Desde o Curdistão, no oeste do Irão, até às margens do Golfo e em Teerão, repórteres da AFP falaram com iranianos para traçar o panorama das suas vidas sob os bombardeamentos diários dos EUA e Israel. Muitos relatam um país onde a guerra está em toda a parte e expressam angústia, frustração com a alta dos preços, raiva pelos cortes de internet e, no caso dos opositores ao governo, medo da repressão. Este é o testemunho de pessoas contactadas pela AFP por telefone, redes sociais ou ao chegarem às fronteiras com a Arménia, a Turquia e o Afeganistão. Alguns preferiram manter o anonimato.

-Reza, 36 anos: gerente de um café em Bukan, no Curdistão iraniano- “Exploro um café bem no centro da cidade. Nessas duas últimas noites, o horror bateu à nossa porta. O prédio da Câmara e a base do Corpo da Guarda Revolucionária, situados a apenas 200 metros, foram completamente pulverizados por ataques israelitas e americanos. Hoje, as ruas estão cheias de escombros de foguetes e restos de prédios destruídos. No entanto, contra todas as expectativas, as pessoas continuam a vir ao café. O que mais me surpreende é que insistem em sentar-se na varanda para ver os bombardeamentos, como se fosse um espectáculo”. -Mustafa, 27 anos, pescador: “Estávamos perto do porto de Bandar Abbas, a situação não era boa, então fomos embora, caíam mísseis. O trabalho estava paralisado, os produtos estavam tão caros que ninguém podia comprá-los”.

Mohammad, 38 anos: empregado numa granja avícola- “Os produtos ficaram muito caros. O preço de um galão de óleo passou de 400 mil tomanes (1,56 USD) para 2,2 milhões (8,25 dólares)”.

-Professora, 26 anos: “Para pessoas como eu, a vida parou. Estamos a ver notícias quase o tempo todo. Todos estamos muito stressados. Tentamos preparar reservas de água, comida e uma bolsa de emergência. Quando se ouvem as bombas, não temos ideia de onde vão cair. Não acho que alguém tenha capacidade mental ou física para suportar a guerra por muito tempo. O grupo mais vulnerável são as crianças, que têm muito medo. As menores não querem separar-se dos pais. Nem sequer podemos entretê-las em casa porque não há internet, então não podem jogar online nem assistir a programas infantis”. -Mahmed, 34 anos, tradutor: “Há muitos agentes policiais, mas não é dramático. Há bastantes espiões e o governo iraniano tenta identificá-los. Como a situação nas ruas é tensa, não saio muito. Há dois grupos: os que apoiam o governo e os que se opõem. Nalguns dias sai um grupo, nos outros dias é o outro que se manifesta. Nos últimos dias, as ruas estiveram principalmente cheias de pessoas de luto após o assassinato do aiatola Ali Khamenei”. -Robert, 60 anos: “Teerão esvaziou-se e muita gente foi embora. Ouvem-se explosões. Foram instalados postos de controlo na cidade para evitar saques e manter o controlo. As forças de segurança estão presentes com armas e equipamentos especiais. (…) As pessoas têm medo”. -Amir, 40 anos: “Antes pensávamos que, se estourasse uma guerra, a electricidade seria cortada e, por efeito dominó, a água e o gás também. Mas a República Islâmica demonstrou que é inimiga do povo: nada foi cortado, excepto a internet. Sem internet, não sabemos as notícias, os alertas de evacuação nem o que acontece com nossos entes queridos. Desde o início da guerra, a cidade está muito mais fechada sobre si mesma, mas ainda há lojas abertas. Algumas fecham por falta de clientes. Houve filas para conseguir gasolina nos dois primeiros dias, mas agora já não”. -Comerciante de Shiraz (sul) “Estamos a salvo por enquanto. Parece que só atacam bases militares. Ouvem-se os ataques e dizemos em voz alta: ‘bem feito’. Depois da morte de Ali Khamenei, as pessoas saíram às ruas e comemoraram. As ruas estavam cheias de gente. Na noite seguinte, os partidários do governo começaram a desfilar de carro pelas ruas, agitando a bandeira da república islâmica e bandeiras negras para mostrara sua tristeza. Os partidários são muito poucos. Provavelmente, na sua maioria, famílias dos Guardiões da Revolução ou pessoas ligadas ao regime”.

JTM com agências internacionais