Deixando pelo menos 1.450 mortos, 3.150 feridos, milhares de desaparecidos e uma vasta destruição material, os sismos que atingiram a Venezuela na passada quarta-feira desencadearam a maior emergência humanitária da história recente do país e evidenciaram problemas estruturais acumulados durante décadas. A magnitude dos danos pôs à prova um aparelho de Estado que sofria de deterioração institucional prolongada, deficiências na manutenção das infra-estruturas e limitações operacionais. Segundo observa a agência EFE, as dificuldades no resgate das vítimas, na mobilização da ajuda e na reposição dos serviços básicos mostram que o país não estava preparado para enfrentar uma catástrofe desta dimensão. A chegada massiva de feridos sobrecarregou hospitais e centros de saúde em várias zonas afectadas. A crise pôs mais uma vez em evidência problemas relatados durante anos pelos sindicatos médicos e organizações humanitárias, como a escassez de fornecimentos, a deterioração do equipamento, a escassez de pessoal e as dificuldades em lidar com emergências complexas. Os sismos atingiram também um sistema eléctrico enfraquecido por falhas recorrentes, apagões e falta de investimento. Apesar de ter as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta, a Venezuela produz actualmente cerca de 1,2 milhões de barris por dia, muito abaixo dos mais de três milhões que extraiu nos seus melhores anos, continua a registar uma das maiores inflações do mundo, e enfrenta severas restrições de financiamento e uma pesada dívida externa. A este panorama somam-se os efeitos das sanções impostas durante anos pelos EUA e outros países, que limitaram o acesso da Venezuela ao crédito, ao investimento e aos mercados financeiros, especialmente no sector petrolífero. Embora Washington tenha relaxado parte das restrições após a captura de Nicolás Maduro e o reconhecimento do Governo de Delcy Rodríguez, a economia venezuelana sofre com as consequências de anos de isolamento financeiro e deterioração produtiva. A emergência evidenciou também o peso das relações externas. Embora a Venezuela tenha vivido um momento de certa abertura após a captura de Maduro, a situação com boa parte da América Latina e da Europa ainda não se normalizou. Ainda assim, os terramotos abriram uma trégua humanitária inesperada. Países que até há pouco tempo mantinham fortes disputas com Caracas, especialmente por causa das eleições contestadas de Julho de 2024, ofereceram ajuda e estabeleceram contactos directos com Rodríguez para coordenar a assistência. A grande incógnita é se esta diplomacia humanitária se pode traduzir numa abertura internacional mais duradoura. A reconstrução exigirá recursos, financiamento e apoio técnico que a Venezuela dificilmente conseguirá mobilizar sozinha.

 

JTM com agências internacionais