A ausência de qualquer menção à desnuclearização durante a visita do Presidente chinês à Coreia do Norte confirmou uma política cada vez mais pragmática em Pequim, focada na preservação da estabilidade regional em vez de procurar concessões de uma Pyongyang fortalecida pela aliança com Moscovo. A visita de dois dias, que terminou ontem, foi a primeira de Xi Jinping ao país vizinho em sete anos e a sua primeira viagem oficial ao estrangeiro em 2026, demonstrando a importância que Pequim atribui à relação bilateral numa altura em que vários líderes se deslocam à China. Junto ao monumento que honra os soldados chineses que participaram na Guerra da Coreia, Xi e Kim prometeram “manter vivo o grande espírito da Guerra de Resistência contra a Agressão dos EUA e de Ajuda à Coreia”, a designação oficial da China para a sua intervenção naquele conflito (1950-53). Esta foi a única referência aos EUA durante a visita de Xi, segundo as informações divulgadas pelos dois países. Também visitaram ontem a Escola Central de Formação de Quadros do Partido dos Trabalhadores, principal instituição de educação política da Coreia do Norte, onde presenciaram uma aula sobre as relações entre Pequim e Pyongyang, após terem chegado ao ‘campus’ num veículo eléctrico e plantado juntos um abeto, símbolo da amizade bilateral, segundo a Xinhua. Na noite anterior, assistiram a uma apresentação artística, com canções, danças e acrobacias dedicadas à amizade entre os dois países, que terminou com uma peça intitulada “Que a amizade entre a Coreia do Norte e a China dure para sempre”. Xi e Kim concordaram em abrir “um novo capítulo” nas relações bilaterais e defenderam o reforço das trocas diplomáticas e militares, mas não houve qualquer referência oficial à desnuclearização, ao contrário das ocasiões anteriores. A posição oficial da China tem sido tradicionalmente a de defender a desnuclearização da Península Coreana, sempre ligada a uma solução política e a uma estrutura de segurança mais vasta, e não apenas a exigências dirigidas a Pyongyang. Em 2018, na primeira visita de Kim à China desde que assumiu o poder, a agência Xinhua atribuiu ao líder norte-coreano um compromisso com a “desnuclearização da península”, uma questão que também apareceu nas comunicações oficiais durante a visita anterior de Xi à Coreia do Norte, em 2019. Porém, no seu livro branco sobre o controlo de armas e a não proliferação, publicado em 2025, a China não citou a desnuclearização como um objectivo específico para a Península Coreana, limitando-se a defender a paz e estabilidade na região, bem como a resolver a questão “através de meios políticos”. Questionado ontem se Xi e Kim discutiram o programa nuclear norte-coreano e se a China continua a pressionar pela desnuclearização, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês afirmou simplesmente que a posição de Pequim é de “continuidade e estabilidade”. Numa análise para a “Brookings Institution”, Zheng Jiyong, da Universidade de Estudos Estrangeiros de Tianjin, defendeu que Pequim está a privilegiar uma abordagem de “estabilização primeiro, desnuclearização depois”, considerando uma estratégia rígida de desarmamento nuclear “impraticável”. “Isto não equivale a reconhecer a Coreia do Norte como um Estado nuclear legítimo”, ressalvou. Segundo o especialista, Pequim teme uma escalada regional mais do que uma “realidade nuclear congelada”, uma vez que o aumento da pressão sobre Pyongyang poderá reforçar a coordenação militar entre Washington, Tóquio e Seul.

 

JTM com agências internacionais