O feriado do Festival da Primavera, o mais longo da história da China, registou gastos e um número de viajantes recorde, mas os consumidores chineses mantiveram-se cautelosos apesar dos esforços do governo para impulsionar o consumo interno. O feriado de nove dias, de 15 a 23 de Fevereiro, registou gastos em turismo interno de 803,5 mil milhões de yuans – um aumento anual de quase 126,5 mil milhões, segundo dados do Ministério da Cultura e Turismo. Porém, analistas duvidam que os gastos se possam manter após a época festiva, uma vez que cada pessoa gastou, em média, 150 yuans por dia durante os feriados, uma descida face aos 168 yuans anotados em 2025. Ao longo dos nove dias, foram realizadas 596 milhões de viagens domésticas em todo o país, mais 95 milhões do que em 2025. Alguns destinos turísticos populares, como a Área Cénica de Dujiangyan, em Chengdu, tiveram de impor medidas de controlo de público mesmo no último dia do feriado, e outros, como o Parque Nacional de Dujiangyan também reduziram o fluxo de visitantes. O Parque Nacional de Jiuzhaigou estava lotado no dia seguinte ao fim do feriado. Salientando que os gastos ‘per capita’ caíram 0,23% em termos anuais, a economista Sarah Tan, da “Moody’s Analytics”, disse que isto sugere que as famílias ainda estão atentas aos custos de viagens e experiências em ocasiões especiais como o Festival da Primavera. “Por esta razão, estamos cépticos de que o aumento dos gastos durante o feriado se traduza num crescimento sustentado”, disse Tan. Numa nota de 25 de Fevereiro, a Goldman Sachs afirmou que a receita do turismo per capita estava 8,8% abaixo dos níveis pré-pandemia e 2,6% aquém da Semana Dourada do Dia Nacional da China, em Outubro de 2025. Isto apesar dos esforços de Pequim para estimular o consumo interno através de uma série de medidas políticas. As autoridades destinaram cerca de 2,05 mil milhões de yuans a programas de estímulo ao consumo, como vouchers, subsídios e incentivos digitais, com o objectivo de impulsionar o retalho e o consumo. Uma iniciativa fundamental foi um projecto-piloto de “lotaria de facturas” lançado em 50 cidades, com mais de mil milhões de yuans em prémios reservados para distribuição durante os feriados. Os consumidores que gastaram 100 yuans ou mais em compras, restaurantes, turismo ou alojamento nas cidades participantes puderam enviar as facturas para se habilitarem a prémios de até 800 yuans. O Ministério do Comércio planeia expandir o total dos prémios para 10 mil milhões de yuans ao longo de um período de seis meses. Gary Ng, economista sénior da Natixis em Hong Kong, afirmou que as medidas políticas podem oferecer apenas ajuda limitada, uma vez que 2,05 mil milhões representam apenas 0,0015% do PIB da China e equivalem a 1,46 yuans por pessoa. “Os governos locais têm o mandato de apoiar o consumo, mas não têm capacidade fiscal para medidas de maior escala”, comentou. O intenso fluxo de viagens do Festival da Primavera na China, conhecido como chunyun, é amplamente utilizado como barómetro do sentimento do consumidor e da vitalidade económica. É frequentemente considerada a maior migração humana anual do mundo, com milhões de pessoas a viajar por lazer ou para visitar familiares. As vendas médias diárias nas principais empresas de retalho e alimentação subiram 8,6% nos primeiros quatro dias dos feriados, na comparação homólogas, segundo o Ministério do Comércio. Em relação às vendas de bens de consumo, a imprensa estatal informou que os dispositivos inteligentes, como óculos com inteligência artificial e monitores de saúde, registaram um crescimento sólido, impulsionado em parte pelos subsídios governamentais para trocas e incentivos ao consumo. Em contraste, a frequência do cinema – normalmente um ponto alto do feriado – caiu para 120 milhões de espectadores, face ao recorde de 187 milhões em 2025, na primeira queda anual desde 2022. A receita também caiu face a 2025, em parte devido à falta de um grande sucesso de bilheteira como Ne Zha 2. Para além dos pontos turísticos tradicionais, os museus de ciência e tecnologia registaram um grande fluxo de visitantes, com 3,5 milhões de visitas durante o feriado, face aos 3 milhões de 2025, reflectindo o crescente interesse público em actividades com temas de inovação. Os consumidores chineses também participaram no que os meios de comunicação estatais chineses chamaram de “corrida ao ouro” durante os feriados, com muitos a comprar jóias e barras de ouro para casamentos e presentes, apesar dos preços historicamente elevados, que ultrapassaram os 5.100 dólares por onça.
JTM com agências internacionais



