O Presidente chinês defendeu na semana passada a construção de uma “moeda forte” com estatuto global, enquanto especialistas alertam que o yuan só atingirá esse patamar com reformas estruturais profundas. O apelo de Xi Jinping foi divulgado pela Qiushi, principal revista teórica do Partido Comunista (PCC). O líder traçou os atributos de uma verdadeira potência financeira: base económica sólida, força tecnológica de topo, instituições competitivas, centros financeiros internacionais e uma moeda amplamente utilizada e credível. Apesar da dimensão dos activos bancários e reservas cambiais chinesas, Xi reconheceu que a economia do país continua a ser “grande, mas não forte”. Transformar o yuan numa moeda de reserva global exigirá um “esforço prolongado”, segundo o Presidente. “Devemos melhorar a capacidade de regular os mercados, prevenir riscos sistémicos e manter a estabilidade financeira global”, sublinhou. Mas especialistas alertam para os limites dessa ambição, face ao actual modelo de governação da China. Michael Pettis, investigador da Universidade de Pequim, disse à agência Lusa que tornar o yuan uma alternativa real ao dólar norte-americano implicaria reformas “incompatíveis com o sistema político chinês”, como liberalizar os mercados de capitais, permitir entradas e saídas livres de capital, e garantir um sistema legal transparente, previsível e com precedência sobre as autoridades governamentais. “Uma economia que permite fluxos de capital livres não pode manter simultaneamente uma taxa de câmbio fixa e uma política monetária independente”, advertiu, acrescentando que o mercado financeiro chinês continua vedado ao capital estrangeiro e ao escrutínio judicial independente. Wu Xiaoqiu, director da Academia Nacional de Investigação Financeira da Universidade Renmin, fez eco dessas preocupações durante um fórum em Pequim, defendendo que o sucesso do yuan dependerá de três pilares: primazia do mercado, Estado de direito e estabilidade institucional. “O caminho para tornar o yuan uma moeda de reserva passa por uma transformação institucional. Não basta força administrativa ou dimensão económica”, afirmou. Actualmente, o yuan ocupa o terceiro lugar entre as moedas internacionais, com um índice de internacionalização de 5,68%, segundo Wu, e a ambição de Pequim é elevar esse valor para 20% até 2035. Contudo, o investigador frisou que a circulação externa do yuan permanece limitada, devido à falta de mecanismos eficazes de retorno de capital e a desequilíbrios estruturais persistentes. Para que o yuan ganhe estatuto global, seria necessário permitir o acesso a activos domésticos diversos, liquidez fácil e um quadro regulatório imparcial – reformas consideradas difíceis sob o controlo centralizado do PCC, segundo os especialistas. A utilização internacional da moeda chinesa tem vindo, porém, a crescer, impulsionada pelas relações comerciais com a Rússia, que se intensificaram após as sanções ocidentais, e pela assinatura de acordos de compensação com países como a Arábia Saudita, Brasil, Argentina ou Mongólia. A Zâmbia começou recentemente a aceitar impostos em yuan de empresas chinesas, canalizando os valores para o pagamento de dívida e financiamento de importações. O Brasil anunciou planos para emitir dívida soberana denominada em yuan no mercado chinês. Apesar desses avanços, o renminbi representava, até ao final de 2025, apenas 4,74% dos pagamentos internacionais, mantendo-se atrás do dólar, do euro e da libra esterlina, de acordo com dados do sistema Swift.
João Pimenta, delegado da agência Lusa em Pequim



