O Presidente dos EUA confiou na sua intuição e, em grande parte, ignorou a coordenação diplomática ao tomar a decisão de lançar ataques contra o Irão, com Israel. Mas agora, com as consequências económicas e geopolíticas da guerra a desenrolarem-se rapidamente, está a persuadir os aliados e outras potências globais a ajudá-lo a resolver o problema. Donald Trump afirma ter pedido a cerca de meia dúzia de outros países que enviem navios de guerra para reabrir o Estreito de Ormuz, importante via navegável por onde passa um quinto do petróleo comercializado no mundo. Até ao momento, nenhum se comprometeu. Trump chegou a indicar que usaria a sua viagem à China, há muito planeada, para pressionar Pequim a ajudar numa nova coligação para restabelecer o tráfego de petroleiros através do estreito – uma ideia que o seu secretário do Tesouro desvalorizou mais tarde. “Encorajamos vivamente outras nações cujas economias dependem do estreito muito mais do que a nossa. Queremos que venham e nos ajudem com o estreito”, disse Trump na Casa Branca, citando Japão, China, Coreia do Sul e vários países da Europa como exemplos. Trump defendeu que o canal de navegação não é algo de que os EUA necessitem devido ao seu próprio acesso ao petróleo. É este tipo de intimidação que lhe garantiu importantes vitórias em política externa no seu segundo mandato, como levar quase todos os países da NATO a aumentar as despesas com a defesa em 2025, depois de os aliados serem acusados de se aproveitarem da generosidade americana, e a usar tarifas para extrair investimento e concessões dos parceiros comerciais. A China não se compromete. Japão, Austrália e os países europeus deram-lhe uma nega, salientando que esta guerra não é da Europa. Trump diz que a falta de interesse em ajudar a garantir a segurança do estreito confirma as suas suspeitas sobre os benefícios de trabalhar com outros países, porque “se algum dia precisarmos de ajuda, eles não estarão lá para nós”. “Sempre achei que esta era uma fraqueza da NATO”, criticou Trump. “Íamos protegê-los, mas sempre disse que, quando precisássemos, eles não nos protegeriam”. Pouco depois, contudo, Trump insistiu que os EUA não precisam da ajuda de ninguém porque “somos a nação mais forte do mundo”. Apesar disso, a pressão continua. A secretária de imprensa da Casa Branca, quando questionada sobre o motivo pelo qual outras nações que não foram consultadas nem envolvidas deveriam colocar as suas tropas em perigo para garantir a segurança de Ormuz, argumentou que outros países estavam a beneficiar directamente da tentativa de Trump de desarmar o regime iraniano. “Isto é algo com que não só os EUA, mas todo o mundo ocidental concorda há muitos, muitos anos”, disse Karoline Leavitt. Noutra ocasião, Trump sinalizou, ao Financial Times, que “gostaríamos de saber”, antes de partir para a cimeira em Pequim, no final de Março, se a China ajudará a garantir a segurança do estreito devido à sua dependência do petróleo do Médio Oriente, acrescentando: “Podemos adiar”. Horas depois, num evento na Sala Oval Trump revelou que pediu à China para adiar a viagem “por um mês ou mais”. No entanto, o cancelamento da visita ao Presidente chinês Xi Jinping poderá ter grandes consequências económicas, uma vez que as relações entre as duas maiores economias do mundo continuam tensas devido às tarifas e a outras questões. Em entrevista à CNBC, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou que qualquer atraso não se deve a disputas sobre o estreito e pediu explicitamente aos investidores que não reagissem negativamente caso Trump adie a viagem. “Se a reunião for reagendada por algum motivo, será por questões logísticas”, disse Bessent em Paris, onde se reuniu com o vice-primeiro-ministro chinês, He Lifeng, para uma nova ronda de negociações comerciais. Nos primeiros dias do conflito com o Irão, Trump afirmou que os navios da Marinha americana iriam escoltar os petroleiros através do estreito e desvalorizou a ameaça representada pelo Irão. Mas, com a subida vertiginosa dos preços do petróleo, ele e o seu Governo foram obrigados a considerar novas opções – incluindo a ideia, agora avançada, de que outros países se juntassem à iniciativa com os seus próprios navios de guerra. Bessent desvalorizou o impacto da guerra nos preços do petróleo e acusou os media de “tentarem transformar isto numa crise que não existe”. Fazendo eco de Trump, o secretário insistiu que os preços iriam cair após o fim do conflito. A China, que enfrenta as suas próprias pressões económicas, reduziu recentemente ligeiramente a sua meta de crescimento para 2026 para 4,5% a 5%, o crescimento projectado mais lento desde 1991, o que significa que interrupções prolongadas no estreito poderão ter impactos a longo prazo também para Pequim. Na Casa Branca, Trump foi questionado sobre o que os seus conselheiros lhe disseram relativamente ao tempo que os preços da gasolina se manterão elevados. Trump ignorou a pergunta, mostrando mais uma vez que, no final de contas, confia nos seus próprios instintos. “Não preciso de assessores para me dizerem isso”, disse. “Eu sei o que é.”
JTM com agências internacionais



