Populares atravessam uma estrada alagada, em Mahocha Homo, Maputo, 20 de janeiro de 2026. No meio de cheias sem memória em Moçambique a moto é o último transporte em Mahocha Homo, a meio caminho entre Manhiça e Palmeiras, onde as águas de um pequeno riacho, que mal alimentava os campos agrícolas, galgaram a estrada. (ACOMPANHA TEXTO DA LUSA DO DIA 24 DE JANEIRO DE 2026). LUÍSA NHANTUMBO/LUSA
Populares atravessam uma estrada alagada, em Mahocha Homo, Maputo, 20 de janeiro de 2026. No meio de cheias sem memória em Moçambique a moto é o último transporte em Mahocha Homo, a meio caminho entre Manhiça e Palmeiras, onde as águas de um pequeno riacho, que mal alimentava os campos agrícolas, galgaram a estrada. (ACOMPANHA TEXTO DA LUSA DO DIA 24 DE JANEIRO DE 2026). LUÍSA NHANTUMBO/LUSA

Na Escola Comunitária Filipe Samuel Magaia, província de Maputo, transformada há semanas em centro de acolhimento para deslocados, Abdul não pensa voltar para casa, inundada, pedindo apenas um novo terreno, numa área segura, para tentar recomeçar a vida. “A minha ideia é de nos darem um espaço só para construirmos e fazermos as nossas vidas, não estou a pensar em voltar para casa”, pede Abdul Jossias, no centro de acolhimento montado naquela escola, na localidade de Estevele, distrito de Boane, no sul da capital moçambicana.

Abdul, 42 anos, recorda ter conseguido salvar a família, de seis pessoas, depois de ver a casa inundada na localidade de Mazambanine, em Boane, relatando estar a viver o drama das inundações pela segunda vez. Alguns anos depois, vê-se de novo acolhido num centro de deslocados, onde diz faltar um pouco de tudo, sobretudo alimentação.

“A situação aqui está péssima, estamos a passar mal”, desabafa, junto dos amigos que montaram uma estação para carregamento de telemóveis perto de uma brigada de saúde, dirigida pelos médicos militares.

Abdul Jossias quer fazer desta a última vez que é acolhido num centro devido às inundações, onde há dezenas de tendas para as vítimas, pedindo a atribuição de um novo espaço para erguer uma casa em segurança.

“Passei mal com as cheias de 2023 e este ano aconteceu a mesma coisa”, recorda, de rosto cansado, ao pensar em reconstruir a vida, de novo.

Desde o início da época das chuvas, em Outubro, incluindo as cheias de Janeiro, há registo de mais de 200 mortos e acima de 845 mil pessoas afectadas, segundo dados oficiais.

Para apoiar o centro onde está acolhido em Boane, o banco privado moçambicano MozaBanco anunciou ter doado nos últimos dias bens e produtos alimentares, que inclui feijão, arroz, produtos de higiene e roupas, iniciativa que está a ser replicada por várias instituições privadas, face à falta de recursos públicos para os 100 mil deslocados que chegaram a ocupar mais de 100 centros de abrigo criados no país desde Janeiro.

No mesmo centro, Joana Francisco, 36 anos, mãe de três, recorda também ser a sua segunda vez que é afectada pelas cheias. Em 2023 viu a água tomar a casa e conta que só sobreviveu por ter sido resgatada.

“Sou das cheias de 2023, perdi tudo, quando fui tirada das águas passei por cima da minha casa com barco quando fui resgatada, não reconhecia. Já não tinha nada, nem árvore, nem nada”, conta à Lusa, lembrando que aquele cenário é para “esquecer” e rejeitando a hipótese de passar pelo mesmo novamente.

Em Janeiro, voltou a ver a sua localidade de Estevele, distrito de Boane, a ser tomada pelas inundações, com a zona isolada pelas águas.

“Nós todos terminávamos na vila, saíamos da vila de Boane para aqui e daqui para a vila, mas eu achei que estava tudo bem porque não houve nenhuma morte”, detalha, a partir do centro de acolhimento na Escola Comunitária Filipe Samuel Magaia.

Joana também se queixa de falta de condições básicas naquele centro, desde o alimento à higiene pessoal para preservar a sua vida dos membros da sua família, mas admite ser melhor ficar por ali a voltar para uma casa já irreconhecível. “Eu aqui estou para recomeçar, não penso em voltar atrás, porque voltando atrás estou a dar trabalho, sempre vão ter que tirar a mesma pessoa”, salienta, saudando a existência de serviços de saúde oferecidos por médicos militares para atender doentes.

 

JTM com Viriato Simbine da agência Lusa