a fazer algo bom. […] Nestes dias, tenho tantas chamadas e mensagens que não atendi e, umas horas depois, recebi a mensagem”, revelou numa conferência de imprensa em Lucca. Entre as chamadas que recebeu estava também a de Rui Costa, o ex-ciclista que foi campeão mundial de fundo em 2013 e que era o seu ídolo quando começou, ainda no BTT, vertente que experimentou com amigos, “depois da escola”, e que trocou pela estrada em 2019. Numa conferência de imprensa na qual falou sobre as suas expectativas para a Volta a Itália, “sem dúvidas” a prova mais dura que disputou, mas também das suas preferências clubísticas (é do Benfica), gastronómicas (risotto e barbecue) ou musicais (regaetón), Eulálio assumiu gostar da sua vida quando está em casa. “Em dois meses, tenho três, quatro dias em casa. Quando vamos para casa, para nós é como estar de férias. Agora, ter tempo para estar em casa, é o meu hobby favorito”, revelou.

 

*Jornalista da Agência Lusa